sábado, 10 de abril de 2010

Cinema e Literatura no romance de Jean-Claude Carrière




A obra “Meu tio”, de Jean-Claude Carrière, é fruto de uma experiência artística interessante: a transformação de um filme, não de um roteiro, em romance, e com a ilustração da obra obedecendo às duas estruturas: a do cinema e a da literatura. É um livro que desperta a atenção para as fronteiras das linguagens, das artes, deixando para o leitor uma experiência de leitura peculiar, pois o livro não se esgota e nem se limita à estrutura narrativa romanesca: pode ser revisitado depois do filme e vice-versa, e tem, nas ilustrações de Pierre Étaix, o complemento visual da história. É uma obra independente, mas que pode dialogar de maneira encantadora com o cinema.
Baseado no filme homônimo do diretor Jacques Tati, um clássico do cinema francês, “Meu tio” se destaca na obra do autor, conhecido no mundo do cinema por seu trabalho ao lado de nomes como o próprio Tati, Pierre Étaix e Buñuel (por esse último foi convidado a escrever a sua biografia, “Meu último suspiro”), e traz para a literatura toda a força silenciosa da película.
A personagem principal do filme, o senhor Hulot - um solteirão ambíguo, que não se enquadra nas regras sociais e capitalistas do mundo burguês - mantém-se charmosa e enigmática, com o seu jeito estabanado cativante, e é ele o centro gravitacional da história. Mas, diferentemente do filme, o livro traz o sobrinho como narrador, que conta a história já como um adulto relembrando a sua infância, na qual a figura do tio ocupa um lugar especial e decisivo.
Como o filme, o romance se desenvolve de forma sutil e delicada, com uma comicidade estabelecida na combinação de detalhes da personalidade das personagens com as dinâmicas sociais. A obra também mantém a crítica ao exagero do culto à vida moderna, à vida de aparências centradas nos bens materiais e ao consumo vazio das décadas de 40 e 50. O modo brilhante com que foi feito o filme permitiu que se mantivesse atual e com uma forte carga crítica. O romance, apesar de não falhar a essa crítica pretendida por Tati, adéqua o contexto para mostrar que se trata de um momento do passado, onde o apelo ao moderno era demasiado e caricatural.
O tom de “memória” trazido pelo narrador, que nos remete àquele menino de dez anos, vem de um adulto reconstruindo as suas experiências e impressões da infância, a solução encontrada para dar ao livro a mesma conexão com o momento retratado que o filme permite. O distanciamento temporal faz pertinente o choque entre o moderno e o provinciano, já que o narrador, não mais uma criança, descreve a sua dificuldade com aquele mundo robotizado e automático dos pais e o seu encantamento pela liberdade e pela vida menos artificial do tio, o senhor Hulot (que, vale a pena dizer, no filme é interpretado pelo próprio Tati, que se inspira em Chaplin).
Os desenhos de Pierre Étaix são valiosíssimos para o detalhamento, tanto das personagens quanto da dinâmica entre eles e o seu meio social e espacial. São traços minuciosos que recuperam as sutilezas do filme, realmente traduzindo, nas ilustrações, os espaços retratados, as cenas do cotidiano tanto da vila quanto daquele castelo de concreto.
O sabor especialíssimo dos detalhes na obra de Tati pode ser conferido na reprodução de uma cena emblemática: no filme, a câmera mostra a cena de um cachorro embaixo de uma banca de verduras rosnando para um peixe que está na sacola do senhor Hulot e que corresponde, metaforicamente, à discussão sem som e sem palavras que visualizamos no jogo de corpo da personagem com o dono da barraca. O livro traz essa ilustração, assim como outras, para recuperar o olhar sobre o detalhe, deixando-nos, aos leitores do romance, a mesma sensação de que estamos diante de uma história silenciosa, pois se economizam, no livro, as palavras com o uso da imagem, e, no filme, o som é deixado para os ruídos das máquinas, das pisadas, das campanhias, dos alarmes, eventualmente do assobio de um pássaro. Os diálogos são mímicas, impossibilidade de se escutar as vozes humanas pelo barulho da “modernidade”, corpo, espaço e metonímias.
Essa narrativa econômica, delicada, e o diálogo com as imagens que acompanha todo o romance, trazem a mesma sensação desse “silêncio” simbólico do filme de Jacques Tati. É uma obra saborosa que presenteia aos amantes do Cinema e da Literatura com o riso, a ironia, a crítica, a de
licadeza e o romantismo dessa personagem anacrônica e marginal que é o “meu tio”, o senhor Hulot, sempre com seu cachimbo e seu guarda-chuva, perdido entre as bárbaras máquinas modernas.

“Meu tio”/ Cosac Naify/ Jean-Claude Carrière/ Ilustração de Pierre Étaix/ Tradução de Paulo Wernek/173 p/ 37 reais.

A tarde, 10/04/2010

5 comentários:

  1. muito bonito. gosto também
    beijo
    jenni

    ResponderExcluir
  2. Que bom que gostaram! :-)
    Jenni, tive que comprar outro cel, aparelho, depois de uma longa aventura... mande-me os contatos outra vez...

    ResponderExcluir
  3. adorei o novo visual do blog!!!
    bjao
    ex-vizinha2

    ResponderExcluir
  4. Minha ex-vizinha2, você, como eu, está quase desaparecida, já faz tempo que não nos vemos... :-) Obrigada pela visitinha aqui e fico feliz que o visual do temporada agradou-lhe! vou tomar umas aulas com karina sobre blogs :-)

    ResponderExcluir