
É inquieto o fundador da banda Talking Heads. David Byrne faz de tudo e sempre explora até o limite de criatividade a matéria que lhe chega às mãos. O cara faz música, inventa ritmos, faz esculturas, intervenções, produz discos, faz instalações, filmes, fotografia. Há pouco tempo lançou “Diários de Bicicleta”.
O título, obviamente uma referência aos “Diários de motocicleta” do Che, é também o resumo de sua nova e antiga atividade: os diários (que passou a escrever em um blog) e a bicicleta (que faz parte da sua vida há trinta anos como seu único meio de transporte nas cidades onde chega e em Nova York onde mora). Mas a bicicleta de Byrne só vai por cidades ao invés de “senderos” outros, e sua atitude política é mais reflexiva do que revolucionária, embora haja ali uma atitude política que vai desde o sentido ecológico até as reflexões que implicam numa mudança de viver e interagir com o seu meio.
O título, como o livro, não pode também deixar de ser visto como uma referência ao estilo “on the road” pelo menos em um aspecto: o registro da passagem por um lugar e o que dessa passagem fica. Assim, como em muitas de suas canções, o que fica para quem lê é algo que, sem ser definitivo, é impossível de ser ignorado.
Sua mistura tantas vezes observadas nos discos, como música eletrônica com batidas de funk, estruturas minimalistas do clássico, ritmos percurssivos africanos misturados a algo do gospel ou até do country; o fluxo de consciência que muitas das suas composições guardam, oferecendo duas possibilidades de sentidos: a do sonho e a da vida disparatada, brincando com as palavras e com as imagens, são também ressonantes em seus diários.
Com prefácio de Tom Zé, o livro é um convite agradável às reflexões sobre o urbano e o humano. A obra traz pequenos ensaios e reflexões de temas surgidos dos passeios de bicicleta feitos por Byrne por bairros de várias cidades do mundo, como Buenos Aires, Nova York, Istambul, Berlim, San Francisco e outras assim cosmopolitas. Como a bicicleta, que depende do impulso humano para mover-se, Byrne mostra que a vida nas cidades depende de uma ativa combinação de forças que possam unir a criatividade, o espírito, a ação política, o humano de cada um aos espaços urbanos.
A bicicleta é extensão de seu corpo, por ela perpassa o ritmo de sua respiração; ela produz o vento que lhe bate na face ou dissemina o calor por todo o seu corpo, e para ele é a maneira de embrenhar-se vivo, de respiração alterada e corpo sensibilizado, por becos e lugares sórdidos, por bares e ruas, por vidas perdidas e achadas, lugares planejados de arquitetura arrojada e lugares sombrios e desprezados pela ordem urbana.
Tais passeios narrados no livro são como um filme possibilitado pela mobilidade oferecida por esse meio de transporte que, por sua vez, depende da vontade e da direção de quem maneja a câmera, isto é, a bicicleta. David deixa que suas análises revelem muito da cidade e dos caminhos que o levaram ali enquanto reflete sobre violência, memória, estereótipos, censura, e relações humanas dentro de um grande labirinto que é uma cidade.
Ele de fato elege a bicicleta como a forma eficiente de interagir, conhecer e refletir sobre os lugares da cidade e as pessoas que estão nela, pela velocidade apropriada (nem carro e nem trem permitem que o tempo seja controlado exclusivamente pela vontade do sujeito) e porque é o único meio que permite uma penetração total em qualquer lugar de uma cidade.
É o anonimato do ciclista outra característica interessante. Não há necessidade de que esse observador se materialize em persona, apenas que, tal e qual uma bicicleta, anonimamente desperte a vontade de seguir adentrando-se na cidade para sentir-se parte dela e conhecê-la profundamente; sensivelmente descobrir cores, formas, cheiros, música, gente que nem se pensou existir.
Diários de bicicleta/ David Byrne/Amarilys/333 p/49 reais
Publicado no A tarde 27/02/2010