domingo, 13 de novembro de 2011

Mistérios, anjos e bagunças

O mundo, como está, é confuso para nós, que dirá para os pequenos. Mas é neles que temos de investir em se tratando de aguçar a fantasia, despertar o desejo de sonhar, estimular o prazer de ler.
Falamos de crise na leitura, cada vez mais sendo substituído o livro pelas mídias, pelo cinema. É tudo muito bem-vindo, quando com qualidade, estética interessante, histórias emocionantes e divertidas. A convivência de todas as formas de textos, do oral ao escrito, passando pelo iconográfico, é interessante e importante. Apenas não queremos que o livro saia de cena; há ainda nesse suporte o encanto milenar de virar páginas, descobrir o segredo das palavras, jogar com sentidos como se joga com brinquedos.
A literatura para os pequenos tem sido sempre algo especial, grandes escritores universais e brasileiros- de Esopo e La Fontaine a Chrales Dickens, dos irmãos Grimm a Maurice Sendak, de Julio Verne e seus livros de aventura a Ana Maria Machado e Lygia Bojunga, de Marina Colasanti a Sérgio Vaz e Ferrez, passando por Clarice e sua galinha, Cidinha da Silva, Glaucia Lemos, Ruy Espinheira, Antonio Torres, Jorge Amado, enfim, de escritores locais aos mundiais, temos o lúdico, a fantasia, a poesia e a aventura presentes na nossa memória da infância, acrescentando-se aí os contos das avós em rodas de quintais.
Mas não é fácil escrever para eles, os pequenos. Cleise Mendes – dramaturga, escritora - e Paulo Rufino- que ainda não havia ilustrado para os pequenos- num gesto de carinho, juntaram-se para trazer “Gabriel e o anjo da bagunça”, lançado há pouco tempo pela Camurê publicações, num projeto do banco Capital, com a coordenação de conteúdo feita por Lena Lois.
A história de Gabriel, um menino que é surpreendido com uma bagunça tão bagunçada que ele mesmo se espanta, é um texto aparentemente simples, mas complexo em sua idéia: entre descobrir e pensar nos mistérios do cotidiano de uma criança, a personagem se embrenha por um mundo de fantasia, de aprendizado, de controle de medos infantis, de descobertas.
O texto apresenta diálogos e narração, além das ilustrações de Rufino. Como eu disse, é difícil escrever para crianças, decidir sobre adequação de linguagem, estrutura, tamanho, tipos de desenhos e técnicas. O livro é bonito, mas em certo momento fica difícil decidir para que idade ele é destinado, tem mais texto do que o comum para uma criança muito pequena, e ao mesmo tempo a escolha do vocabulário e a economia de metáforas são acertadas para os menores.
A opção pelas frases literais e uma certa objetividade por um lado é interessante em se pensando que não devemos subestimar o alcance das crianças, mas também acaba por, a depender de quem lê, deixar a história mais ligada ao real do que ‘a fantasia. Isso, claro, é equilibrado com as possibilidades fantásticas no quarto da criança.
Os diálogos começam a ficar mais interessantes no meio do livro, a autora parece soltar-se mais e ela própria passa a viver tudo com Gabriel. Da mesma forma, os desenhos começam muito na tradicional ilustração do texto; só em certos momentos deixando que a imagem seja o prolongamento do mesmo, seu complemento.
A técnica do artista é boa, ele se dedica ao trabalho com seriedade e cuidado. As ilustrações imitam a textura do material escolhido, o giz de cera, o lápis de cor sobre papel. É gostoso perceber a textura sugerida ali. E o papel, como o design gráfico do livro, foi feito cuidadosamente. Gostei mais das ilustrações que também “se soltaram naquele quarto”, naquela fantasia, como a dos fantasmas, a das cortinas voando, a do sol, do avião... a do sapo eu dispensaria.
Cleise Mendes respeita os pequenos, trata de deixar ali a sua mensagem: eles devem ser livres em sua fantasia e sentire-se seguros para resolver seus mistérios e medos. As crianças, como Gabriel, podem descobrir a si mesmos e sobre o mundo enquanto se deparam com o inesperado, com a surpresa, com as suas angústias. Vão aprendendo a ser responsáveis. E tudo isso com muita traquinagem e bagunça, amigos invisíveis, mistérios e bichos de estimação. A autora também insere, implicitamente, a relação dos adultos ali e os limites entre verdade e fantasia.
É um texto que traz um menino comum de uma família em “situação normal”. Gosto de que Gabriel seja uma criança que, sendo negra na história, também podia ou pode ser branca, mulata, misturada. Um projeto interessante nessa difícil – e bota difícil nisso – tarefa de escrever para crianças.

Por trás da burca, a força das mulheres

Ayaan Hirsi Ali transformou-se num símbolo da luta feminina contra a opressão nos países islâmicos. Em “Nômade”, ela volta a colocar a sua experiência num relato pessoal, uma espécie de romance-diário, no qual continua a contar a sua trajetória.
Agora, a autora tece a sua narrativa ao redor do eixo familiar. É contando sobre o seu pai, irmãs, primos, avós, mãe, família que ela classifica no livro como “problemática”, que ela aborda o Islamismo, um meio de vida mais do que uma crença.
Falando também de sexo, dinheiro e violência, Ayaan vai abordando a diferença entre o mundo muçulmano e o ocidental, destacando a oposição entre o sistema democrático e o teocrático, alvo de sua crítica e rancor.
“A burca deveria ser o ponto de partida para um debate mais amplo: a maneira de viver das pessoas em geral”. Afirma no livro. Ayaan Hirsi nasceu na Somália em 1969 e recebeu uma educação islâmica ortodoxa e radical, tendo sofrido mutilação vaginal, uma experiência traumática e dolorosa, conforme relatou em seu primeiro livro. Com apenas 22 anos, ela conseguiu fugir para a Holanda, escapando de um casamento arranjado por seu pai. Foi nesse país - que ela afirma adorar e diz ter sido o lugar em que mais foi feliz, que ela estudou, formou-se em Ciências Políticas e tornou-se membro do parlamento holandês.
A sua luta contra a opressão e a submissão feminina, assim como as críticas ferozes ao Islã, a levou a deputada em 2003 naquele país, antes de ser acusada de perder a sua residência holandesa e ver-se obrigada a ir viver nos Estados Unidos. Mas, antes disso, foi ameaçada de morte pelos fundamentalistas islâmicos e passou a ser acompanhada de guarda-costas depois de ter seu amigo, que dirigiu um filme sobre a sua vida, assassinado.
Ela costuma comparar os sistemas para mostrar os abusos e o fanatismo dos fundamentalistas islâmicos: “O nível de separação entre Igreja e estado é totalmente diferente. Para que isso também aconteça no Islã, depende apenas dos muçulmanos”. Em sua opinião, os grupos radicais do norte da África, ao colocarem a prática radical da religião acima de tudo, violam os direitos humanos.
As suas críticas, expressas no livro, alcançam também a benevolência dos países ocidentais com os imigrantes. Nesse sentido, destaca que é muito importante que a cultura de acolhida exija que as pessoas, além de aprenderem o idioma, aceitem os sistemas de valores. Em sua opinião, os países europeus que são muito “compreensivos” com as diferenças culturais e religiosas, acabam incentivando hábitos que prejudicam a mulher, que pode, por exemplo, morar na França ou na Inglaterra e continuar a usar a burca e a ser controlada por seus pais e maridos.
Com relação à violência de gênero, Ayaan destaca que não é só no Islã, mas em todos os âmbitos e sistemas. Ela destaca as diferenças entre europeus e orientais e, de forma aberta, elege como mais saudável a liberdade do ocidente.
O livro não traz nada de especial em se tratando de estilo; a linguagem é direta, quase jornalística, e a autora acaba sendo muito repetitiva em relação a alguns fatos e reflexões. Mas não se pode negar que é um relato corajoso e lúcido. A autora, que se denomina feminista, leva a luta feminina para além das relações homem e mulher e mostra como um sistema religioso misógino pode ser cruel.
Suas análise dos símbolos de sua cultura são instigantes porque ultrapassam oposições mínimas e se tornam complexas no contexto histórico: “A burca simboliza a tradição, é certo, mas seu significado é o do controle da sexualidade. Indica que a mulher que fique em casa, e revela o homem como incapaz de controlar seus instintos sexuais. Isso é o que inculcam os islâmicos radicais às pessoas.”
Hirsi Ali vive hoje nos Estados Unidos e criou uma Fundação em seu nome, através da qual defende os direitos das mulheres no ocidente diante do islamismo radical. Milita em várias frentes e afirma que “o multiculturalismo como se entende hoje é um fracasso”.

Nômade/ Cia das Letras/388p.

O “Xão” de palavras de Ondjaki

O jovem escritor angolano Ondjaki é um dos mais premiados de sua geração. A sua obra é mesclada: prosa e poesia seguem equilibrando-se na pena do escritor. Para além disso, vez por outra ele arrisca de fotógrafo, ator, cineasta.
Gosto de saber que entre todas as artes e linguagens, há a curiosidade exagerada pela palavra, seja a que dá forma às suas narrativas, seja a que suspende poesia do “xão”.
Ondjaki trocou cartas com o poeta Manoel de Barros. Entre eles, surpresas e palavras que caminham de uma pátria a outra, de uma alma a outra.
Em “Há prendisajens com o xão” a poesia das palavras tanto é oferecida em poemas como em textos curtos, narrativas condensadas, como a série das “estórias”. Nesses textos, dedicados a personagens da memória do escritor, há a interação da tradição oral com o lugar da palavra que tenta dar ao leitor, de certa forma, o lugar central, ainda que organizado pelas metáforas que revelam-escondem paradoxos, como o suspeito verso “um só olhar pode ser uma voz não dita”, do poema “Que sabes tu do Eco do silêncio?” dedicado a também poeta Paula Tavares.
Essa experiência tem estado presente na obra do escritor, que tem trazido ironias e desconstruções em grande parte de sua escrita, reclamando e refletindo o lugar político pós-colonial de sujeitos angolanos.
Ligando as partes do livro - “poemas” e “estórias”- uma invisível ponte erguida sobre o sentido das palavras. É nisso a maior beleza de muitos dos poemas, como “Penúltima vivência”: quero só/o silêncio da vela./o afogar-me/ na temperatura/ da cera./quero só/ o silêncio de volta:/infinituar-me/em poros que hajam/num chão de ser cera.
A linguagem também obedece seus princípios ali, nos poemas e nas “estórias”; as minúsculas e a pontuação experimental funcionam bem na dimensão visual e no ritmo das frases, dos versos.
Há também um compêndio colecionável: Na “Aterminação”, os convidados especiais aparecem brilhantemente: “Bichos convidados de A a Z, onde a ironia e as combinações tanto trazem o jogo especial da poesia, quanto a ludicidade também verificada em Manoel de Barros, ainda que com outros segredos. Uma das entradas que gosto é “grilo”: pastor de estrelas. embalador de noites. de tanto grilar seus sons, conhece cada curva de um silêncio. bichinho quase inencontrável de dia.
Tem também “Outros convidados ou descoisas de Z a A”, onde encontrei “quintal”: sítio onde cabe um grilo, um universo, um chão, uma algibeira de silêncios, uma estrela grilada ou todo um infinito inacabado.
O livro é assim: palavras, paisagem, homem, sentimento e coisas parecem ser feitas da mesma matéria: a poesia da própria palavra. Uma leitura que traz Manoel de Barros e as “descoisas” de outras paragens, talvez mais de Angola, mas também dos mares todos, e nem me surpreende que o meu inconsciente me traga o Saramago quando leio: “madeira”: sem ela não se fazem nascer jangadas.

O carro amarelo da infância

O livro “Três Infâncias”, de Mayrant Gallo, reúne três histórias sobre a infância, sobre o tempo e sobre as descobertas da vida em meio à aridez das dores, das perdas, das faltas.
Quando vi, na capa, a imagem de três balões, pensei no belo filme de Albert Lamorisse - um clássico sobre a infância- “O balão vermelho”.
No belo filme de Lamorisse, a paisagem parisiense pálida, do pós guerra, é invadida pelas cores dos balões que, como se fossem vivos, fazem a reclamação da infância, trazem o lirismo e a fantasia para a hostilidade da órfã infância européia.
Curiosamente, algo da crueldade que há naquele filme- por mais que seja lírico e belo- também pode ser visto nas histórias de Mayrant: há qualquer coisa de cruel em ser criança e ter de deixar de ser, mas há também maldades outras: um filho órfão de mãe vendo o seu pai ser humilhado ao cobrar de um engenheiro o dinheiro devido; a fome e a pobreza que fazem com que a bicicleta de um filho seja vendida para ter um pouco de comida; o vazio de uma cidade de risos infantis depois de um ataque aéreo; a terna despedida da infância que não vai voltar.
A novela “Moinhos”, que ganhou o prêmio Literatura para Todos, do MEC, em 2009, traz capítulos construídos engenhosamente; palavras pensadas e lapidadas para se chegar ao sentimento do narrador, o filho que um dia acompanhou seu pai pela vida, vendo-o sofrer a humilhação de ir cobrar o dinheiro que lhe é devido a um engenheiro que jamais paga a dívida.
Entre a penúria, os fiados no armazém, a entrada clandestina no trem, há a esperança curiosa de qualquer alívio com a presença da “loura”. É essa mulher, sensual, misteriosa, quiçá até doce, que trará de algum lugar do futuro a memória daquele filho que arrasta seu pai pela vida. E é ela também que dará a ilusão de que a desgraça se vai acabar. Mas ficará tudo ainda pior.
O conto é duro e terno. As frases permitem uma linha de ação contínua, que sai da memória e se torna presente no movimento desse narrador que recupera detalhes de si mesmo ao localizar seu pai: reduto de sua infância, prova absurda de sua própria dor. Não há filho sem pai. Há lapsos, quem sabe se do escritor, que intrigam, ou que fragilizam em certa medida, o precioso da história, como a frase “the day after”, que mais parece uma certa insistência do Mayrant Gallo do que do “autor-narrador” que viveu aquela história, um narrador longe disso e perto demais de “no entanto, fui com meu pai. Pela rua e pela vida, lentamente.”
Esses “Moinhos” emocionaram-me profundamente. Da mesma forma que me encantaram as “manchas” de “O ritual no Jardim” e o não poema-canção, o não conto do “romance” “Dias de Garoto”.
Em “O Ritual no Jardim” a meninice sai em burburinhos de histórias de quintal e de avô, no tempo da guerra, de meninas e de meninos que crescem e deixam em jardins as suas infâncias. São contos-capítulos curtos, pincelados de ludicidade, ternura e também segredos. As palavras e frases se movimentam secretamente naqueles espaços exíguos, naquelas manchas de tardes, e vão transformando em homens aqueles sonhos. O cenário de uma outra época não pareceria combinar com as narrativas curtas, contemporâneas, mas é nisso o segredo quase todo: escapolem das memórias de todas as infâncias do ontem ao hoje.
“Dias de Garoto” alcança-nos de outro tempo também, dá até uma certa raiva pensar que tudo nos diz respeito, que essas dores fazem do menino o homem que estraga a vida toda depois. Sonhos de infância.
As cidades, os cenários, são vários, são universais, São Paulo, Rio, um quintal ou um jardim, uma estação de trem de qualquer parte. E o quadrado vazio depois de uma explosão é a nossa história de intriga de gente muito grande: Guerras que ficaram sem sentido por aí.
Um livro com muito sobre esse tempo de brincadeiras e sobre os segredos das gentes crescidas. Belas histórias em narrativas densas.

Três Infâncias/Casarão do verbo/110p/R$24.

As palavras passarinhas

“Como as rochas, não gostava de máquinas, tinha horror das explosões. Encontrar atalhos preciosos no leito do rio não era motivo de alegrias passarinhas(...).” As palavras do conto “preciosidade” parece definir a premissa de Luciana Braga: seu devir poético, sua caneta deslizante desvia-se de explosões mecânicas ou programadas.
O seu primeiro livros de contos “Há cores e acordes” traz oito narrativas cujo eixo é a redescoberta. Prosa-poética que aposta na leveza e na inata força metamorfoseante da palavra, o conjunto da jovem autora, que já foi premiada com livros para crianças, traz a metáfora como a sua ferramenta principal para contar histórias.
Em sua forma particular de descortinar as suas personagens, o cotidiano se traduz em encontros subjetivos dos fatos com as palavras; são essas que parecem assumir o lugar das emoções, da surpresa, dos desencontros das personagens. Elas são algo vivo que roça suavemente o leitor, sem chocá-lo, sem explosões.
Em “Mudança”, um dos melhores contos do livro, a personagem nos leva para um lugar único, uma geografia outra, sendo a cidade um espaço de sentidos, guardador de passagens, sejam essas físicas ou vestígios de lembranças. Ali há encontros suaves com gatos e meninas, metáforas e segredos se misturando ao passado e ao presente de forma que todos os mistérios da morte sejam sutilmente entregues. A naturalidade desse fato vem da possibilidade de se ter na memória um cúmplice: a vida é caminho sem fim em sua beleza.
Maria e Osório compartilham suspeitas de amor em “Preciosidade”, com fugas dando-se, paralelamente, ao desejo de encontrarem-se na natureza antes de tudo, já que - como rio ou como terra- homem e mulher ali se traduzem. Amor, desejo, viuvez, maternidade: pactos de quem se deixa entregue ao sentimento.
Em “Fotografiló”, outro belo conto, Filomena sobrevive “fabricando pequenos milagres diários”. Sua existência pelos cantos da fria rodoviária, ou pelos sítios desertos e despudorados do abandono, emociona o leitor aproximando-o da vida crua de um não conto de fadas. E a poesia daquela prosa ajuda o desbravar desses lugares destinados aos solitários abandonados, faz-no ainda mais perto.
As tulipas amarelas do senhor Grendo ou a Rosa de algum revolucionário fazem parte do mesmo baú: são prendas escondidas na vida dos contos, descortinadas por poesia, beleza de arranjo que faz o leitor se ater a algo lá fundo; são qualquer sentimento estranho que guardávamos em repetidos cotidianos e diferentes desejos. Aquela recusa sempre ensaiada ou a entrega inusitada: a autora domina os segredos. “Butin de guerra”, “Dominique”, “À beira de amar”... seus contos são todos sopros de vida; de convite ao assentamento nesse tempo irrequieto e violento.
Luciana Lorens Braga fala de amor, de morte, de maternidade, velhice, memória, encontro, abandono, solidão. Para ela é tudo razão para a beleza do contar. A sua intimidade com as palavras é seu trunfo, embora se exceda nas imagens em alguns contos, sobrepondo-as desnecessariamente. Mas é com metáforas fortes, uma consciência de ritmo, de sonoridade, de “peso” que recombina as palavras todas, rearranjando-as de forma particular. Sua escrita é delicada e ao mesmo tempo forte. Seu tempo de histórias é qualquer um, ela não se preocupa com marcas, assume tranqüila um certo olhar: quer a sua escrita impregnada de alguma poesia à qual se relaciona.
Cachorros, gatos, meninas, ruas, rios, flores: Luciana não se limita. Ela se joga no vão lírico de sua prosa, deixa-se livre na aposta pela doçura, pela recusa à violência mesmo quando denuncia o feio que a vida guarda. As palavras são quase uma proposta de vida. Descobrir o cotidiano e reinventá-lo é fato; a escrita é o final do divã, o leito do rio, a última flor arrancada.
Há cores e acordes/Ofício das palavras. 159p.

A polêmica das adaptações literárias para os quadrinhos

O fenômeno é visível: uma infinidade de obras literárias foram adaptadas para os quadrinhos. As livrarias estão cheias de ofertas; os clássicos - da literatura brasileira à universal- chegam em velocidade impiedosa e igual “variação sobre o mesmo tema”, já que uma mesma obra pode ser vista em mais de uma adaptação, de diferentes editoras, como o “Memórias de um sargento de Milícias”, que deu origem a “Leonardinho: memórias do primeiro malandro brasileiro” e a outras versões com o título da obra original .
Livros que para alguns custariam trabalho para ler, pela sua extensão, linguagem ou pela sua complexidade, estão disponíveis em poucas páginas ilustradas. Mas é isso algo ruim? Bom? É válido? É didático? Depende da intenção. Com o fomento do governo Federal,visando estimular crianças e jovens em idade escolar a lerem, muitos projetos de adaptações literárias foram encaminhados a editoras e comprados pelo governo.
As editoras, percebendo o filão, avançaram e tudo quanto é clássico anda sendo quadrinizado. Não sendo advogada do diabo e ainda assumindo-me leitora orgulhosa de quadrinhos tanto quanto da literatura, posso dizer tranqüilamente que as obras literárias quadrinizadas não substituem as originais. E mais ainda: algumas não conseguem nem mesmo manter “o caráter” da obra inspiradora, como é o caso de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, da editora Desiderata, que apesar do excelente trabalho gráfico dos artistas, que produziram bem, com desenhos magníficos e diagramação boa, não consegue manter a estrutura do romance e muito menos a personalidade de Policarpo.
As elipses e transições parecem funcionar em termos de ação, mas o contexto e a linguagem, que faziam do protagonista uma das personagens mais hilariantes e ao mesmo tempo comoventemente trágicas da nossa literatura, não conseguem se manter na obra citada. É uma excelente obra de HQ, mas não uma boa adaptação do clássico de Lima Barreto. Os recortes enfatizam o aspecto caricatural de Policarpo Quaresma, mas só.
Outras obras fazem o contrário: personagens secundárias acabam mais interessantes e alguns protagonistas se mostram mais atraentes, como na obra “inspirada” no livro “Memórias de um sargento de Mílicias”, de Manuel Antonio de Almeida, “Leonardinho: memórias do primeiro malandro brasileiro”.
Esse caso é muito bom para mostrar que as dificuldades para se adaptar uma obra para HQ são imensas. Se a intenção é fazer equivalência e desejar que, por exemplo, o leitor não se sinta prejudicado se não ler o original, então é melhor que o texto seja o mais fiel possível, o que encontra barreiras em se tratando de outra linguagem.
Se a intenção é seduzir o leitor, através de outro meio, e levá-lo ao livro que inspirou o HQ, o melhor seria a criação livre, assumida e bem cuidada, que, se não se mantém fiel ao texto, pelo menos ao caráter desse sim.
Assim como as adaptações levadas ao cinema, essas que chegam aos quadrinhos sofrem dos mesmos perigos. As HQ são um gênero literário, com sua linguagem, sua estética, suas particularidades e, ao se transpôr para elas um clássico, há que se ter em mente o objetivo final. Os artistas dos quadrinhos ganham a oportunidade rara de mostrarem seus trabalhos, de serem publicados, de entrarem no mercado, mas ao fazê-lo sobre o trabalho literário pré-existente, muitas vezes acabam se perdendo, pois se o texto literário não for traduzido com qualidade, fica-se a sensação de que o artista não é bom.
Se as obras adaptadas forem trabalhadas como suporte ao livro original, nas escolas, o cuidado deve ser ainda maior. O professor tem de ser sensível para apontar as diferenças, perceber o lúdico e o especial dos quadrinhos tanto quanto da literatura, esteticamente falando. A HQ “Memórias póstumas de Brás Cubas”, da Desiderata, é uma dessas que tem sucesso raro: o texto é mantido com a maior fidelidade possível- guardando-se as devidas proporções, literalmente falando - e ainda assim os artistas criam com a linguagem dos quadrinhos, deixando claro que se trata de outro suporte. Apesar de ser um texto difícil, os autores não tentam facilitá-lo, mesmo que possa ser, em alguns trechos, chato para o leitor comum de HQ .
Se o leitor da adaptação é o leitor de HQ, ele buscará ali outras coisas, o traço, a dinâmica, a sutileza do detalhe, a ironia, o humor, a imagem que se complementa com o texto ou que nem necessita do texto. Mas o leitor de literatura que vai ao HQ buscar o caminho mais fácil para a obra deseja o mais possível saber do que se trata aquele livro tão falado e jamais lido. Assim, posso dizer que essas “traduções”, em sua grande maioria, não oferecem isso. São muitos os projetos que visam o lucro mais do que outra coisa, com algumas exceções, diga-se também.
O melhor é se entender o gênero HQ como tal, parar de se delirar achando que os jovens que não gostam de ler livros vão chegar à literatura através de uma obra adaptada aos quadrinhos. Uns poucos talvez sim, mas o melhor é ver a coisa tal qual é no nosso tempo: HQ é um gênero independente, como o cinema, possuindo bom e ruim material como há bom e ruim filme, bom e ruim romance. Se o jovem lê HQ, ele já é um leitor. Precisa ser estimulado para ser leitor de outros gêneros, chegando-se assim à literatura. Sou a favor dos livros, sempre, e como professora de literatura, luto por ela, mas as manifestações todas de nosso tempo são bem-vindas. O que precisa é se ter qualidade estética, textual, artística.
“Literatura” em quadrinhos me atrai pelos desenhos, mas eu continuo preferindo ler Machado de Assis e Lima Barreto, entre outros como Kafka, Marcel Proust, Dostoiévski, nos livros, no “meio” em que eles se fizeram grande, com o que eles deixaram em suas linguagens, suas propostas, suas metáforas, descrições, jogos, ironias, narradores: suas estéticas. Alguém por acaso iria lá querer ler Mafalda, Garfield, Homem Aranha, Cebolinha, O surfista Prateado , Sandman em páginas de um romance? Vamos ver os filmes, ler os quadrinhos e ler a literatura.
Coleção Grandes clássicos em Graphic Novel/ Memórias póstumas de Brás Cubas/por João Batista Melado & Wellington Srbek: Desiderata editora.86 pág. 48,00 .
Coleção Grandes clássicos em Graphic Novel/Triste Fim de Policarpo Quaresma/por Edgar Vasques & Flávio Braga: Desiderata editora.70 p/42,00.
“Leonardinho: memórias do primeiro malandro brasileiro”. Por Walter Pax e Vicente Castro. Editora Saraiva.72 p. 35,00.

Ditadura e amor: um livro para o pai

Ditadura e amor extremo pelo pai é um tema que não parece muito fácil de resolver sem que a violência embrenhe-se no texto. Mas é em meio a uma doçura cativante que uma história sobre pai – uma quase biografia, se melhor quisermos abordar o livro – desenrola-se em “A ausência que seremos”.
Desde Agamenon, o pai é quem faz a guerra; é aquele contra o caos, a autoridade contra a desobediência. E se não o próprio Deus, é o que se incumbe de negociar com deuses. O pai é a lei, e a pátria o seu território.
Um livro sobre um pai poderia supor um projeto intelectual complexo ou agarrado a um dos muitos caminhos simbólicos do tema. Mas é o contrário. É uma relato simples e poético em seu caminho direto ao cotidiano familiar, no qual se pode enxergar as armadilhas políticas e, ao mesmo tempo, testemunhar a imensa paixão de um filho por seu pai.
A literatura, a filosofia e a mitologia acolhem o pai como a força primeira. Pela carga ideológica em torno dessa figura, na densa e estreita relação com o papel autoritário dos patriarcas – leia-se ditadores– latino-americanos, qualquer versão contrária não só chama a atenção como também é bem-vinda.
Nesse sentido, “A ausência que seremos”, de Héctor Abad, é um livro ímpar, pela qualidade narrativa e, sobretudo, porque o protagonista da história é o Doutor Héctor Abad, um progenitor diferente, como nos diz o autor-narrador-filho: “Cristão na religião, marxista na economia e liberal na política”.
O médico Héctor Abad, colombiano, era de fato um convencido da necessidade de um compromisso social da medicina com a pobreza devastadora em países como a Colômbia. Durante toda a vida lutou por paz, tolerância e justiça. Extremamente sensível, trancava-se em seu estúdio para ouvir Bach e Beethoven na tentativa de curar sua dor e sua raiva.
Ele foi ameaçado várias vezes, mas não calou a boca nem se exilou, denunciando nas rádios e nos seus escritos os autores da violência que rasgou seu país até 25 de agosto de 1987, quando dois homens esvaziaram suas armas no seu corpo, na porta do Sindicato dos Professores de Medellín. Ele tinha 65 anos, usava terno e gravata, e em seu bolso foi encontrado um soneto de Borges, "Epitáfio", talvez um apócrifo, cujo primeiro verso diz: "Já somos a ausência que seremos..."
Por conta dessa vida intensa, inscrita na memória e na alma do autor do livro, foi necessário mais de duas décadas para que ele pudesse enfrentar a escrita dessa perda. "Eu arranco de dentro estas memórias como se fizesse um parto, como se um tumor fosse removido", diz Abad.
Não há dúvida de que o tempo não só o ajudou a amadurecer a escrita como também a encontrar o tom adequado em uma tradição literária onde prevalecem o pai autoritário, o tirano e o patriarca. Enquanto a figura do pai de Kafka se impõe sobre seu trabalho e sobre sua existência, o narrador colombiano, ao contrário, escreve: “Amava meu pai sobre todas as coisas... Amava meu pai com um amor animal. Gostava de seu suor, e também da lembrança de seu cheiro... Gostava de sua voz, de suas mãos, de sua roupa impecável e da meticulosa limpeza de seu corpo”.
Por isso talvez a estranheza do relato venha da surpresa: Pode esse pai amoroso existir? O pai que ri mais do que os seus filhos, que chora quando está triste, que canta tango e escreve poemas? Esse pai que nem é o que sustenta a família, numa divisão de papéis completamente atípico? o pai que não está ausente?
Como se fosse pouco, o Doutor Abad educa os seus filhos com abraços, carinhos frequentes; protege com amor a família, em meio a uma sociedade atravessada pela violência familiar, política, institucional e histórica.
"A idéia mais insuportável da minha infância era imaginar que meu pai pudesse morrer e por isso eu tinha decidido pular no rio Medellín se ele viesse a morrer."
É preciso imaginar o escritor, adulto, esperando até que um dia não deseje mais saltar para o rio Medellín para poder contar a vida desse homem amado e trazer das gavetas a cura da memória ferida. Talvez como Nietzsche, que queria escrever "para superar a realidade."
O resultado é a história de Héctor Abad e ao mesmo tempo carta, testemunho, documento e biografia: a saga da família do escritor iluminando a história de décadas na Colômbia, desde um lugar de amor e de justiça.
A vida é uma ferida absurda, diz o tango que Dr. Abad adorava cantar. Mas a vida não tem cura. Artaud disse-o melhor.