sábado, 23 de abril de 2011

Por um erro: A América de Vespúcio

Publicado no A tarde, caderno 2


Quando o historiador e cartógrafo britânico Felipe Fernández-Armesto, a propósito de investigar os lapsos da história de Américo Vespúcio, se propôs a responder à pergunta “quem foi aquele mago de palavras e até onde ele de fato foi?” acertava o caminho que o conduziria a uma bem sucedida biografia daquele que ficou famoso apenas por ser um arguto e brilhante “mentiroso sobre si mesmo”– que bem sabia o valor que possuíam as palavras para a posteridade.
Armesto escreveu um livro cativante; não apenas consegue documentar as informações ou destacar a improbabilidade delas, como se coloca na posição de leitor daquele tempo, considerando o contexto, mostrando com humor, elegância, e fina ironia, de que modo a história conseguiu ser “vítima” de um grande embuste.
Américo Vespúcio não nasceu de família nobre, mas com certo prestígio em Florença. O pai o pôs a se educar com um tio de formação renascentista. Daí a sua paixão pelas coisas do mundo, da ciência, curiosidade, encanto com as aventuras. Leitor de Cícero, Estrabão e Ptolomeu, Vespúcio levou consigo muito desses autores, seja em seu imaginário ou em seu desejo de equiparar-se em fama e feito.
O futuro navegador foi comerciante, agente bancário, administrador e, segundo fortes indícios, cafetão e trambiqueiro, antes de construir, com sua lábia e esperteza, a sua carreira de desbravador de mares e cartógrafo. A sua vida íntima é rodeada de mistérios, com possíveis relacionamentos obscuros e filhos ilegítimos, e a companheira “oficial” parece ter sido também pensada como oportunidade de ascensão.
Amigo de Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio “roubou” partes de seus relatos de viagens, na tentativa de convencer que havia navegado mais do que de fato navegou, mas também usou da amizade para aprender e trocar; aparentemente, tinha mesmo amizade, devoção e apreço pelo outro desbravador, o que não o impediu de lhe passar a perna.
A ambigüidade do caráter do homem que deu o nome a América não faz menor sua figura, mas incita mais curiosidade e espanto ante o complexo que foi aquele momento: a descoberta do novo continente, como já sabido, estava envolta em ambição econômica, delírio religioso, sede por conhecimento, desejo de fama.
As descrições das viagens de Américo, relatadas em cartas e publicações posteriores a suas viagens, são duvidosas; as que certamente foram escritas por ele apontam imprecisões, aumentos, empréstimos de outros navegadores e até da literatura medieval.
Pelo que revelam as pesquisas de Felipe, por mérito, o continente deveria ter o nome de Cristóvão Colombo, mas um erro de leitura de Martin Waldseemüller, um dos dois cartógrafos alemães que foram responsáveis pela certidão de batismo do novo continente, foi atribuída a Américo a homenagem.
A leitura que ele fez de um dos relatos no qual Américo exaltava a si mesmo, falava das distâncias, dos mapas (que ele mesmo ajudou a confeccionar) e descrevia povos ameríndios, paisagens, costumes, o levou a acreditar na grandeza de Américo sem a investigação e comparação com os documentos que mostravam claramente que Colombo foi quem de fato mais fez; Américo Vespúcio, apesar de dizer que navegou muitas vezes, provavelmente só tenha navegado duas.
Vespúcio tem seus méritos, já que cartografou, de fato, milhares de quilômetros ainda desconhecidos ao sul do Equador, observou os habitantes, lançou-se corajosamente pela aventura de encontrar o caminho para a Ásia. Mas a biografia documentada por Felipe mostra que o florentino era um talentoso “marqueteiro” de si mesmo, pintando-se muito maior do que era e dando-se muito mais feitos do que fez.
Não há novidades no que se refere a visão dos indígenas ou às disputas entre Portugal e Espanha; nem mesmo ao Tratado de Tordesilhas, comprovadamente influenciador das aventuras portuguesas e espanholas. O que há de interessante é a constatação de que a história é uma narrativa fictícia, moldada e construída para dar sentido ao rumo que se quer; o que não a faz pequena: toda uma ficção pode terminar por influenciar e determinar o futuro de um continente. É só ver com cuidado essa América daquele tal Américo.

Américo – o homem que deu seu nome ao continente/Cia das letras/trad. Luciano Vieira Machado/308p.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Os anões na fila do supermercado: espetáculos literários do cotidiano





Milena Britto – professora do Instituto de Letras da Ufba

Publicado no A tarde 07/01/2011
O livro “Os anões”, de Verônica Stigger, escritora gaúcha, crítica e professora de arte, é uma das obras mais marcantes da literatura brasileira recente. O que há naquele minúsculo livro está além de simples histórias.
Concordando com o escritor mexicano Mario Bellatin – um dos mais originais escritores da atualidade- que considera o livro contemporâneo uma experiência ademais de leitura, eu encontro, nas páginas dessa obra, os caminhos da experimentação sem limites da relação corpo-literatura-arte-tempo.
Não foi sem razão que o escritor citado sentiu-se entrando numa cápsula comprimida de tempo-espaço onde as histórias, como telescópios, levam-nos a nós mesmos. E acrescento: perversamente nos levam a encontrarmo-nos destituídos de pudores e adestramentos intelectuais.
“Os anões” é um objeto para se ter à altura dos olhos e das mãos; brinca com o “desejo inteiro” do homem pelo livro e seus mistérios. De capa preta, formato de bolso, com todas as páginas encartonadas em papel brilhoso, como se fossem capas, e cantos arredondados, realmente lembrando um livro infantil, traz três partes que orientam os caminhos-instalações de leitura: “Pré-Histórias”, “Histórias” e “Histórias da Arte”.
Mas as três partes não organizam os contos pela ordem de entrada, elas possuem contos aleatoriamente “jogados” no livro, ironicamente nos apunhalando com nossas etiquetas organizacionais e especulando outras possibilidades de compreensão da palavra, sem deixar de fazer a relação desse homem contemporâneo com os seus três “momentos” chaves.
Acontece que essas divisões pregam peças, vertem segredos gigantes em detalhes retorcidos e aparentemente sem valor, mas que, de fato, acabam fazendo um buraco enorme na intimidade do leitor. O conto que intitula o livro e que figura na classificação “História” é uma absurda aventura pelo encoberto sentimento de espanto-piedade-amor-ódio-recusa-fascínio por esses seres minúsculos que passeiam pela vida como se estivessem apenas provocando espanto nos “normais”.
Um casal de anões, que fura uma fila de supermercado, vai despertando todo tipo de sentimento nos clientes até o absurdo linchamento dos dois, com direito a crânio esmagado, sangue farto nas paredes azuis, vísceras espalhadas e coisas do tipo. Numa pegada “pulp fiction”, mas com essa composição literária refinada e com ritmo sinuoso, o conto provoca o leitor quase convulsivamente, como se estivéssemos diante de um espetáculo e não de um conto.
Essa relação com o espetáculo - da arte e da vida - está muito presente em outros contos, quando não no tema, numa associação com outras linguagens, como o cinema. Os contos “Curta metragem” e “Curta metragem II” são de alta verossimilhança cinematográfica, com a mesma particular “perversão estética” dos demais contos. Aí, a descrição dos ângulos da câmera e da preparação de cena de um casal que se joga de um apartamento, num suicídio nonsense como se parecem todos, vai ao limite de nos colocar tão próximos das personagens que acaba prendendo-nos lá, ao ponto de não sabermos mais se não mexemos o pescoço porque morremos, nos aleijamos na queda suicida ou esperamos a próxima ordem do diretor. O conto tem uma continuidade, mas é independente também, e resulta ainda mais absurdo e deflagrador de sentimentos.
Há especulação da “realidade-documento” como experiência ficcional, além de destrinchar os limites de autor-personagem, biografia-ficção, no conto “Imagem verdadeira”, o qual é o fac-símile da certidão da autora, onde se vê o erro do escrivão que a coloca como sendo do sexo masculino. É uma sutil e bem-feita desconstrução da categoria de gênero, oficializado e documentado para além das “verdades”.
O suicídio, o amor, a banalidade das emoções cotidianas, as aventuras, o tempo, a poesia, a arte estão nesse livro “anão”, a exemplo de títulos como “Des cannibales”, “Teste”, “Passo fundo”, “Tatuagem”, Teleférico”, “L’après-midi de V.S.”, “(João Cabral)”, “Caverna”, “Ceia” e outros, além dos que foram citados, numa reeducação estética da apreciação literária, colocando o próprio livro como de fato uma experiência, sendo essa tanto de vida como artística, numa indistinção de níveis entre realidade e ficção, pois o absurdo é aquilo mesmo que trazemos para além de anões ou cenas improváveis.
É esse manancial de sutilezas que colocam o leitor diante de grandes acontecimentos, ainda que sejam eles diminutos e aparentemente detalhes insignificantes, que transborda da obra atingindo os pontos sensíveis de quem se propõe a viver o que lê. Seguindo uma certa tendência que eu já havia observado em Carola Saavedra no seu “Paisagem com Dromedário”, Stigger não teme abordar a literatura como instalação, como espetáculo real, performance...
Um livro elaborado para ver, tocar, ‘assistir”, ler e deixar-se diante do menor de si mesmo, reconhecer-se mesquinho e sem valor; a grandiosidade ali está no espetáculo, sejamos nós os atores ou os espectadores. Os anões não passeiam numa pensão sob o som de saxofone, eles pulam das páginas da grande Lygia Fagundes Telles e de outros contos para a “realidade” outra, a de Verônica (ou a “nossa”), sendo esmagados por esse sádico estranhamento e nossa vil necessidade de emoção.

Os anões/Verônica Stigger/Cosacnaify/60p./$37,00

domingo, 2 de janeiro de 2011

O último suspiro de Luis Buñuel: poesia, imagem, memória



Publicado no caderno 2+ do Jornal A tarde em 01/01/2011


Alguém que tenha passado pela vida sem o cinema de Buñuel, seja “Um cão andaluz”, “Viridiana”, “A bela da tarde”, “Nazarín” ou “Os esquecidos”, entre tantos outros, talvez não possa conjugar do sentimento espantoso e agradável, como que ante relíquias, quando surgem escondidos os detalhes e referências às obras, suas feituras, seus segredos, deixados como presentes no livro “Luis Buñuel: meu último suspiro”, biografia/livro de memórias ditado por Luis ao amigo e também cineasta Jean-Claude Carrière.
O livro, belo, com muitas imagens em preto e branco, é organizado e editado com cuidado e apuro gráfico. Cada pequena parte, intitulada de acordo com a época, o lugar geográfico em que se encontrava ou o filme que fazia, abre-se com uma página negra – uma referência à tela e à película do cinema, que se contrasta com as letras brancas - e é precedida,logo em seu verso, por fotografias em branco e preto diagramadas de diferentes formas e posições, numa bela referência ao cinema e a sua linguagem.
As primeiras páginas são seqüências de fotos de Buñuel; algumas, páginas inteiras tomadas pela imagem, outras um quadrado no canto superior ou inferior da página, ou no centro, na lateral, e assim segue, movimentando com beleza e sofisticação visual o livro.
Em toda a obra, cada imagem vem com descrição de data, quem está na foto, onde foi tirada, etc. Há fotografias de Luis Buñuel desde criança, bem como de seus filmes, de sua família, mas também há raridades, como fotos da sua turma, conhecida como “a geração de 27”: Federico Garcia Lorca, Salvador Dalí, Alberti, o poeta Altolaguirre, Cernuda, Pedro Garfias, e alguns outros. Há também imagens de diretores, intelectuais, artistas, atrizes e atores que passaram por sua vida pessoal ou artística.
A biografia foi escrita com leveza literária comum aos textos de Carrière. Há delicadeza em suas narrativas, em primeira pessoa porque se tratava da “reprodução” das conversas tidas com Buñuel, sem deixar de imprimir emoções fortes a muitas das passagens. Algumas vezes, as páginas viram partes de um “romance picaresco”, ou a encenação de um ato. Foi organizado quase cronologicamente, mas mantendo os movimentos de memória das lembranças que se intercedem fora da ordem.
O próprio Luis alerta, em suas reflexões sobre memória, a absurda importância que a mesma adquire quando se começa a perdê-la: “precisamos começar a perder a memória, ainda que gradativamente, para nos darmos conta de que é essa memória que constitui nossa vida. Uma vida sem memória não seria vida”.
O diretor de cinema, que nasceu em Calanda e cresceu em Zaragoza, relata os períodos importantes da sua formação, recuperando as histórias de sua infância e estudos em colégios religiosos - o que não o impediriam de ser ateu – e suas travessuras de rapaz.
Desse mundo rústico, envolto em uma gravidade católica, de costumes e de segredos religiosos, vem muito do imaginário de seus filmes. A surpresa, o fascínio e o medo do sexo, envolto em mistérios santos e apelos carnais, o inspiraram, por exemplo, em algumas cenas do célebre “O cão andaluz”. Segundo ele, a associação involuntária que fazia do sexo com a morte trouxeram-no, naturalmente, a cena em que o homem, após beijar a mulher no filme, tem seu rosto transformado em cadáver.
Aliás, posteriormente, ele conta que esse filme a princípio nada tinha a ver com o projeto formal dos surrealistas. Nasce da simples vontade de colocar em imagens sonhos seus e de Dalí, sem nenhuma organização racional, lógica. Deixaram, sem censura, o fluxo de consciência organizar a ordem dos sonhos e trabalharam livres de projetos estéticos ou políticos. Naturalmente, pela proposta e resultado, depois de um primeiro fracasso e de ter sido rejeitado por Breton, virou um clássico representante dos surrealistas e conquistou fama e reconhecimento.
Eventualmente, como se conta no livro, ele e Dalí se separaram por incompatibilidade artística, religiosa e política, depois de dedicada amizade, mas nunca deixaram de admirar um ao outro, apesar de se notar o horror de Buñuel às tendências fascistas de Salvador Dalí. Detalhes das personalidades e das intimidades de Salvador Dalí, Lorca, Unamuno e outros são oferecidos em contextos interessantes e ricos.
A Guerra Civil Espanhola e o destino dos intelectuais e artistas espanhóis constituem passagens densas e historicamente relevantes. Tanto há conseqüências violentas na vida quanto na obra. É assim que Luis Buñuel, que jamais nutriu qualquer interesse pelo México ou pela América latina antes da Guerra, adota o México como seu país, torna-se cidadão mexicano, passando a fazer um cinema onde se percebem influências daquela cultura e de seu momento intelectual. Também há passagens emocionantes, como as circunstâncias da morte de Lorca, que foi levado ao “campo” para morrer, justamente ele que tinha horror ao sofrimento físico e medo à morte.
Sensível, denso, rico para a história do cinema, a biografia de Luis Buñuel é um manancial para a literatura, a história do cinema e da intelectualidade espanhola. Suas descrições do tempo, mostrando os avanços, as mudanças, a chegada do cinema, as condições políticas tão efervescentes nos períodos de sua juventude, ajudam não apenas a compreender a sua obra, conhecendo-se as fontes e as referências formadoras de seu imaginário poético-imagístico, como também a entender os contextos de produção e as trocas intelectuais que se mostraram importantes para toda a produção cinematográfica, literária, artística e intelectual daquela geração marcada pelas “vanguardas”.
O livro traz muito mais, são páginas-tesouros; o contar que une a visão do diretor espanhol e as palavras férteis e belas do francês Jean-Claude Carrière, ele também uma peça importante na história do cinema.
O livro revela, de forma simples, a vida intensa daqueles jovens que nos legaram essa produção ímpar. Dos segredos de Lorca aos de Dalí, passando pela sisudez de Unamuno e a personalidade fascinante de Chaplin, os escritos dessa biografia compõem, de outro jeito, Luis Buñuel, essencial para a nossa mirada ao cinema. Com memória, fantasia e ilusão, temos uma história montada, não menos verdadeira porque dependente da fragmentada lembrança, pois, afinal, segundo o próprio Buñuel: “Não sendo historiador, não recorri a nenhuma nota, a nenhum livro, e o retrato que proponho é, em todo caso, o meu, com minhas afirmações, hesitações, repetições e brancos, com minhas verdades e minhas mentiras; para resumir: minha memória.”

Luis Buñuel: meu último suspiro/Jean- Claude Carrière/ Trad. André Telles/ Cosac Naify/ 376 p./$R 59,00.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Literatura: um presente natalino cool






Publicado no jornal A tarde, caderno 2+, em 18/12/2010

Milena Britto – professora do Instituto de Letras da Ufba

No tempo das intensas trocas visuais e sonoras – muito bem-vindas também, à medida e com critério –, a palavra tem se tornado um objeto cada vez mais especial. O livro é um presente cool, da onda, do tempo, bem mais interessante do que a demodé agenda, o cartãozinho caro, a bugiganga que fica esquecida nas gavetas da casa ou os dez chaveiros para duas chaves.
O livro – universal, unissex, “unicolor” em sua condição primeira - é uma canastra com múltiplos sentimentos a serem descobertos: surpresa, dor, amor, saudade, poesia, ira, paixão, desconfiança, esperança. É o cinema mudo – e o falado – é a imagem reconfigurada, a música de ritmo alucinante, o homem reinventado.
Para não se dizer que livros são delírios solitários, eles são também “comunidades”, coletivam, compartilham, atuam, conjugam ideologias, suspeitas e saberes.
Os livros são as ditaduras e as guerras denunciadas sob ângulos e sotaques distintos dos oficiais; os sexos prazenteiros e os estéreis; as luzes de todas as cidades. O livro tinha mesmo de voltar a ser cool, passada a onda de previsões ardilosas sobre a sua extinção diante das tecnologias e do império do visual. Que nada: o livro é um fetiche do homem, vicia pelo cheiro, pelo tato, pela visão. O livro nos encantou e tem-nos aqui, diante dele como loucos, ávidos, tensos, nervosos, felizes.
Livro é presente certo. E para todos os bolsos e gostos há opção. Trago as minhas dicas, para começar, mas aconselho que ao invés de bater perna pelas mil lojas das dezenas de shoppings da cidade, o leitor se dirija a uma livraria, um sebo, uma loja virtual e se inspire com as possibilidades infinitas de se encontrar “o livro”.
“Clarice,” a biografia do Benjamin Moser, é um livro para todos; é útil para quem estuda literatura e leitura agradável para os que apenas gostam de ler; os leitores de Clarice farão suas leituras conforme queiram e as críticas são pertinentes também. É um livro bonito, desejável, informa, diverte, emociona.
“Meu último suspiro, biografia de Luis Buñuel” é para os que gostam do cinema e da palavra, livro bacana pelo conteúdo, pelas imagens, pela história indireta do cinema.É emocionante ler sobre a vida intensa do diretor espanhol e ver o brilho de sua arte, a sensibilidade humana, a astuta e afinada observação política do mundo.
Para os que se encantam com poesia, há livros ótimos, desde a poesia rebuscada e com elementos de erudição poética como “As horas de Katharina”, de Bruno Tolentino, passando por “Sob o céu de Samarcanda”, de Ruy Espinheira Filho, aos poetas mais jovens, urbanos ou “marginais” como Kátia Borges e o seu “Ticket Zen”, Karina Rabinovitz e o livro “quase” instalação poética “Livro do quase invisível”, a poesia do “movimento” de Zinho Trindade- o neto de Solano Trindade- com seu “Tarja preta”; a de Marcos Vinícius no livro “3 vestidos e seu corpo nu” – também recomendo o livo de contos do autor “Eros resoluto" - e a de Fabrício Corsaletti em “Esquimó”.”
Além de “2666”, obra muito festejada em 2010, “Estrela Distante” de Roberto Bolaño é um romance interessante, prende o leitor na história cruzada e curiosa de um “poeta”suspeito que esconde sua identidade e se revela um aviador do exército, e ainda mostra a violência e o jogo perverso da ditadura chilena. Assim também, com mistério e poesia, é “Essa mulher e outros contos”, de Rodolfo Walsh, autor argentino importante, jornalista, contista, romancista, conhecido também por ter ‘desaparecido’ depois de denunciar ao mundo os crimes cometidos pela ditadura de seu país.
O romance “Ribamar”, de José Castello, é uma ótima opção para os que se aventuram por romances difíceis e densos; o novíssimo de Agualusa “Milagrário Pessoal” é ótimo para conhecer a Literatura angolana e para deleitar-se com a linguagem rica, as referências culturais angolanas, brasileiras e portuguesas, o ritmo intenso; “A rainha do Cine Roma”, de Alejandro Reyes, é imperdível: as crianças de rua de nossa cidade vivendo uma história fascinante e bem contemporânea, de dor e esperança; uma obra impressionante pelo cruzamento de histórias fortes, pelo registro lingüístico da rica oralidade baiana, pela denúncia social e beleza da literatura.
“Notas mínimas” de Katherine Funke, livro de mini-contos bom, barato, despretensioso, contemporâneo e bem urbano, com imagens belas, ritmo certo, tamanho certo. “A segunda sombra”, de Carlos Barbosa, é outro excelente para todas as idades, dos jovens que se reconhecem pela escrita curta e rápida aos que veem a literatura como parte de um tempo, de uma época. É interessante os mini-contos de narrativa precisa, com linguagem dinâmica e ritmada; a poesia entremeando cada palavra.
Terminaria com a dica do livro de fotografias, “Frida Kahlo, suas fotos.” Quem não gostaria de tê-lo em sua estante, sua mesa da sala, seu escritório? Seja cool: dê livros de presente. Os preços dos livros citados aqui vão de quinze reais a cento e trinta. O livro é para todos.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cartas, fotografias e segredos: os misteriosos caminhos da memória




Publicado no jornal A tarde - caderno 2+ em 11/12/2010

Há dias em que não há mais nenhuma história dentro dele, quando ele tem a sensação de que não pode mais agüentar.

Em seu quarto romance, Siri Hustvedt, escritora americana descendente de imigrantes noruegueses, calcula com maestria as doses de pós-modernidade e modernidade a serem colocadas num romance.Desilusões de um americano é um livro denso e provocativo, aclamado pela crítica como um dos melhores da literatura norte-americana contemporânea. Um romance para ser encarado com a mente e o coração, que deixa o leitor intelectualmente exausto – no bom sentido.
A história sobre a experiência do imigrante e os fantasmas que assombram as famílias de uma geração para outra pareceria simples. Mas não é. O narrador, o psiquiatra Erik, vai, juntamente com a irmã Inga, incursionar-se por caminhos do passado para descobrir a parcela de verdade que, misteriosamente, ficou de fora de suas vidas, quando eles achavam que tudo conheciam de seu pai, de suas famílias, deles mesmos.
Vale dizer que esse não é um romance para se ler de forma passiva. A cada dose de mistério, o leitor é fisgado para um redemoinho de emoções, podendo acreditar que sua própria vida é parte daquelas lacunas todas, pois sua mente vai para lugares pantanosos e sentimentalmente perigosos. É um romance que conjuga autobiografia e ficção.
Erik Davidsen e sua irmã encontram uma carta inquietante de uma mulher desconhecida entre os papéis de seu pai morto. Eles passam a acreditar que o pai está envolvido em uma morte misteriosa. A partir dessa carta, Erik e Inga começam a descobrir os segredos da família Davidsen, no ano seguinte ao funeral de seu pai.
Os irmãos, após o luto, retornam de Minnesota para New York e continuam a perseguir o mistério por trás da carta. Enquanto Erik luta contra a vulnerabilidade emocional de seus pacientes psiquiátricos, e seu fascínio com os novos inquilinos em seu edifício ameaça esmagá-lo, Inga é confrontada por uma jornalista hostil que parece saber um segredo ligado ao seu falecido marido, um romancista famoso.
Como cada novo mistério se desdobra em outros e se liga com o presente, Erik começa a habitar a história do seu pai emocionalmente e a vislumbrar como a sua infância pobre, a Depressão e a guerra influenciam no relacionamento com seus filhos. Enquanto isso, Inga tem de enfrentar a realidade da vida dupla do marido.
A prosa de Siri Hustvedt revela as mágoas escondidas de uma família através de um mosaico de segredos e histórias que refletem a natureza fragmentada da própria identidade do indivíduo, chegando a esse lugar da literatura pós-moderna que, ao invés de propor lugares fixos, desmantela aquilo que supostamente é conhecido.
As descrições de Hustvedt, que também é mulher do escritor Paul Auster, tem uma elegância literária ímpar e revelam a experiência dos imigrantes e a paisagem de Minnesota a partir da herança e do olhar escandinavos, enquanto o seu relato da vida de um psicanalista de Brooklyn adquire o ritmo e a vastidão de possibilidades tipicamente novaiorquinos.
Siri Hustvedt mistura sem remorsos as paixões gritantes com a fé silenciosa em personagens densas intelectualmente, que entendem suas vidas tanto através da leitura de grande envergadura quanto de uma conversa animada. Ela prova ser uma escritora hábil, capaz de tecer idéias complexas em um enredo intrigante e cheio de ambiguidades.
Desilusões... é, mais do que um romance sobre os mistérios da mente e os segredos de família, um romance sobre pais e filhos; sobre barulho e surdez, cegueira e reconhecimento; sobre a dor de falar e a dor de manter o silêncio e sobre as ambiguidades da memória. Um romance para todos os que encaram a leitura como um caminho de descobertas sobre si e sobre a condição humana.


Desilusões de um americano/trad. Rubens Figueiredo/Cia das letras/ 368p./R$49

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Quarta é dia de Sarau Bem Black

Sarau Bem Black
Sankofa African Bar

Quarta feira - dia 08 de dezembro
19h:30min - concentração
20h - Poesia... Muita Poesia!

Com Nelson Maca, Iara Nascimento, Lázaro Erê, Luiza Gata
Lucinha Black Power, Robson Véio, Rone Dundum e Amigos

Dj Joe toca "RZO" (Rap)

Participação
MC Freeza (oquadro/ Ilhéus)

Microfone aberto aos poetas da plateia!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

“Vergonha”, de Salman Rushdie: um conto de fadas sombrio e violento


Publicado no jornal A tarde em 04/12/2010

“Vergonha, caro leitor, não é propriedade exclusiva do Oriente”.

O autor de “Versos Satânicos”, ameaçado de morte por suas supostas blasfêmias contra o islamismo, tem marcado o Ocidente - tanto quanto o Oriente - com sua escrita vinculada às questões delicadas do mundo muçulmano, dos encontros coloniais e pós-coloniais violentos e complexos.
Essa escrita não apenas em seu conteúdo é dissidente de um olhar ajustado e pacifista, mas, sobretudo em sua forma é uma construção rebuscada, fantástica, com uma porosidade que permite vislumbrar o ritmo fascinante do Oriente ao mesmo tempo em que revela diálogos com a tradição e escrita ocidentais.
Em “Vergonha”, Salman Rushdie constrói uma espécie de conto de fadas que, aos poucos, vai se transformando em um emaranhado barroco violento e perverso que denuncia a situação oprimida de uma nação. A “vergonha” é o tema da saga que traz a disputa de poder regida pelo encontro catártico e cruel de duas situações “morais”: a vergonha e a falta de vergonha.
As personagens são construídas e reveladas a partir de detalhes culturais do mundo oriental, localizadas num lugar intermediário entre as fantásticas narrativas e a realidade de quem vive sob um discurso perverso de poder.
O anti-herói Omar Khayyam é um médico obeso, sem vergonha alguma, fruto de uma origem misteriosa e quase surreal: filho de “três mães” -um ardil artifício de três irmãs orfãs para não se revelar qual delas foi o motivo da desonra - foi criado até os 12 anos numa espécie de castelo, isolado do convívio com qualquer outra criança e torna-se uma personagem ambígua e tensa.
Ao hipnotizar as mulheres para seduzi-las, vai protagonizar essa narrativa violenta e misteriosa. O seu encontro com a frágil Sufiya Zinobia, oposta em caráter - é a depositária do ressentimento desmedido dos pais e encarna a vergonha em estado puro - vai detonar uma luta violenta e fascinante, regida pelas tensões do mundo oriental oprimido pela tradição, pela religião, pelos governos totalitários e pelos bons costumes.
O romance é uma metáfora, uma cosmovisão do mundo paquistanês. O narrador se coloca como personagem e vai construindo uma cumplicidade com o leitor à medida que vai revelando, numa literatura rica e intrigante, como funcionam os mecanismos de poder em uma cultura marcada por valores “fundamentalistas”.
“Vergonha” tem uma escrita quase cortazariana, mas carregada de simbolismo oriental, barroco, com ritmo vertiginoso.
É um romance de digestão lenta, para refletir e sentir; separar um nível narrativo mais ou menos frenético da ira pelos sonhos partidos, pelo abuso, pelo crime, pelo machismo, pela violência e a tortura; sobretudo, da dor profunda pelas personagens que Rushdie traz, numa compaixão que o escritor - e o leitor junto a ele – sente ante suas criaturas: “Os débeis, os anônimos, os derrotados deixam poucas marcas: modelos de cultivo, lendas populares, cântaros quebrados, túmulos funerários, a lembrança descolorida da beleza de sua juventude.”

Vergonha/ Cia das Letras/Trad. José Rubens Siqueira/376 p $ 58,00