quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Literatura: um presente natalino cool






Publicado no jornal A tarde, caderno 2+, em 18/12/2010

Milena Britto – professora do Instituto de Letras da Ufba

No tempo das intensas trocas visuais e sonoras – muito bem-vindas também, à medida e com critério –, a palavra tem se tornado um objeto cada vez mais especial. O livro é um presente cool, da onda, do tempo, bem mais interessante do que a demodé agenda, o cartãozinho caro, a bugiganga que fica esquecida nas gavetas da casa ou os dez chaveiros para duas chaves.
O livro – universal, unissex, “unicolor” em sua condição primeira - é uma canastra com múltiplos sentimentos a serem descobertos: surpresa, dor, amor, saudade, poesia, ira, paixão, desconfiança, esperança. É o cinema mudo – e o falado – é a imagem reconfigurada, a música de ritmo alucinante, o homem reinventado.
Para não se dizer que livros são delírios solitários, eles são também “comunidades”, coletivam, compartilham, atuam, conjugam ideologias, suspeitas e saberes.
Os livros são as ditaduras e as guerras denunciadas sob ângulos e sotaques distintos dos oficiais; os sexos prazenteiros e os estéreis; as luzes de todas as cidades. O livro tinha mesmo de voltar a ser cool, passada a onda de previsões ardilosas sobre a sua extinção diante das tecnologias e do império do visual. Que nada: o livro é um fetiche do homem, vicia pelo cheiro, pelo tato, pela visão. O livro nos encantou e tem-nos aqui, diante dele como loucos, ávidos, tensos, nervosos, felizes.
Livro é presente certo. E para todos os bolsos e gostos há opção. Trago as minhas dicas, para começar, mas aconselho que ao invés de bater perna pelas mil lojas das dezenas de shoppings da cidade, o leitor se dirija a uma livraria, um sebo, uma loja virtual e se inspire com as possibilidades infinitas de se encontrar “o livro”.
“Clarice,” a biografia do Benjamin Moser, é um livro para todos; é útil para quem estuda literatura e leitura agradável para os que apenas gostam de ler; os leitores de Clarice farão suas leituras conforme queiram e as críticas são pertinentes também. É um livro bonito, desejável, informa, diverte, emociona.
“Meu último suspiro, biografia de Luis Buñuel” é para os que gostam do cinema e da palavra, livro bacana pelo conteúdo, pelas imagens, pela história indireta do cinema.É emocionante ler sobre a vida intensa do diretor espanhol e ver o brilho de sua arte, a sensibilidade humana, a astuta e afinada observação política do mundo.
Para os que se encantam com poesia, há livros ótimos, desde a poesia rebuscada e com elementos de erudição poética como “As horas de Katharina”, de Bruno Tolentino, passando por “Sob o céu de Samarcanda”, de Ruy Espinheira Filho, aos poetas mais jovens, urbanos ou “marginais” como Kátia Borges e o seu “Ticket Zen”, Karina Rabinovitz e o livro “quase” instalação poética “Livro do quase invisível”, a poesia do “movimento” de Zinho Trindade- o neto de Solano Trindade- com seu “Tarja preta”; a de Marcos Vinícius no livro “3 vestidos e seu corpo nu” – também recomendo o livo de contos do autor “Eros resoluto" - e a de Fabrício Corsaletti em “Esquimó”.”
Além de “2666”, obra muito festejada em 2010, “Estrela Distante” de Roberto Bolaño é um romance interessante, prende o leitor na história cruzada e curiosa de um “poeta”suspeito que esconde sua identidade e se revela um aviador do exército, e ainda mostra a violência e o jogo perverso da ditadura chilena. Assim também, com mistério e poesia, é “Essa mulher e outros contos”, de Rodolfo Walsh, autor argentino importante, jornalista, contista, romancista, conhecido também por ter ‘desaparecido’ depois de denunciar ao mundo os crimes cometidos pela ditadura de seu país.
O romance “Ribamar”, de José Castello, é uma ótima opção para os que se aventuram por romances difíceis e densos; o novíssimo de Agualusa “Milagrário Pessoal” é ótimo para conhecer a Literatura angolana e para deleitar-se com a linguagem rica, as referências culturais angolanas, brasileiras e portuguesas, o ritmo intenso; “A rainha do Cine Roma”, de Alejandro Reyes, é imperdível: as crianças de rua de nossa cidade vivendo uma história fascinante e bem contemporânea, de dor e esperança; uma obra impressionante pelo cruzamento de histórias fortes, pelo registro lingüístico da rica oralidade baiana, pela denúncia social e beleza da literatura.
“Notas mínimas” de Katherine Funke, livro de mini-contos bom, barato, despretensioso, contemporâneo e bem urbano, com imagens belas, ritmo certo, tamanho certo. “A segunda sombra”, de Carlos Barbosa, é outro excelente para todas as idades, dos jovens que se reconhecem pela escrita curta e rápida aos que veem a literatura como parte de um tempo, de uma época. É interessante os mini-contos de narrativa precisa, com linguagem dinâmica e ritmada; a poesia entremeando cada palavra.
Terminaria com a dica do livro de fotografias, “Frida Kahlo, suas fotos.” Quem não gostaria de tê-lo em sua estante, sua mesa da sala, seu escritório? Seja cool: dê livros de presente. Os preços dos livros citados aqui vão de quinze reais a cento e trinta. O livro é para todos.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cartas, fotografias e segredos: os misteriosos caminhos da memória




Publicado no jornal A tarde - caderno 2+ em 11/12/2010

Há dias em que não há mais nenhuma história dentro dele, quando ele tem a sensação de que não pode mais agüentar.

Em seu quarto romance, Siri Hustvedt, escritora americana descendente de imigrantes noruegueses, calcula com maestria as doses de pós-modernidade e modernidade a serem colocadas num romance.Desilusões de um americano é um livro denso e provocativo, aclamado pela crítica como um dos melhores da literatura norte-americana contemporânea. Um romance para ser encarado com a mente e o coração, que deixa o leitor intelectualmente exausto – no bom sentido.
A história sobre a experiência do imigrante e os fantasmas que assombram as famílias de uma geração para outra pareceria simples. Mas não é. O narrador, o psiquiatra Erik, vai, juntamente com a irmã Inga, incursionar-se por caminhos do passado para descobrir a parcela de verdade que, misteriosamente, ficou de fora de suas vidas, quando eles achavam que tudo conheciam de seu pai, de suas famílias, deles mesmos.
Vale dizer que esse não é um romance para se ler de forma passiva. A cada dose de mistério, o leitor é fisgado para um redemoinho de emoções, podendo acreditar que sua própria vida é parte daquelas lacunas todas, pois sua mente vai para lugares pantanosos e sentimentalmente perigosos. É um romance que conjuga autobiografia e ficção.
Erik Davidsen e sua irmã encontram uma carta inquietante de uma mulher desconhecida entre os papéis de seu pai morto. Eles passam a acreditar que o pai está envolvido em uma morte misteriosa. A partir dessa carta, Erik e Inga começam a descobrir os segredos da família Davidsen, no ano seguinte ao funeral de seu pai.
Os irmãos, após o luto, retornam de Minnesota para New York e continuam a perseguir o mistério por trás da carta. Enquanto Erik luta contra a vulnerabilidade emocional de seus pacientes psiquiátricos, e seu fascínio com os novos inquilinos em seu edifício ameaça esmagá-lo, Inga é confrontada por uma jornalista hostil que parece saber um segredo ligado ao seu falecido marido, um romancista famoso.
Como cada novo mistério se desdobra em outros e se liga com o presente, Erik começa a habitar a história do seu pai emocionalmente e a vislumbrar como a sua infância pobre, a Depressão e a guerra influenciam no relacionamento com seus filhos. Enquanto isso, Inga tem de enfrentar a realidade da vida dupla do marido.
A prosa de Siri Hustvedt revela as mágoas escondidas de uma família através de um mosaico de segredos e histórias que refletem a natureza fragmentada da própria identidade do indivíduo, chegando a esse lugar da literatura pós-moderna que, ao invés de propor lugares fixos, desmantela aquilo que supostamente é conhecido.
As descrições de Hustvedt, que também é mulher do escritor Paul Auster, tem uma elegância literária ímpar e revelam a experiência dos imigrantes e a paisagem de Minnesota a partir da herança e do olhar escandinavos, enquanto o seu relato da vida de um psicanalista de Brooklyn adquire o ritmo e a vastidão de possibilidades tipicamente novaiorquinos.
Siri Hustvedt mistura sem remorsos as paixões gritantes com a fé silenciosa em personagens densas intelectualmente, que entendem suas vidas tanto através da leitura de grande envergadura quanto de uma conversa animada. Ela prova ser uma escritora hábil, capaz de tecer idéias complexas em um enredo intrigante e cheio de ambiguidades.
Desilusões... é, mais do que um romance sobre os mistérios da mente e os segredos de família, um romance sobre pais e filhos; sobre barulho e surdez, cegueira e reconhecimento; sobre a dor de falar e a dor de manter o silêncio e sobre as ambiguidades da memória. Um romance para todos os que encaram a leitura como um caminho de descobertas sobre si e sobre a condição humana.


Desilusões de um americano/trad. Rubens Figueiredo/Cia das letras/ 368p./R$49

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Quarta é dia de Sarau Bem Black

Sarau Bem Black
Sankofa African Bar

Quarta feira - dia 08 de dezembro
19h:30min - concentração
20h - Poesia... Muita Poesia!

Com Nelson Maca, Iara Nascimento, Lázaro Erê, Luiza Gata
Lucinha Black Power, Robson Véio, Rone Dundum e Amigos

Dj Joe toca "RZO" (Rap)

Participação
MC Freeza (oquadro/ Ilhéus)

Microfone aberto aos poetas da plateia!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

“Vergonha”, de Salman Rushdie: um conto de fadas sombrio e violento


Publicado no jornal A tarde em 04/12/2010

“Vergonha, caro leitor, não é propriedade exclusiva do Oriente”.

O autor de “Versos Satânicos”, ameaçado de morte por suas supostas blasfêmias contra o islamismo, tem marcado o Ocidente - tanto quanto o Oriente - com sua escrita vinculada às questões delicadas do mundo muçulmano, dos encontros coloniais e pós-coloniais violentos e complexos.
Essa escrita não apenas em seu conteúdo é dissidente de um olhar ajustado e pacifista, mas, sobretudo em sua forma é uma construção rebuscada, fantástica, com uma porosidade que permite vislumbrar o ritmo fascinante do Oriente ao mesmo tempo em que revela diálogos com a tradição e escrita ocidentais.
Em “Vergonha”, Salman Rushdie constrói uma espécie de conto de fadas que, aos poucos, vai se transformando em um emaranhado barroco violento e perverso que denuncia a situação oprimida de uma nação. A “vergonha” é o tema da saga que traz a disputa de poder regida pelo encontro catártico e cruel de duas situações “morais”: a vergonha e a falta de vergonha.
As personagens são construídas e reveladas a partir de detalhes culturais do mundo oriental, localizadas num lugar intermediário entre as fantásticas narrativas e a realidade de quem vive sob um discurso perverso de poder.
O anti-herói Omar Khayyam é um médico obeso, sem vergonha alguma, fruto de uma origem misteriosa e quase surreal: filho de “três mães” -um ardil artifício de três irmãs orfãs para não se revelar qual delas foi o motivo da desonra - foi criado até os 12 anos numa espécie de castelo, isolado do convívio com qualquer outra criança e torna-se uma personagem ambígua e tensa.
Ao hipnotizar as mulheres para seduzi-las, vai protagonizar essa narrativa violenta e misteriosa. O seu encontro com a frágil Sufiya Zinobia, oposta em caráter - é a depositária do ressentimento desmedido dos pais e encarna a vergonha em estado puro - vai detonar uma luta violenta e fascinante, regida pelas tensões do mundo oriental oprimido pela tradição, pela religião, pelos governos totalitários e pelos bons costumes.
O romance é uma metáfora, uma cosmovisão do mundo paquistanês. O narrador se coloca como personagem e vai construindo uma cumplicidade com o leitor à medida que vai revelando, numa literatura rica e intrigante, como funcionam os mecanismos de poder em uma cultura marcada por valores “fundamentalistas”.
“Vergonha” tem uma escrita quase cortazariana, mas carregada de simbolismo oriental, barroco, com ritmo vertiginoso.
É um romance de digestão lenta, para refletir e sentir; separar um nível narrativo mais ou menos frenético da ira pelos sonhos partidos, pelo abuso, pelo crime, pelo machismo, pela violência e a tortura; sobretudo, da dor profunda pelas personagens que Rushdie traz, numa compaixão que o escritor - e o leitor junto a ele – sente ante suas criaturas: “Os débeis, os anônimos, os derrotados deixam poucas marcas: modelos de cultivo, lendas populares, cântaros quebrados, túmulos funerários, a lembrança descolorida da beleza de sua juventude.”

Vergonha/ Cia das Letras/Trad. José Rubens Siqueira/376 p $ 58,00

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Agudas histórias sob as páginas obscuras da ditadura argentina

Publicado no jornal A tarde em 27/11/2010




Tento calcular, adiciono mulheres nuas e homens mortos, mas a conta não fecha, não fecha, não fecha... Com um movimento muscular volto a ficar sóbrio, como um cachorro sacudindo a á
gua.

A literatura latinoamericana é um arquivo em ebulição das marcas pesadas das ditaduras do nosso continente e, ao contrário dos demais desse período: um arquivo aberto. O paradoxal silêncio acerca de corpos desaparecidos e torturados é gritado nas páginas das obras de grandes escritores como o chileno Roberto Bolaño e o argentino Rodolfo Walsh, em cujas páginas a suavidade das palavras se mescla à violência assustadora.
Sendo primeiramente leitora dos argentinos Borges, Cortázar e Juan José Saer, quando cheguei a Walsh fui surpreendida pela combinação de forças presente em sua obra: uma literatura que aborda assuntos políticos e de ordem ética com cuidado profundo, tratando de não banalizar pelo excesso ou pela falta, mas imprimindo essa marca ao seu texto; uma narrativa precisa, com a sutileza da escritura concisa e a riqueza polifônica de elementos literários; uma escrita de emaranhados que condensam ficção e biografia.
O livro Essa mulher e outros contos, lançado agora em português, foi escrito entre os anos de 1960 e 1970 sob o peso soturno da ditadura argentina e traz o que é considerado o melhor conto argentino do século XX. O conto Essa mulher é uma verdadeira aula de literatura e de história dos horrores políticos e das possibilidades da palavra, que pinta, revela, esconde, insinua, mostra as armadilhas dos discursos históricos dos regimes. É também um terrível caso de coincidência entre vida e literatura. Um corpo de mulher que jamais apareceu, que surge – nu- apenas no vão misterioso entre o silêncio e as palavras ambíguas de frases incompletas, numa conversa entre um general e um jornalista, é o tema do conto.
A narrativa nunca passa dos minutos de uma conversa tensa, mistura de confissão e denúncia. Um jogo maquiavélico que confunde o leitor sobre quem é o culpado de tanto horror. O autor consegue evitar maniqueísmos baratos, compõe o ardor psicológico de quem se consome entre a participação violenta nas torturas e perversidades do regime e a culpa inexpurgável, envolta em terror e desespero.
Entre as ambíguas revelações do general e a curiosidade cínica do jornalista, as páginas dessa história vão sendo erguidas com elipses, metáforas, segredos do homem e do sistema de eliminação de seres humanos por razões políticas.
Quando penso na vida de Rodolfo, desaparecido ele próprio nos vãos da ditadura por ser um jornalista,escritor – e militante político - que defendia a liberdade através da arma “suave” de palavras, denunciando a condição dos argentinos sob aquele horror, penso também no componente arriscado, inexplicado e inexplicável, que os escritores podem ter de prever suas próprias tragédias, escrever seus próprios destinos: assim como no conto Essa mulher, o seu corpo jamais apareceu.
O jornalista ficou conhecido depois de haver desaparecido, logo após enviar ao mundo uma carta aberta denunciando os crimes do governo ditatorial argentino, e sua obra repercute para além do ativismo político: Piglia e muitos outros críticos o tem lido como um escritor denso, com escrita rebuscada e magistral literariamente.
Em sua obra, a presença dos temas políticos só vem comprovar o seu talento: mesmo com todos os perigos, ele consegue ultrapassar a militância e deixar em sua literatura as histórias ritmadas,universalmente humanas, de sentimentos trabalhados, personagens psicologicamente complexos – como Maurício, personagem do conto “Fotos” – uma figura apaixonante, ambígua, mistura de malandro e rebelde sem causa, que acaba vítima misteriosa de si - ou de outros - por ser dissidente da estrutura coronelista e ter usado a arte da fotografia para “olhar” o mundo obscuro no qual vivia.
O livro traz esses e outros contos cujas temáticas circulam entre os valores éticos, os comportamentos apaixonados, as culpas, a obscuridade da vida sob sistemas políticos e jogos de interesse endurecidos por podres poderes. Essa palavra – nua – traz-nos os corpos desaparecidos e Walsh pode dar-nos notícias de sua respiração acelerada, roubada pela história da ditadura que denunciava e combatia.

Essa mulher e outros contos/ TRad. Sergio Molina e Rubia Goldoni/256p./39,00

domingo, 28 de novembro de 2010

Encontro com Benjamin Moser, biógrafo de Clarice, no Instituto de Letras da UFBA



Para quem perdeu a noite da Livraria cultura com o escritor Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, uma oportunidade a mais. O escritor estará no Instituto de Letras da UFBA, às 13 hrs do dia 29/11, segunda-feira , para conversar sobre a sua obra, considerada a mais completa biografia da autora brasileira.
O quê: Benjamin Moser
Local: Instituto de Letras
Data: 29/11
Horário: 13:00
Promoção: Grupo Rasuras de estudos de linguagens/ Departamento de Letras Vernáculas/Departamento de Fundamentos para o Estudo das Letras/Instituto de Letras da UFBA

domingo, 21 de novembro de 2010

A poesia em Tarja Preta






Publicado no caderno 2+ do A tarde em 20/11/2010

“Minha mãe me chamava de mestiço/a professora já dizia moreno/a vizinha falava mulato/e o meu pai achava tudo engraçado.”


Os versos do poema Qual é a cor? do poeta, MC e cantor Zinho Trindade, bisneto de Solano Trindade, desperta os cantos abafados da história mal contada: o racismo é invenção, ninguém viu e ninguém vê.
Nas estrofes, a verdade de quem se descobre negro enquanto percebe que sua vida vale menos - porque sua cor é outra - instaura-se na memória como canto: “Quando eu era pequeno, eu não sabia/Eu não sabia, eu não sabia não/Não entendia a cor/Qual o valor/ O porquê brigar e o porquê amor”.
Com prefácio de Nelson Maca, Tarja preta é o primeiro livro de poesia de Zinho Trindade e, seguindo o tom da literatura periférica - ou marginal-, localiza no presente temáticas e propostas. Os versos insistentes denunciam o Brasil injusto, racista e violento de muitos: “Terras paradas, latifúndio vazio.../Tupi, Pataxó, Xavante, Pancaruru, Cariri/Tupinambá, Carijó, Funiô, Carajá/Potiguá, Tupinajé, Caeté, Ianomâmi/De 10 milhões a 280 mil./Ser humano em extinção/O moleque, o fuzil/Na pátria que ninguém viu.”
Cordialidade não há naqueles versos da literatura cunhada por Nelson de “Dissidente”; há, contudo, a crônica cotidiana da luta, o “retrato de uma guerra nada particular”, o ritmo dissonante do hip hop, as batidas do maracatu, o ronco dos tambores. Há ainda uns versos excepcionais - em meio a outros nem tanto- e uma outra história embalada em falares populares, português coloquial e musicalidade afrobrasileira.
As pegadas contemporâneas dos mixies improváveis se costroem nos versos que deslizam do presente, deixando, a uma só vez, vestígios da ancestralidade do povo negro e compreensão tenaz da realidade bruta do nosso tempo: “Escreveu não leu, o tiro comeu, menor se fodeu e a/ polícia venceu.”
A poesia de Zinho Trindade “brota do campo da batalha”, como diz Maca; é armada; a lança afiada de um guerreiro que, além de estar pronto para a batalha contra o sistema bruto e violentamente racista, sabe que há que se dominar o inimigo dentro de si mesmo, vencer qualquer vestígio da outra história: “Quantas vezes/Não me senti um nada/Um mísero nada./Um cigarro queimando, /Morrendo lentamente/São nesses momentos que derrubamos o Golias/Que nos habita.”
Zinho sonha, canta, denuncia, grita, acorda Solano, o outro Trindade. E com saber agudo, entre os trampos dos pretos, a paulada da história traidora e a força de sua negritude, o poeta ainda arregaça com ironia cáustica o resultado do progresso elitista no poema My Machine: O homem/É a sua própria máquina/Seu espelho/ Pequeno para si próprio/E a sua ambição/ Será a degradação.” Que esse Mestre de Cerimônia continue firme na trilha – urbana – da poesia. Que o diálogo com Solano prossiga, a poesia venha, a denúncia se faça, o soluço continue e o zumbido das balas transforme-se em outros “ZUMBIdoS”. Que o poeta Zinho Trindade, faça, sim, barulho. De pássaro-preto rebelde.

Tarja Preta/ Edições Maloqueiristas/ 83p. 2010/R$15,00

domingo, 14 de novembro de 2010

Uma carta de Kafka ao pai, uma canção de ninar: a memória de um filho


Publicado no caderno 2+ do A tarde em 13/11/2010

“Ao se dirigir a seu pai, Hermann Kafka, Franz não só me roubava minhas palavras, mas usurpava meu lugar de filho. As mesmas palavras que, em minha garganta, provocavam feridas que me impediam de falar, ditas por Franz descerravam a verdade”.

Não sei o quão verdadeiro é Ribamar, de José Castello, em termos de fatos; não nos faz falta saber. Porque há um caminho verdadeiramente incômodo a ser seguido nessa obra tão peculiar, mistura de memória, ficção, biografia, ensaio.
O “romance” sinuoso é escrito sob a escala de uma canção de ninar, transformada em partitura, com cada seguimento guiando os capítulos em tema, tempo, ritmo, sentimento.
Engenharia textual das mais finas e fortes, dando ao leitor completa incursão à intimidade do sentimento de um filho para com um pai cuja “ausência” – ambígua – já não deixa espaço para enfrentamentos concretos, restando à memória o dever de resolver esses espaços de amor, assombro, ódio, admiração, desconhecimento, mágoa, falta.O crítico que escreve para a Bravo, o Prosa e Verso e o Rascunho, admirado por seus textos de acento proeminente, literatura farta e escrita que faz de si mesma um caminho aos temas que trata – jamais fechando ali as portas e sempre se colocando significativamente no texto – já ganhou um Jabuti e escreveu sobre João Cabral de Melo Neto e Vinícius de Moraes experimentando o gênero biográfico.
Mas esse romance sobre José Ribamar, seu pai, é muito mais do que uma biografia. Por seu caminho de construção, é um texto sobre outro ou um texto ligado a outros; um cruzamento de sentimentos que vai do assombro à raiva, do amor profundo à frustração, da pena à punição, à descoberta do esquecido. E ainda põe em evidência as formas ocidentais nas quais o sujeito guarda suas histórias na ânsia de retê-las, como diários, cartas, notas, dicionários que oferecem palavras ao infinito, bíblia que oferece mitos religiosos e mitologia clássica que segura arquétipos: em todos os textos, o nosso. Mas quais são seguros para nos guiar àquilo que desconhecemos, embora tenhamos vivido?
O autor encontra em Franz Kafka uma coincidência de sentimento em relação ao pai e usa Carta ao pai, do próprio Kafka, para analisar a relação deste com o seu progenitor.
Ambos, o narrador e Kafka, encontram-se muitas vezes nas semelhanças de sentimentos e de desejos – “só consigo escrever porque faço de Kafka um biombo” –, e Franz acaba sendo o espelho, o duplo, a sombra desse narrador que vai analisando a relação de Kafka com o pai, Hermann, enquanto reconstrói os fatos da vida de seu próprio pai e, mais do que tudo, encontra pedaços de vida sua e desse pai, encontra sentidos e sentir, restos de vida esquecidos ou ignorados pelo medo.
Descobre a sua ira e o seu amor contra aquilo que todos acabam sendo: pais e filhos.
A viagem que o autor fez ao Piauí, terra de José Ribamar, não traz histórias completas e sim partes do que poderia ter sido – ou foi –, mas vai revelando a luta do escritor para sedimentar um caminho, para concretizar em ação aquela busca sofrida de conhecer e se recompor na história “de” e “com” o pai.
Usando a literatura para pensar nos mistérios da memória, sendo essa a da vida, dos sujeitos e da própria literatura, o autor arrisca-se na edificação desse romance de encruzilhadas, de mil pontas, que vai de Tirésias à Kafka, passando por Defoe, Castro Alves; que sai de cartas e diários e vai à canção de ninar, recuperada anos depois, com uma voz crítica analisando etapas, mas mostrando ser impossível controlar o fluxo da própria história: “A escrita é traiçoeira, você pensa que escreve uma coisa e escreve outra”.
Com Kafka, Ribamar e Castello, o leitor compartilha aquilo que nunca nem pensou; encontra sentido em páginas nunca lidas e em respostas nunca dadas – quem sabe se o pai de Kafka leu a carta do filho? Quem sabe se o pai de Castello leu o livro Carta ao pai dado por ele? a quem servirão essas páginas erguidas da memória e da fantasia? – O leitor chega assim muito próximo ao caminho do narrador que oferece com verdade o seu lugar, o seu propósito, as suas dúvidas, ainda que ponha na mesa a falta de resposta:
“Talvez você não entenda. Mesmo ignorando minhas razões, percebe que me abstenho de ser. Isso me basta.”
É um livro denso e farto, bem escrito, embora difícil e ao final nos chega, não por Kafka, como uma carta “não escrita” ao pai.
Ribamar é uma aventura dura aos sítios obscuros da relação entre pai e filho, é um texto de uma humanidade cortante, ríspido muitas vezes, absolutamente embebido em amor em outras; um texto que comove por todos os lados, que se revela dentro e fora, que dá à palavra todas as formas de paixão, que desvenda e homenageia a literatura em seu lugar mais simples: a de se relacionar com o homem, de servir a ele, de falar por ele, com ele. E com seu pai.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Poeta, Mc e ator Zinho Trindade lança livro em Salvador

Hoje 09/11 Lançamento Tarja Preta -UFBA -Salvador -Bahia 17H
O grupo de pesquisa Rasuras: estudos de práticas de leitura e escrita e o Sextas poéticas Sarau convidam para o evento de lançamento do livro Tarja Preta de Zinho Trindade, nesta terça-feira, 9 de novembro, das 17:00 às 19:00, na sala 110 do PAF 3 (Campus de Ondina da UFBA).

Zinho Trindade é poeta, ator e MC Free Style. Herdou a tradição familiar na pesquisa e divulgação da cultura popular afrobrasileira. Bisneto de Solano Trindade, poeta popular e neto de Raquel Trindade que se mantém à frente do Teatro que leva o nome de seu pai em Embu das Artes (SP), Zinho Trindade vivencia cotidianamente as raizes culturais brasileiras. É integrante da banda O Legado de Solano onde mistura música contemporânea com ritmos afrobrasileiros. Tarja Preta é o seu primeiro livro publicado.
(Texto de apresentação retirado da orelha do livro Tarja Preta)
PROGRAMAÇÃO:
17:00 – Exibição do documentário Solano Trindade: 100 anos (direção: Alessandro Guedes e Helder Vieira).
17:40 – Palestra de Zinho Trindade sobre sua atuação político-artística e sua vinculação genealógica ao trabalho iniciado pelo seu bisavô, o poeta Solano Trindade.
18:20 – Lançamento do livro Tarja Preta (valor: R$15,00) ao ritmo dos poemas recitados pelos jovens integrantes do Sextas Poéticas Sarau do ILUFBA.
Entrada gratuita!

domingo, 7 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Cortázar nos perde em Paris dos anos 60 e encontra-nos numa estação de trem


Publicado em 30/10/2010 no caderno 2+ do Jornal A tarde

“E já que vamos contar, é melhor pôr um pouco de ordem. A gente desce cinco andares e já está no domingo, com um sol inesperado para novembro em Paris.”
O desejo de pôr ordem no caótico emaranhado de fatos, expresso pelo narrador de “As babas do diabo”, que inspirou o filme “Blow-up” do Antonioni, não é um capricho qualquer. O fotógrafo, personagem do conto, duvida da realidade que seus olhos pensam ver mediada por uma câmera e a poesia dramática da vida se ergue sem imagens: essas são tão irreais que se confundem com as palavras.
São tantas possíveis maneiras de “desnarrar” o que se pretende contar que as páginas viram cenas de cinema; estas se transmutam em algum jazz extraordinário, para bons ouvidos, que depois explode em literatura, que inventa cidades, que devolve o tempo ao homem, que vira leitor, que redescobre o livro para nele se reinventar e começar outra vez. Essa realidade porosa vai escancarar a complexidade da vida e do ato de viver a vida num descompasso alucinante.
Os contos de “As armas secretas”, de Julio Cortázar, lançados pela primeira vez em 1959, são peças nobres da literatura. Cinco histórias que levam grandes projetos literários voltarem a ser pensados, do idealismo romântico à fragmentação pós-moderna. O elemento fantástico, tão peculiar na obra cortazariana, não surpreende em seu estado de absurdo, mas por ser colado à realidade invisível e emanar da simplicidade contida no cotidiano.
Como se desmontasse várias camadas de literatura, e de fantasia, o autor, no conto “Cartas de mamãe”, esmiúça o universo psicológico da personagem principal, um filho que recebe cartas da sua mãe, e leva o leitor a um percurso com o próprio narrador. As cartas chegam a um cotidiano em Paris, vindas de Buenos Aires, do cotidiano de uma mãe solitária. Narram cotidianidades e mantém segura a vida de todos os envolvidos, incluindo a nós, leitores.
Um dia, uma palavra na carta, numa frase corriqueira qualquer, um nome próprio fora do lugar, um equívoco, desarruma tudo: a vida, os dias, o conto, a literatura. Um morto vai chegar no trem das 11:45, um irmão culpado pena entre uma e outra carta da mãe que “ está louca!” e escreve coisas absurdas, uma esposa mente para o marido e sonha com o falecido cunhado, uma traição inventada pela nossa desconfiança e um escritor revelando segredos da escrita e de seu ofício. Uma carta, uma palavra fora do lugar esperado e com isso a literatura construindo o impossível.
A delicadeza dos sentimentos das personagens algumas vezes se transforma em ironia das mais finas, e o leitor vai adentrando-se nas nuances variadas dos fatos. Em “Os bons serviços” o narrador introduz uma ambígua naturalidade aos mais absurdos fatos que acontecem a uma senhora diarista que serve à burguesia francesa. Cuidando de cinco cães enquanto os patrões se divertem numa festa, a personagem descobre, antes de nós, que tudo é sonho e pesadelo, que as realidades se confundem porque somos presos a elas. Entre a trágica situação dessa miserável e quase abandonada diarista, todo o espetáculo da morte se revela: contratada para chorar um defunto, ela se depara com o único ser que tivera com ela um gesto de carinho. E suas lágrimas falsas se tornam verdadeiras, embora ela jamais saiba o que é aquilo tudo, quem são aquelas pessoas que a levaram de uma sala com cães a um velório...
O livro vai se desdobrando em percursos inesgotáveis. Sobrevivemos aos contos pensando serem extensão de nossas vidas, de nossos sonhos. Os aspirais eróticos de cenas que nada possuem de explícitas fazem-nos crer numa força secreta, num mundo secreto, que nos deixa cegos diante do caminho sem fim. A ruína, o desejo, a fantasia e a realidade estão ali, no livro de Cortázar, mas poderiam, como disse Arrigucci Jr., estar num Juan Rulfo, num Borges, num Onetti. Poderia pelo fantástico da obra, pela genialidade da escrita. Mas não pela bem truncada prosa, não por esse jogo - que sempre funciona por mais que o saibamos - do escritor consciente brincando com o fantástico e um falso descontrole. Os cinco contos nos chegam desafiantes, como a vida desafiou o artista Cortázar a sobreviver e escrever naquele seu – nosso – tempo. Ouçamos um jazz e salvemos do suicídio qualquer personagem, enquanto outros caminham em nossa direção na estação de trem. Em Paris.

Do Le Monde para a literatura: “esquisitas” palavras da pornografia erótica dos corpos ao desejo político de ser




Publicado no caderno 2+ do jornal A tarde
Fabiane Borges e Hilan Bensusan possuem muitas singularidades: os dois são parte de um “coletivo” de dois, o “Esquizotrans”, assinaram a coluna “Políticas Esquizotrans” no caderno Brasil do Le Monde diplomatic; ele é professor de filosofia na Unb, ela pesquisa “micromídias” de “maneiras megalomaníacas”; ele e ela são “esquisitos”. Isso pode ser bom, como o senti ao ler o trabalho literário dos dois em seu primeiro livro “Breviário de pornografia esquizotrans: para pessoas do avesso”, com prefácio Pedro Costa, da banda queer “Solange Tô aberta”.
A literatura e o corpo, o corpo e o gênero, o gênero e a sociedade têm sustentado uma relação complexa: a pedagogia do controle sobre o corpo sempre contou com a palavra e esta quase sempre serviu à manutenção do conhecido par “homem x mulher” – historicamente prevalecendo a superioridade de todo o aparelho masculino. A literatura, como a filosofia, sempre esteve atrelada ao espírito do momento, tendo, portanto, deixado-nos bem servidos de modelos ou questionamento dos modelos.
Acontece que o corpo – e a literatura – anda escapando às totalidades que, substituídas a cada par de décadas ou séculos, ajustavam-no à cena. Diga-se de passagem que, em cada momento, houve aqueles que causaram fissuras absurdas no corpo, na cena literária, na linguagem, na filosofia, na moral. É por aí que passeiam um Fernando Vallejo, um Walt Whitman, um Lezama Lima, Um Guimarães Rosa, um Nietzsche, um Foucault, uma Judith Butler, uma Beatriz Preciado.
O livro de Fabiane e Hilan vem escrachar a cena arrumada de um papai-mamãe bem literário, arrebentar calcinhas com pau intumescido coexistindo com vagina lubrificada, peitos e bundas alternando-se na cena do prazer, hormônios questionando tudo e se impondo à medicina, à vida compreendida parcamente a partir de duas – como não enfatizar – duas míseras categorias de gênero e só uma de desejo: o heterossexual. Mas, o que o “Breviário” vai trazer de mais intenso é um reconhecimento singular do transsexual, ampliando-se, inclusive, o “trans” para as condições de sexo, gênero, desejo ou identidade que se encontram diante de fronteiras, que escapam a qualquer prévia categoria ou mesmo espaço. E isso de forma literária, ricamente elaborada em imagens, metáforas, linguagem.
Há uma perversidade sem tamanho no tempo esse em que vivemos: entre tanto sexo explícito na TV e hit de axé e funk leiloando os corpos juvenis femininos, um recrudescimento moral impede o olhar escancarado e saudável sobre os corpos – veja-se a discussão sobre aborto da cena política atual – e a arte permanece engessada quanto aos limites de representação artística, humana, sexual e política dos corpos que abarcam tantas singularidades, explícitas cada vez mais, felizmente.
Os textos de “Breviário”, alguns podendo ser considerados contos e outros transitando em fronteiras textuais, trazem uma proposta estética claramente vinculada aos estudos teóricos “queer”, o que, a princípio, poderia enfraquecer o projeto literário. Particularmente, sou resistente a projetos artísticos de engajamento, salvo os casos que logram se libertar do discurso. Arte é arte, podendo ser política também. Mas não quero, quando leio literatura, um discurso político ou um relatório de ação social, quero emocionar-me, rir, transformar-me, sonhar, chorar, comover-me e compreender aquilo que desconhecia.
Foi assim quando li “infidelidade e descentralização”, “diferenças sexuais agudas”, “em cima do morro dos prazeres ou me monto herculina barbitúrico”, “amor no lixão”, “brenda comendo david”, “puta ontológica”, “projeto de duas feministas velhas” e outros textos do livro, o que me diz que o encontro prévio com as teorias queer não minimizou a criatividade, o roteiro artístico, o desejo e a sensibilidade dos autores.
No livro, é tudo sexo, explícito ou não – a depender do que cada um concebe como explícito e como ato sexual, afinal, Eva comeu uma maçã e mudou o destino da humanidade, a “virgem” Maria engravidou, os anjos não têm sexo e por aí se vê uma série infinita de “anedotas sexuais” presentes na nossa história e desprovidas de órgãos -, sim, é tudo desejo e sexo no livro do coletivo esquizotrans, mas, mais do que tudo, são gritos originais de socorro para as prisões dos corpos e para a arte.
A linguagem é um arco sem curva na maioria dos textos, um vocabulário “sexual” corajoso, mas, sobretudo, um desnudamento das categorias de palavras; o ritmo e o encadeamento da prosa oral vai colar-se perfeitamente ao momento contemporâneo de tanta velocidade, medicina, tecnologia, crise da ecologia: as palavras vão saltando e revelando movimentos, catarse, ironia; vão reacendendo a curiosidade filosófica, filológica, literária; vão reativando o homem na sociedade das máquinas, essas sejam as do mundo capitalista sejam as das políticas fracassadas.
A sensibilidade presente nos textos se revela tanto na crueza erótica e pornográfica dos encontros entre seres sem categoria, quanto nas sutilezas dos sentimentos de moças do interior sem dentes, escravas do ambiente patriarcal, sem direito a desejo ou mesmo a mirarem seu sexo com liberdade, como se vê no conto “o anel brilhante de elfriede jelinek”. Os trans e os intersexos ganham corpo (que no cinema o filme XXY já revelou) e desejo, possuem órgãos, os dois ou um só escolhido ou imposto, e vão escrever outra história para os que, também na arte, ficaram apagados, escondidos, desprezados, concertados, reescritos, disfarçados.
As esquisitices da dupla Borges e Bensusan – esquisito aqui mais para o sentido da língua espanhola – são bem-vindas, pertinentes. Literariamente há muitas propostas interessantes (outras não, o que também é bom de se ver: a literatura demanda muito esforço para se erguer e os autores, conscientes disso, simplesmente jogam-se livres e corajosos no desejo, o que por si só já atende a um princípio da arte: é preciso gozo). Ver os trans, as lésbicas, os gays, os heteros com desejos outros, com idades tantas, com subjetividades variadas, aflorarem pornograficamente é, por si só, uma experiência interessante. Ver a literatura chegar para a diversidade do desejo é ainda melhor. A pornografia é muito mais do que sexo explícito.

“Breviário de pornografia esquizotrans: para pessoas do avesso”/Editora Ex libris/154p./R$35.

Sob o verbo, a literatura


publicado no caderno 2+ do jornal A tarde

A literatura é uma das artes que mais vínculos possuem com a crítica. A própria relação de metalinguagem entre ambas já se configura um íntimo e arriscado percurso que se constrói na articulação de interesses, conhecimento, desejo, desassossego, projeção, descoberta e reinvenção, elaborada na mesma mágica ferramenta: a palavra.
Como não se trata de falar de uma outra linguagem – como o é com as artes plásticas, a fotografia, o cinema, a música – a confecção desse texto novo, que se predispõe a iluminar o outro, pode ser uma ação desastrosa ou bem-sucedida, uma vez que é esse o texto que se propõe, sendo aqui imediata, a retirar da penumbra ou manter luzindo o outro.
Arthur Nestrovski, com a sua mais recente publicação “Palavra e sombra: ensaios de crítica”, chama-nos a atenção para o status quo da crítica literária, seu papel, seu percurso, enquanto que ele mesmo vai construir um corredor de luz sobre algumas obras sob o viés literário-artístico-cultural-político.
Na apresentação do livro, Nestrovski faz um panorama rápido da crítica literária brasileira, destacando os momentos de mudança – como a da década de 40, no rodapé dos jornais, “entre a crônica e o noticiário”, ou a de 60 com a crítica scholar, oriunda dos especialistas universitários – e apontando, inclusive, para uma reflexão acerca da crítica contemporânea e sua ainda existente relação com os jornais. Nomes como os de Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Milliet, Antônio Cândido, Mário de Andrade e outros vão surgir pontuando-se uma história cultural e intelectual à parte e revelando-se um outro cânone: o da crítica literária.
Os ensaios críticos presentes em “Palavra e sombra” demonstram não tanto um mergulho nos sendeiros de construção literária dos autores em destaque – João Cabral de Melo Neto, Modesto Carone, Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Luís Francisco Carvalho Filho, Roberto Schwarz, Philip Roth, Saul Bellow, John Updike, Don DeLillo, Kazuo Ishiguro, Richard Powers, Pankaj Mishra e Vladimir Nabokov – mas, especialmente, um entendimento tanto da cena literária que suporta as obras como da relação das mesmas com o movimento cultural, intelectual e político do contexto em questão.
Arthur constrói o seu texto com cuidado literário, escolhendo imagens que vão dialogar com o discurso que produz sobre a obra lida, parte do artifício de trazer das sombras as palavras. Algumas vezes abre o seu texto com narrativas, por exemplo, de como, quando e por quê estava lendo determinado autor, ou narra-nos uma imagem do livro lido antes de adentrar-se pelos caminhos críticos. Mais comum, entretanto, é abrir seus textos com uma citação ou pequena frase-mote que contém o mistério e a tensão de uma idéia que vai percorrer na obra.
A leitura de Arthur Nestrovski ultrapassa bastante os limites do texto e revela um conhecimento profundo da cena literária e cultural contemporânea. O livro se divide em três partes, uma da cena literária brasileira, outra da de língua inglesa e uma terceira de três produtos artísticos distintos: um filme (“Um filme sem imagens”), um livro de fotografia (“Êxodos”) e o teatro Vertigem (“Apocalipse I e II”).
Apesar de cada texto trazer uma série de referências – autores que dialogam com os escritores, ecos literários das tradições em jogo, interseções políticas, filosóficas, artísticas e culturais – os ensaios de Nestrovski se mantêm equilibrados e lúcidos, sem o peso erudito gratuito que deixaria carregada a leitura. O crítico é generoso em fornecer muitas das suas pistas de leitura e repertório e, o mais interessante, apesar de oferecer um texto literariamente bem cuidado, não deixa desaparecer de vista e nem tenta suplantar a obra lida.
Poucos são os críticos que pontuam seus textos com conhecimento refinado e demarcação honesta do lugar de leitura – entre eles vale aqui ressaltar que o trabalho do crítico Antonio Marcos Pereira é, na cena atual, um dos mais férteis e sólidos nesse sentido – e Arthur Nestrovski não apenas o faz como não se deixa cair na armadilha de seu próprio trabalho; ele mesmo escritor, enquanto crítico se impõe a tarefa de desvendar os mistérios dos textos e a sua relação com determinados assuntos/temas/acontecimentos/situações/histórias desde um lugar intermediário, buscando dar à obra uma certa luz, bem medida para não ofuscar.
“Palavra e sombra” é para mim uma bem-sucedida coleção de ensaios, funcionando ela mesma como farol que auxilia o encontro de caminhos, o diálogo honesto do crítico com a obra, complexa que é a tarefa da crítica e seu papel para a literatura. Afinal, retomando as palavras do próprio Arthur: “Se literatura fosse transparente, não seria preciso crítica. Se o mundo fosse transparente, aliás, nem seria preciso literatura. Palavras e coisas coincidiriam de modo absoluto, na luz de uma verdade sem sombra.”

Palavra e sombra: ensaios de crítica/Ateliê Editorial/R$ 35/165p.

Aventura, mistério e denúncia na literatura para os jovens


Publicado no caderno 2 + do jornal A tarde


O meu imaginário e o de muitos leitores certamente está povoado por clássicos como “A ilha do tesouro”, “As aventuras de Tom Sawyer”, “O escaravelho de ouro”, “O jardim secreto” e uma série de outros que vai da literatura mundial à brasileira com Monteiro Lobato e tantos outros, incluindo os da coleção vagalume. Certo é que jovens gostam, sim, de ler e de colocar a mente à prova de complicadas redes de mistérios e aventuras. É só desligar a televisão.
Assim que o mais novo livro de Eliane Ganem - já reconhecida e premiada na cena literária para o público juvenil -, “O caso do elefante dourado”, agrada pela agilidade narrativa e uma bem montada rede de enigmas a la Agatha Christie.
Aliás, a heroína do novo livro, a engraçada senhora Tide, personagem de um outro romance da autora, é uma espécie de miss Marple. A atrapalhada, mas muito sagaz, personagem conquista o leitor imediatamente por sua atitude corajosa e faceira. A história ambienta-se na cidade do Rio de Janeiro e intrunca uma série de roubos, seqüestros e assassinatos num misterioso caso que vai do furto de quadros famosos, guardados num dos maiores museus italianos, ao tráfico de cocaína no Rio de Janeiro.
A inclusão do cenário carioca do tráfico de drogas, apontando para a violência tanto policial quanto dos traficantes, com assassinatos de jovens e garotos, sumiços de vizinhos e etc, é bem interessante e aproxima as mentes juvenis ao cenário brasileiro urbano, sem deixar de incitar a fantasia e a curiosidade, já que há referências à arte renascentista, à ciência da criptologia e outras pequenas chaves enigmáticas.
A personagem de Tide, na verdade Judith, é sem dúvida bem construída e há algumas cenas hilárias, como ela surpreendida por um traficante, quando está sendo devolvida pendurada em um helicóptero sendo trocada pela falsificação de um quadro de Rubens. A cena é bem descrita e a surrealidade aparente nos remete às cenas televisivas corriqueiras no universo do crime. Os seus disfarces também soam cômicos, já que produzem uma espalhafatosa velhota que, sem pieguices e com muita graça, expande-se em doçura e agilidade mental.
A personagem é uma jovem de espírito, com um bom movimento na trama, e o corpo já afetado pelas marcas da idade, o que confere mais humor à trama. A sua relação de igualdade com os meninos do tráfico e a polícia explora um outro modelo feminino de heroína, não tão incomum, mas fugindo um pouco das personagens politicamente corretas ou romantizadas.
Bom ressaltar que mesmo tratando de temas delicados e violentos, a narrativa do pequeno romance alcança um certo grau de crítica e se resolve bem, de acordo com o que se espera, sem cair em didatismos morais fáceis ou gratuitos.
É certo que falta mais desenvolvimento psicológico das personagens – quase que lineares -, e mais ambigüidade literária, mas a escrita ágil acaba por manter-se num bom nível.
Todo o mistério do elefante dourado e do roubo de quadros termina por cativar também os adultos que gostam de enigmas, embora deixe-os certos de que possuem uma boa coleção de aventuras que jamais se apagarão de sua memória. Em todo caso, é preciso manter viva a fantasia e a curiosidade juvenis, ainda que no cenário triste das favelas, do tráfico, da corrupção policial, da vulnerabilidade desses meninos e meninas que vivem, eles próprios, o desaparecimento de corpos de forma tão violenta e triste. E isso a autora faz bem. É uma boa obra para os que curtem aventura e mistério e possuem sentido aguçado de humor.
O caso do elefante dourado/Eliane Ganem/Record/Galera Record/106 p/R$32,00.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

I SEMINÁRIO RASURAS: CORPO, LEITURA E ESCRITA



semrasuras@gmail.com




O I Seminário Rasuras: corpo, leitura e escrita promove o debate acerca de processos de leitura e escrita que se desenvolvem incontroláveis pela cidade, escrevendo a malha urbana, bem como os corpos que nela transitam. Desta forma, somos provocados a pensar como a leitura indisciplinar de textos multimodais, aqueles em que há a co-ocorrência de imagens, grafismos, sons, gestualidades, têm se disseminado na vida dos jovens nas periferias urbanas e como a escrita a contrapelo de normas gramaticais e sociais tem grafado, grifado e grafitado, da parede às telas de computador, não apenas riscos, mas outras formas potentes de subjetividades.


PROGRAMAÇÃO:




13 de outubro


14:00 – Mostra de documentários recartoGRAFIAS:
Herança Guerreira de Almir Meireles, Diego Beda e Helder Rezende.
Malvinas: do outro lado da ocupação de Gabriel Teixeira.
16:00 – Palestra: Letramentos de resistência: culturas e identidades no movimento hip hop – Profa Ana Lúcia (ILUFBA)

17:00 às 18:30 – Performances: RAP, graffiti e outras manifestações de leitura/escrita urbanas
19:00 – Abertura oficial do evento
19:30 - Mesa-redonda: Interfaces de leitura e escrita: dos muros à tela, do corpo às pick-ups
Profª. Milena Britto (IL/UFBA) - media dora, DJ Branco, Adson BOOB (grafiteiro), Negramone (b-girl)
14 de outubro


14:00 – Mostra de documentários recartoGRAFIAS:
Hip hop com dendê de Fabíola Aquino
O Resgate pela Arte de Antonio Anjos, Dinaldo Santos, Hilka Costa, Luciano Souza, Igor Leonardo
16:00 – Apresentação dos projetos de pesquisa que integram o Grupo Rasuras: estudos de práticas de leitura e escrita
17:00 às 18:30 – Performances: RAP, graffiti e outras manifestações de leitura/escrita urbanas
19:00 – Mesa-redonda - Etnoletramentos: quando o corpo negro é o texto
Prof. Henrique Freitas (IL/UFBA) - mediador, Prof. Nelson Maca (UCSAL/BLACKITUDE), Prof. Eduardo Oliveira (FACED/UFBA)



O EVENTO OFERECE CERTIFICAÇÃO COM CARGA HORÁRIA TOTAL DE 16 HORAS PARA OS INSCRITOS COM PARTICIPAÇÃO MÍNIMA DE 75%.


ISCRIÇÕES PELO E-MAIL: semrasuras@gmail.com
ENVIAR NOME COMPLETO E ENDEREÇO DE E-MAIL






Promoção:
Grupo de pesquisa Rasuras: estudos de práticas de leitura e escrita (ILUFBA)
Organização:
Prof. Dr. Henrique Freitas, Profª. Drª. Milena Britto, Profª. Drª. Nancy Vieira
Apoio:
Pró-reitoria de extensão da UFBA, ILUFBA, IHAC,PETROBRÁS

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Alinhamentos da cidade


Publicado no Jornal A tarde, caderno 2+ em 02/10/2010


O resultado de “Noites urbanas”, primeira ficção adulta do jornalista Daniel Piza, não é surpreendente, mas aponta para algumas marcas que, quiçá, pairem sobre a produção contemporânea: cidade e sujeito compartilham um tempo de voracidade e de tensões que fragmentam ambos; linguagem que resiste a contrastes e se mantém na representação direta da cotidianidade; apropriação dos condensados e novos meios de expressão, seja na imitação da linguagem gerada por esses meios, seja na inclusão dos mesmos na dinâmica comunicativa das personagens: Twitter, Blogs, Orkut, MSN, etc.
Os minicontos e contos do livro oscilam. Alguns, como “A escada rolante”, cujas poucas linhas não conseguem sequer explorar o movimento e as imagens que o título sugere, “Auto estima” e “Memória do futuro”, povoados de clichês sobre o universo feminino, não mereciam estar no livro, carecem de “história” e ritmo.
Mas há ali contos que alcançam magistralidade narrativa. O mini-conto “A ficha” tem quatro linhas, mas se realiza de forma contundente, dispara as situações do dia-a-dia em um tema tão afetado: a traição, a separação. As poucas palavras do conto são suficientes para invadir a casa de casais citadinos de classe média e o leitor mergulha nas tensões insinuadas e absorve as intimidades das quatro personagens que aparecem em tão pouco espaço narrativo.
O conto “Jogo da verdade” é outro que atinge qualidade e atrai o leitor para a sua estrutura interna. Lembrando, talvez, um filme do movimento Dogma - ou outro desses que colocam casais juntos para explorar a dinâmica e o que sairá depois das hipócritas relações e aparências se desfazerem sob o peso da intimidade cotidiana- a narrativa movimenta as personagens em torno de situações corriqueiras e põe assim em cheque também as escolhas, apontando para uma visão pessimista: os sujeitos da cidade estão embrenhados em tanta vida que nem sabem viver. A traição e falsidade cegam fortemente e o desfecho do conto prende o leitor numa teia violenta.
“Ledinha” e “Circuito interno” têm boas propostas, ainda que ambos não logrem extrapolar uma história bem contada. Ainda assim, se observam as nuances de uma boa literatura urbana: as tensões são conhecidas, as personagens vivas: boa construção, aliás, das personalidades das personagens, nos dois contos, mulheres que lutam para ter-se livre das amarras da sociedade e reivindicarem seus espaços de protagonismo, dentro das armadilhas todas que a vida impõe ao gênero.
O livro de Piza escolhe o humor, um certo humor irônico, para tratar dos temas, mas algumas vezes esse artifício é o mesmo que compromete as histórias. Em todo caso, é uma coleção interessante de narrativas longas e curtas que trazem à tona a solidão, o “contágio” do desassossego urbano, as tensões, as nuances e a virtualidade de uma cidade como São Paulo, onde se pode ver que as personagens são tão vinculadas aos espaços que ali estão e seus cotidianos vorazmente devorados pelo caos que, sob a noite, adormece.

Noites Urbanas/Bertrand Brasil/176p

A graça das horas



Publicado no A tarde - caderno 2, em 11/09/2010


A língua portuguesa tem plantado hastes na poesia com Camões, Pessoa, Drummond, João Cabral, Cecília Meirelles, Bandeira, o polifônico Valencio Xavier e tantos outros que adormecem sob a nossa falta de cuidado. É talvez sob o peso desse quase silêncio em torno do poeta carioca Bruno Tolentino que a reedição de sua obra “As horas de Katherina” chega.
Além dos 166 poemas de “ As horas”, o livro traz ainda a peça inédita “A andorinha, ou: A cilada de Deus”, cuja dramaticidade e eloqüência surpreendem os bons conhecedores do gênero, e um belo prefácio de Alcir Pécora.
Os 166 poemas das Horas de Katharina, que versam sobre a conversão de uma carmelita, são um verdadeiro manancial de erudição do autor, que demonstra referências históricas e profundo conhecimento clássico, lingüístico, além de uma variada experiência poética com relação à forma, à rima, à metrica: versos decassílabos, hexassílabos, octassílabos, sonetos, sextilhas e assim seguindo por longo caminho de domínio da arte poética, sem, entretanto, deixar de exibir que a forma obedece ao pulso da poesia: nada deve – ou neste caso é - ser gratuito.
À primeira vista, a poesia de Tolentino pode assustar os que não percorrem as muitas referências abordadas formalmente e tematicamente. Nessa obra, o tema espiritual é explorado também intertextualmente, já que as referências ao “Livro de Horas”, destinado às orações privadas na tradição catolica, é não apenas na estrutura, mas na articulação e organização temática. Há ali a estrutura das missas, dos rituais de devoção, a cultura católica de rezas, orações e uma infinidade de ritos de passagem.
Os poemas são uma experiência intensa, espaço no qual se vivencia a exploração dos recônditos da alma numa atitude de devoção e perseguição do caminho espiritual da heroína. A solidão da experiência mística é tão visceral quanto é gracioso, e o espanto também faz parte da descoberta. Assim, poemas como “Miserere” “Vade retro”, “O espelho”, “As luas” dimensionarão na linguagem, no mote, na forma, uma vastidão de tempo e sentimento que se espera apenas de quem vivencia a experiência, tanto a mística quanto a humana diante de situações marcadas por ícones.
O interessante das 8 partes de “As horas” é que não se esgotam as possibilidades de leituras, tanto da “perigrinação” espiritual de Katherina quanto dos movimentos católicos míticos e místicos. Os poemas de “As horas” cuidam do ambiente interno do convento, e, metaforicamente, do espaço espiritual e da natureza humana; esse ambiente é vivenciado também nos processos formais de estudos, observações, encontros e tensões – ali há as rezas, orações, livros, passagens bíblicas e teológicas: referências que são assinaladas em notas para os que, como eu, não possuem todos os instrumentos de leitura, além de símbolos e expressões do universo popular - e a relação pessoal de Katherina com a experiência religiosa. Mas, o mais valoroso dessa nova reedição é que a peça inédita “A andorinha”, de certa forma, compõe e completa a épica passagem da heroína pois é sobre o universo exterior ao convento e as relações familiares da “persona”.
Os diálogos são um desenho maravilhoso da dramaticidade oral e, ao mesmo tempo, um vivo encontro de personalidades intensas e profícuas. Tem-se, no conjunto, o retrato completo de uma heroína (alter ego de Bruno, segundo Pécora).
Todo o livro é de uma experiência única e valiosa: ler Tolentino é um desafio e, ao mesmo tempo, é ler poesia de uma maneira que só a palavra mesma pode dimensionar: Poesia.
As horas de katherina/Bruno Tolentino/Record/399 p.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Os retornos, o duplo, as cores e as dores de Frida Kahlo





Essa artista mexicana com sobrenome alemão, sobrancelhas grossas e buço acentuado talvez jamais haja imaginado que o mundo inteiro lhe renderia a fama que hoje possui. Seus quadros viajam aos museus mais conhecidos, seu diário foi lido por milhares de pessoas, seu rosto estampa desde camisetas, jóias, anúncios de venda de carros até publicações de história da arte; sua vida virou filme – dois – e tem inspirado desde ações feministas até pesquisas na psicanálise e coreografias de dança contemporânea. É a artista mais escolhida, hoje, para representar o México de cores vivas, tradições milenares, exotismo e modernidade.
O que, entretanto, faz incomum a história de Frida é a complexidade que envolve o seu trabalho, o seu pensamento, a sua vida cheia de tragédias físicas e psicológicas, o seu gênero. Era já hora de que não apenas via Diego Rivera seu nome circulasse.
Arte, corpo, amor e política marcam o caminho de Frida de igual maneira: intensa. A pintura, conhecida pelos famosos autorretratos, vai ser, ao mesmo tempo, a biografia, o espelho e o pensamento de Frida, e – juntando-se aos mitos femininos mexicanos da Malinche e da Virgem de Guadalupe – é a representação do México bipartido, híbrido, tradicional, primitivo e moderno, trágico e belo. Assim, desde seu fascínio pelo seu duplo – a mesma e oposta ao mesmo tempo como se vê no quadro “ As duas Fridas” – até as escolhas de suas técnicas (como a adoção do estilo ex-votos e retábulos em suas pinturas), cores (vivas e vibrantes), cenários (fauna, flora e iconografia mexicana), e os seus temas, refletem um eterno retorno a algo profundo que se representa pela raiz de sua dor e de sua “mexicanidad”.
Na política e no amor também há “retornos”: Frida rompeu com o partido comunista mexicano e anos depois voltou a filiar-se (há quadros em homenagem a Trotsky e a Stalin), o que também revela conflitos em suas convicções ideológicas; divorciou-se de Diego Rivera e voltou a se casar com ele - apesar de saber de suas traições - o que evidencia a obsessão por esse amor fracassado.
Esses “retornos” de Frida anunciam a um movimento de autoconhecimento e, ao mesmo tempo, de desespero. Artisticamente, vai coincidir com um retorno do Mexico às suas origens indígenas, um recuo da Europa, não sendo a toa que ela integra o movimento intelectual e artístico intitulado “mexicanidad”, que seria o equivalente, em certos aspectos, ao nosso movimento Modernista, embora, em certo momento, a artista tenha sido “assediada” pelo surrealismo – negado por resistência às idéias vanguardistas da Europa. O retorno amoroso e político permitem uma similar analogia: paixão e dor, decepção e refúgio, medo e esperança.
Frida Kahlo, mulher que se expôs inteira e profundamente em seus quadros, não temeu nem a si mesma. Amou homens e mulheres, viu-se e pintou-se homem e mulher, sobreviveu à pólio, aos acidentes, aos abortos, às traições, ao México que vivia um momento político brutal. E, décadas depois de sua morte, o “retorno” de Frida Kahlo vem assegurar que em sua arte apaixonada há uma resistência profunda a “las tragédias, a el dolor, a el olvidamiento”. Viva a Frida,

Publicado no caderno 2+ do Jornal A tarde em 14/08/2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A canastra mágica de Cortázar




A obra de Julio Cortázar é, fascinantemente, capaz de dar contorno a uma extensa lista de possibilidades humanas relacionadas aos sentimentos, ao humor, às ações e ao cotidiano. Mas, passados mais de vinte anos de sua morte, os cortazarianos podem ser surpreendidos com muito mais. A publicação de um livro com a coleção de inéditos e dispersos (mais dispersos do que inéditos) vai deixar loucos de alegria os que, como eu, apreciam os escritos do autor de “O jogo da Amarelinha”. O livro é a confirmação de que Cortázar continua jogando, mesmo depois de sua morte, com seus leitores, com as casualidades e com a literatura.
Em 2006, como uma canastra mágica, foi aberta uma velha cômoda e, fantasticamente, de dentro dela saíram milhares de papéis em forma de crônicas, contos, artigos sobre arte, cinema, política e literatura, comentários sobre assuntos do cotidiano do autor, discursos, cartas e outros textos de gênero indefinido, tudo com o humor peculiar do autor. O resultado desse achado “maravilhoso” está no livro “Papéis inesperados” que acaba de sair no Brasil.
Muitos dos textos já publicados estavam perdidos e os inéditos estavam ali sem revisão, como se não houvessem mesmo sido preparados pelo autor para a publicação, o que nos coloca ante àquele velho problema ético: se o autor não quis publicar em vida, seria justo fazê-lo depois de sua morte? Aurora Bernádez, a viúva de Cortázar, resolveu que o conflito é nada diante da riqueza que esse material representa e de sua importância para os leitores e estudiosos do escritor argentino. Os leitores só têm se rejubilado com a surpresa, afinal, ler Cortázar “inédito” no século XXI é a maior das “trampas” narrativas da vida.
O livro é dividido em 12 partes: Prosas, Histórias, Histórias de Cronópios, Do Livro de Manuel, Momentos,Circunstâncias, Dos amigos, Outros territórios, Fundos de gavetas, Entrevistas diante do espelho e Poemas.
Os textos que estavam dispersos e que já haviam sido publicados têm, ao final, a data e o meio original de publicação, na maioria das vezes jornais e revistas; no caso dos verdadeiros inéditos, está incluído o ano aproximado em que foram escritos. Apesar de muitos textos haverem sido já publicados, não significa que os conheçamos. Alguns deles são praticamente inéditos no sentido de circulação.
“Papéis inesperados” é um imenso álbum de collage, formado por letras distanciadas entre si por décadas. Ali nos deparamos com um Cortázar de vinte anos no “Discurso do dia da Independência”, de 1938, o maduro em “Trânsito” de 1952, e outro muito mais literário, pouco antes de morrer, em “De trufas e topos”, de 1984. É interessante observar o caminhar do autor também por esses textos desconhecidos que dão-nos a sensação de estarmos construindo uma “epistemologia” do próprio Julio.
A divisão feita no livro pretende uma coerência de temas, apesar de ser isso difícil em se tratando de Cortázar, que pode começar um texto falando de Bergman e terminar falando de asma. Particularmente, tive muito prazer em ler seus contos inéditos como a longa narrativa “Os gatos”, que mergulha no universo adolescente para contar minuciosamente uma quase sórdida história de adultério, incesto, descobertas da puberdade e paixão, tudo soterrado em dois ambientes fechados: a casa da cidade e a casa da fazenda. Também o genial “Manuscrito achado perto de uma mão”, que revela toda a capacidade inventiva do autor, toda a sua sagacidade literária, numa impressionante armadilha temática e narrativa. É espantoso que essa preciosidade não haja sido publicada em nenhum de seus livros, só no jornal El País. Também apreciei as três histórias de Cronópios e as histórias de “um tal Lucas”, uma coleção desordenada muitíssimo interessante e recheada do humor de Cortázar.
Há ainda os textos onde se vê o autor politizado, preocupado com os regimes ditatoriais latinoamericanos. São muitos os textos em que Cortázar fala de Cuba, de Nicarágua, dos movimentos políticos e do papel do escritor nesses assuntos.
O demais é diversificado nos temas, estilo e época que os contextualizam e haveria que se falar de cada um. Resta dizer que em todos esses “Papéis” fica evidente a indiscutível assinatura de Julio Cortázar: os diálogos absurdos, o humor, os jogos, as brincadeiras, a beleza do cotidiano, as idéias simples revestidas de fantasia.
Com esses achados, conhecemos mais do escritor e do homem, seus gostos artísticos, suas recordações de viagens, sua relação com os amigos, suas observações de mundo, seu compromisso político tantas vezes reclamado pela falta. “Papéis inesperados” traz muito mais de um Cortázar cotidiano do que “fantástico”, mas é verdadeiramente uma oportunidade para acercar-se ao escritor que viveu e escreveu como um cronópio. É, ainda que não seja um livro puramente de ficção, uma espécie labiríntica de “Jogo da amarelinha”. Joguemos.
Papéis inesperados/Julio Cortázar/ organizado por Aurora Bernádez e Carles Garriga/Civilização brasileira/ 485p.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

De Macondo ao mundo: desvendando Gabriel Garcia Marquez



“O outono do Patriarca”, “Cem anos de solidão”, “O amor nos tempos de cólera”. Essas e outras obras foram lidas por todo o mundo e o autor, Gabriel Garcia Marques, expoente do realismo fantástico, é um dos mais conhecidos da Literatura latino-americana, assim como a sua “Macondo”. Agora, curiosamente, não é uma obra do escritor colombiano, ganhador do Nobel, que vem causando rebuliço e sim uma biografia não autorizada, mas, “tolerada” por ele.
O hispanista inglês Gerald Martin, Professor Emérito da Universidade de Pittsburg, é o autor da extensa biografia, resultado de uma pesquisa de quase 20 anos. As fontes entrevistadas, mais de trezentas, vai de ex-amantes até o próprio Gabriel, que chegou a dizer que não se daria ao trabalho de esclarecer nada.
Além de entrevistar o escritor e sua família, Gerald consultou muitas obras, documentos, cartas, artigos, conversou com estudiosos da obra do colombiano e mergulhou na biografia que o próprio Gabriel escreveu há alguns anos para contestar a veracidade das informações ali colocadas.
A biografia levanta outra vez a discussão do limite entre realidade e invenção, que, na literatura, o termo ficção parece ter mais razão de ser. As informações e fatos colhidos, de qualquer maneira, dependem da interpretação de quem escreve para fazer sentido. Está aí a resposta: essa biografia não seria mais ou menos verdadeira do que a de Garcia Marquez, embora, obviamente, o que a invalidaria seriam as distorções que pudessem haver.
Não parece ser o caso, embora haja ali um apelo de impor uma leitura frente aos buracos da vida do Gabo, aliás, do início ao fim do livro, é assim que Gabriel é tratado por Gerald: Gabo.
Apesar dos muitos dados, a leitura flui. As páginas mais complicadas são as que correspondem às origens familiares, uma saga emaranhada cujas raízes estão no povoado de Aracataca, e cujas origens Martin rastreou, basicamente, através de relatos orais dos descendentes. Ao mesmo tempo, o autor vai traçando a história de uma Colômbia diversa e complexa, e depois de “ o bogotazo”, violenta.
A infância de Gabriel, onde se mantém uma certa obscuridade, foi difícil. A mãe, que “abandonou” o filho - criado pelos avós maternos até os 7 anos - logra recuperar um espaço de aproximação na adolescência do primogênito, mas o pai é sempre um homem distante.
As mudanças constantes de ambientes, acompanhando o movimento da família e de Garcia Marquez, torna dinâmica a narrativa, que deixa entrever a fixação de certos mitos que foram parar nas obras de Gabriel, sobretudo, em “O outono do patriarca”, onde fatos de sua vida mais aparecem.
O jovem Gabriel é descrito como um rapaz mulherengo, boêmio, embora apaixonado pela leitura, pela escrita. O casamento com Mercedes - cujo primeiro encontro, quando esta tinha nove anos e Gabriel 14, fica escondido na obra- causa uma transformação radical no escritor que passou inúmeras dificuldades econômicas - de não ter o que comer e ter, por exemplo, de penhorar a máquina de escrever que ganhou da mãe ou dividir o pão das prostitutas – até chegar à Universidade e iniciar as primeiras poesias, começar a carreira de jornalista em Cartagena. Tudo o que pode, Martin documenta nestes relatos minuciosos.
Há também a relação de Gabriel com Tachia, a atriz que conheceu em 1953, em Paris, cujo caso termina em aborto. Antes de Paris, aparece a figura de Ramon Vinyes, o escritor que é personagem em “Cem anos de solidão”. Entre bebidas, farras e bordéis, Gabriel descobre Joyce, Faulkner, Kafka e ainda o folclore colombiano. Gabo interessa-se pelo cinema italiano, o marxismo, a política, e vai, aos poucos, se transformando em um homem atento ao mundo. Inclusive, esse é um dos méritos da biografia: analisar as etapas sucessivas na vida do autor.
No México, o encontro com Carlos Fuentes o deixa inseguro, pois achava o amigo mais inteligente do que ele. E no DF Gabriel leva um “soco” de Vargas Llosa, segundo o que foi “investigado” pelo autor de “Uma vida”, por ciúmes da mulher de Mário.
As primeiras partes do livro são sobre o período antes da fama; da escrita dos seus livros primeiros; depois do sucesso, as análise sobre o posicionamento político e o ativismo tornam mais objetiva a escrita e com menos novidade. Mas está ali a amizade com Fidel Castro, Omar Torrijos, Felipe González, sua ida a Cuba para fundar a Escola de Cinema, suas preocupações com a guerrilha colombiana. A biografia – que vai da infância até os últimos anos - aborda desde a busca pelo poder, pelo qual Gabriel se sentiu sempre atraído, até o reencontro com o pai, muitos anos depois do sucesso e, por fim, um último encontro de GGM com Martin, o autor da biografia “tolerada”.
Gabriel Garcia Marquez: uma vida/Gerald Martin/trad. Cordelia Magalhães/ Ediouro/814 P.

Publicado no caderno 2 do Jornal A tarde em 11/07/2010

sábado, 12 de junho de 2010

Drummond: livro, pedra e poesia



Publicado no Jornal A tarde 12/06/2010

O poeta faz a sua mala/põe camisas punhos loções/um exemplar da “imitação”/e parte para outros rumos.

Como “Fuga”, poema de Carlos Drummond de Andrade, “Alguma poesia - o livro em seu tempo” é aquela pedra da qual somos herdeiros: se no meio do caminho tinha (uma pedra), no nosso caminho tem (Drummond). Não adianta correr do Modernismo. Há ainda potencialidade em Drummond, na “pedra”, na “fuga”, e em “Alguma poesia”.
O poeta Eucanaã Ferraz é organizador desse livro especial. Em um belo tomo, reuniu fotos, cartas, manuscritos, datiloscritos e um fac-símile da primeira edição do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade: “Alguma poesia”. E, no tomo fac-similado, observamos as alterações que o poeta fez à tinta e que foram incorporadas às edições posteriores. O livro é cheio de surpresas como essa e, como o próprio organizador chama a atenção, é uma jóia para aqueles que são estudiosos da obra do grande poeta modernista e um presente para os que gostam de poesia, de livros, de história, de fotos, de memória, de papel.
O volume foi organizado em três partes: a primeira é uma apresentação, escrita pelo próprio Eucanaã, que traz a história do livro “Alguma poesia” de maneira interessante: localiza Drummond na cena modernista mineira partindo, principalmente, do diálogo deste com Mário de Andrade. As informações são dadas a partir das cartas de Mário a Drummond e a Bandeira, e as respostas de Drummond, assim como informações de livros, artigos, acontecimentos. Tudo devidamente documentado e explicado “textualmente” em notas de rodapé. O que ali interessa é a “biografia” daquele livro, então, o leitor pode ver como nasceu alguns dos poemas, quais foram incompreendidos, massacrados, adorados, reescritos, aceitos. O leitor acompanha mesmo o nascimento de uma obra desde a sua idealização até a sua edição. E ainda recupera a discussão dos modernistas, a força de Rio e São Paulo em relação aos demais grupos modernistas, a opinião de Mário sobre os poemas, alguns dizendo gostar e outros dizendo achar ridículos, ingênuos, mas reconhecendo o valor e pedindo ao jovem poeta que “por favor” publique a obra ainda que tenha de pagar do próprio bolso pela publicação.
A segunda parte é o fac-símile. Que gostosura: podemos ler os poemas em sua grafia original, gozar do amarelo das folhas, testemunhar as interferências e correções feitas por Drummond, saber como foi a diagramação da primeira edição, “forjar” uma fuga ao contrário: é no tempo do poeta que entramos, vindos do pós- moderno, procurando o lugar do “stop/a vida parou/ou foi o automóvel?”.
Na última parte se tem a fortuna crítica da obra, e as cartas de agradecimento enviadas por críticos, amigos, escritores, conhecidos e anônimos que receberam o livro. As resenhas e artigos vão dar notícias das críticas negativas e elogiosas ao livro.
Assim como “Alguma poesia” reúne alguns dos poemas mais significativos de Carlos Drummond de Andrade, “Alguma poesia- o livro em seu tempo” traz algumas das mais importantes relações: a do poeta com a sua obra, e com o seu tempo. Na feitura do livro, acompanhando cada um dos aspectos - do intelecto-artístico ao filológico -, tem-se a magnífica “ciência” do livro, encantando e desencantando a palavra do poeta. Uma bela homenagem ao poeta, ao livro e à poesia, fruto da união do grupo Moreira Salles, Casa de Rui Barbosa e da família de Drummond, sob o olhar de outro poeta. Depois de “possuir” esse livro, não nos contemos: - Vem, Carlos, ser gauche conosco.

“Elas” sem pseudônimos, mas com blogs, ‘cartas’ e twitter: escritoras da Bahia contemporânea


Imagem da artista visual Mari Fiorelli - www.ociumeilustrado.blogspot.com


Publicado em A tarde 12/06/2010

Eu não acho, definitivamente, que a Literatura deva ser classificada, mas, com o mínimo de olhar crítico, é impossível não se aperceber da diferença que houve no tratamento e no acesso de mulheres, e outras minorias, às publicações literárias.
A arte literária é complexa como produto, envolve criação, publicação, circulação e recepção. Enquanto as mulheres, até o século XIX, lançavam mão de tudo quanto fosse estratégia para chegar aos leitores, uso de pseudônimos masculinos, casamentos convenientes com escritores ou com Jesus (as que souberam bem articular desde a Igreja, como Sor Juana e Amélia Rodrigues ) e outros trágicos e cômicos artifícios, as de hoje escrevem em blogs, twitters, sites; postam, mandam “cartas” para o público e experimentam, inclusive, processos ‘novos’ de criação, frutos dos avanços da tecnologia: as intertextualidades, as linguagens híbridas, a sobreposição de texturas literárias.
As cartas, como as da coleção “Cartas baianas”, da editora P55, são mandadas com carinho e com sucesso: a edição, despretensiosa, é cuidada dentro de um projeto gráfico simples e, ao mesmo tempo, atraente, com o visual jovem que nos dá vontade de mexer de forma fetichista quase. E não custa muito, ainda que o preço corresponda ao tamanho e à bem bolada – não sei se consciente- forma de pegar o público: alguns dos textos chegam ao final e o leitor tem vontade de mais, certamente dispostos a consumir o segundo tomo se houve/r/sse.
As remetentes das “Cartas” são diversas em seus estilos e linguagens: Kátia Borges, Allex Leilla, Karina Rabinovitz, Adelice Souza, Renata Belmonte, para citar algumas.
A poesia das “Ks”, Kátia e Karina, são distintas: Rabinovitz trabalha mais com composições visuais,embora haja também poesias cuja musicalidade é explorada, não só pelos jogos com as palavras, mas com o próprio ritmo e recursos sensoriais. Muitos de seus versos são imagens, arranjos gráficos, poemas-coisas, os quais invadem também a cidade como instalações poéticas, numa agradável e possível mistura de artes visuais com texto poético. Basta pensar nas caixinhas com poesia dos pontos de ônibus, as pinturas de versos nos muros da cidade, o lambe-lambe poesia, os balões que escondem versos e outras poéticas instalações. Chama-me a atenção a sua coragem em explorar a poesia dessa maneira, e a visível ausência de hierarquia entre as variadas formas de expressão artística.
Kátia Borges mergulha na palavra e a explora como parte de uma tessitura firmemente marcada pelo sentimento que vem da experiência, mesmo que seja da experiência da memória. Em sua poesia, a memória de uma geração – que não corresponde temporariamente ao seu tempo de produção, mas que sem dúvidas foram suas referências - vai surgindo não apenas pelas pistas literárias e culturais que faz emergir, de John Fante a Janis Joplin, mas também pelo acercamento a uma poesia que revela o lugar do poeta e, com isso, seu envolvimento com o seu tempo, com a própria literatura e o desvendamento do sujeito que faz da poesia a sua morada.
As “As” da coleção, Allex Leilla e Adelice Souza, trazem temas fortes em suas produções e ambas trabalham bastante com o desejo; são diferentes, ainda que com semelhanças que as trazem ao lugar de onde escrevem: o presente. Allex Leilla ‘compõe ‘ ficção com poesia. A escrita madura, bem fincada na liberdade que se dá em termos de experimentos de linguagem e exploração minuciosa do corpo como parte dos textos, numa muito interessante relação de carne-palavra, faz mergulhos pelo submerso do sujeito, da palavra, mas não foge dos encontros com suas influências literárias, seus gostos musicais e poéticos. O seu texto traz referências, citações e recuperações de versos entram na sua obra num bem balanceado diálogo e vai além: acaba fazendo parte de seu texto de maneira natural, sem, contudo, perderem o sentido primeiro.
Adelice brinca seriamente com o “teatro das palavras” explora a dramaturgia latente nas histórias de vida das personagens; como as demais, “intertextualiza” em sua escrita de forma peculiar e experimenta entrar na intimidade das personagens sem pudores, revelando-as e desmacarando as suas dores e o seu riso num texto forte.
Renata Belmonte, com a sua Sta. B., explora a relação autor-personagem, joga com essa relação e vai percorrer o caminho que as personagens percorrem. Não carrega pesos e a escrita vai solta, pontuando pelo caminho as observações da vida, a intimidade com o presente dentro e fora da obra, e a ‘farsa’ que limita realidade e ficção.
Dos blogs há outras, além das que foram publicadas pela coleção “Cartas baianas’, como Eliana Mara Chiossi, que reuniu as suas ‘postagens-escritos’ no livro “Fábulas delicadas”, da editora Escrituras. Eliana, entre todas as escritoras dessa geração, é a que mais assume uma feminilidade como parte de sua obra, explorando, nos textos, esses lugares do feminino na contemporaneidade, externamente falando, e também na intimidade de certas experiências como a maternidade, a fantasia, o desejo, o papel de filha, de mãe; recupera metonímias e metáforas levadas por palavras que muitas escritoras rejeitam pelo estigmatizado que ficou o vocabulário dito “feminino”: jardins, flores, cores, deus, divagações. A sua escrita, nesse primeiro livro que saiu de seu blog, promete percurso e a escritora se mostra com coragem.
Ana Paula Fanon, poeta, produtora cultural, fotógrafa e jornalista, que mantém o blog literatura subversiva, não privilegia a sua poesia frente ao texto jornalístico: em seu blog há tudo em igual destaque. É uma blogueira-poeta que usa a paixão e a liberdade para variar nos temas e formas de sua poesia.
Elas, as baianas, sem “nicknames”, pudores, ou restrições, vão traçando um percurso abrangente de temas e experimentações, usando ao seu favor os novos meios de divulgação, mas não se limitando a isso; utilizam os próprios meios para experimentar na linguagem, revelar outras facetas, trocar experiência, expor poesia como instalação, publicar o que gostam e lêem. E as que mandam ‘cartas’, mandam-nas seus nomes, dando ao momento a certeza de que elas assinam. Os nomes e, sobretudo, as obras.

sábado, 29 de maio de 2010

Ruídos literários



Publicado no A tarde 29/05/2010

Enquanto lia “Paisagem com dromedário”, de Carola Saavedra, não pude evitar de pensar nas construções simbólicas que levam uma literatura a ser de determinado local: brasileira, francesa, cubana... a paisagem, a língua, os temas, as marcas culturais, a origem do autor: sempre se busca alguma essencialidade que nos conecte diretamente ao lugar. Mas a literatura brasileira contemporânea vem apontando bem numa variada universalidade que interessa por muitas razões, afinal, temos uma forte tradição da “cor local” que, do Romantismo ao Modernismo, nos rendeu desde o nosso imaginário brasileiro até a antropofágica relação com o que de fora nos vinha .
Aos 36 anos, a jovem autora Saavedra vai marcar muito bem esse aspecto universal em seu novo romance. Para começar, a autora é uma chilena que veio para o Brasil aos três anos. E, a partir dessa informação, marcada na orelha do livro, seguimos pelo “espaço” da narrativa do romance: uma ilha. Mas nunca sabemos em que ilha a personagem-narradora se encontra. Apenas que é uma ilha vulcânica, com um mar selvagem e alguns poucos turistas. Uma certa vida local com variadas “figuras”: uma marchand e seu marido, um médico, uma cozinheira, sua cunhada. As demais personagens, um artista e uma jovem estudante de arte, são imagens recuperadas na memória da narradora Érika, que vai “montar” e “desmontar” um triângulo amoroso rodeado de reflexões em torno da arte, do artista, do propósito da criação, e da existência.
A ilha pode estar em qualquer lugar do mundo e em lugar algum. O que faz o espaço ser apenas o “modo” de que seja possível a história narrada por Érika, que, na verdade, narra em um gravador as cartas para Alex, famoso artista conceitual com quem teve uma relação profunda. Com técnicas descritivas e rítmicas próximas do Rádio e do Cinema, a autora deixa que o leitor experimente muito daquela história cheia de ruídos e interrupções, ainda que a condução dada pela “narradora” seja controlada o tempo todo, evitando que o leitor escape da história e seja apenas parte de um “happening”.
Todo o tempo, a narradora, enquanto tenta entender a reação de desprezo que manteve com a sua amiga íntima Karen, quando soube que esta tinha câncer, vai insinuar que a obra é uma instalação. Ao relatar para Alex os seus dias naquela ilha, a sua relação amorosa com o veterinário, as conversas com Pilar, a relação estranha com o casal de marchands, Érika também narra a construção de uma instalação literária. É tudo uma farsa e ao mesmo tempo é concreto o que se tem ali: os ruídos dos transeuntes, os barulhos de uma natureza selvagem e forte, a música e a interferência de uma rádio, os passos de alguém, choro, vozes, enfim, ruídos que vão compor os experimentos estéticos das personagens artistas.
Enquanto a história assume as interrupções como parte de sua estrutura, o leitor vai decifrar também as estórias cruzadas, o lugar que não sabemos, os costumes novos que se apresentam ali e que reconhecemos que não são nossos, mas que são igualmente locais, prosaicos, desses que nos encantam descobrir em viagens: Pilar, a cozinheira da casa onde Érika está hospedada, visita com sua cunhada o cemitério, leva a comida preferida do morto, aguardente, fotos, velas, flores para celebrá-lo: um costume forte em países como o México e a Guatemala.
Assim, evitando a superficialidade de uma paisagem de “viagem”, Saavedra constrói uma narrativa interessante, história com tragédias amorosas, buscas pela originalidade da arte, a tentativa de entender-se e retomar a própria identidade, objetivo da narradora, que se diz “dominada” pelo carisma e pelo talento de seu parceiro no amor e na criação artística. Rompendo os limites da literatura com criatividade, Carola mantém a tensão dos fatos, a angústia e a solidão de uma jovem que se procura, se persegue e se enfrenta. E em qualquer lugar.
Essa literatura brasileira sem “cor local” se faz muito interessante para seguir as provocações da própria narradora em torno da arte, definida como “aquilo diferente que está em quem vê e não no objeto ou no contexto”. Fora de qualquer paisagem brasileira, em cima de um dromedário, seguimos tão certos de nosso lugar que nos reconhecemos nas dinâmicas e nas paisagens inóspitas que se apresentam ali.

Paisagem com dromedário/Carola Saavedra/ Cia das letras/167 p./38 reais.