Milena Britto – professora do Instituto de Letras da Ufba
millenabritto@hotmail.com
Nilson Galvão e Mônica Menezes possuem em comum algumas coisas: são poetas, blogueiros e publicaram pela coleção Cartas baianas. Os estilos, entretanto, são distintos, possuindo em comum a certeza de usarem a poesia para dar conta de um mundo grande que os acolhe e do mundo outro que habitam de verdade.
De ambos, coincidentemente, eu conhecia uma que outra poesia por fuçar blogs vez em quando, sempre pensando em arranjar tempo para escever sobre escritores que começaram com o blog.
Ambos utilizam os respectivos blogs mais como suporte e lugar de interação com o público do que como “linguagem”, ainda que os dois, cada um em seu estilo, algumas vezes insiram “imagens” para ilustrar os seus posts na blogosfera. Na transposição para livro, o trabalho não remete, em sua estrutura - versos, linguagem ou ritmo - ao suporte virtual.
“Caixa Preta”, de Galvão, que recebeu menção honrosa do projeto arte e cultura do banco Capital, é um conjunto de poemas que se move, coerentemente, pelas inquietas relações homem-mundo-vida-existência-morte-amor. Pode-se ver algo, de algum modo, nietzschiano por ali, além de algumas diretas referências, como à poesia de Walt Whitman ou à música de Billie Holiday.
Os versos possuem um sujeito lírico que assume a voz de todos nós, refletindo esse lugar do homem que pensa, sente e se inquieta: “Sou o veículo dessa história/qualquer em meu coração/sem prumo.O destino se esqueceu/de mim”.
Os poemas possuem distintas formas, a maioria sendo espécies de narrativas, pontuados, versos sem rimas, com quebras de ritmo interessantes, como se o corpo fosse tão convidado a “sentir” os poemas quanto, em maior intensidade, o pensamento: “O mundo gira, o menino chora:/dói o menino, onde mesmo será/que ele sente essa falta, e se sente/essa falta quem sabe girar pra saber/que ela dói,que ela/ dói mas é breve,/tão breve quanto o mundo que chora.”
O lirismo dos poemas nos chega colado às palavras escolhidas. Poesia para pensar e sentir, profundamente, as coisas, e dar às coisas seu sentido perdido. É boa poesia - para pensar ou para sentir.
Em “estranhamentos”, que também recebeu menção honrosa do banco Capital, Mônica Menezes nos coloca diante de um eu-lírico romântico, sensível, que utiliza a memória como “lugar” de encontro, expondo o seu sentir e compartilhando suas surpresas, suas dores, tristezas, amores, e oferecendo sempre um certo espanto, ou “estranhamento”: “amado, jamais serei a tua Dora Diamant/simplesmente porque sou outra mulher/e tu és outro homem/não sei cantar na língua sagrada/e nunca sonhamos com Tel Aviv/ no entanto desejo,/como a moça judia,/acolher-te o derradeiro gesto/ e talvez o meu grito/também dissipe o eco/da última oração”.
Com tons de Clarice, Adélia Prado e até Leminski, Mônica vai brincando, ora concisa, ora farta, com a relação entre sentimento e poesia, deixando-nos um rastro forte de memória - quase nossa de tanto que é íntima: “Meu avô/é uma cadeira de balanço/vazia”.
E oferece ainda uma marca feminina aguda, explorando todos os espaços de ser um sujeito poético feminino; e farto vocabulário ligado à natureza, sem medo ou pudores: “amanheceu/e o meu amor transbordou/chovi chovi chovi/uma forte chuva de amor”.
Os poetas-blogueiros se revelam, em seus livros, sérios em suas buscas, experimentando menos e trabalhando mais no sentido, preocupados em deixar a sua poesia dividir sentimentos, dúvidas, certezas, angústias e espanto. Eu espero vê-los em muito mais páginas, esquinas e “posts” na Bahia (dot com).
Estranhamentos /Mônica Menezes/ P55
/48p e Caixa Preta/ Nilson Galvão/P55/48 p.
sábado, 23 de abril de 2011
Da janela se vê o Bósforo: a pintura com palavras de Pamuk
Publicado no A tarde
Milena Britto – Professora do Instituto de letras da Ufba
millenabritto@hotmail.com
“A literatura não permite a um escritor fazer de conta que salvou o mundo; no máximo, ela lhe dá a oportunidade de salvar um dia de cada vez.”
Quando terminei de ler “Outras cores – ensaios e um conto”, pus-me a pensar que tudo o que eu sei de escritores e escritura, leitores e leitura, é algo tão minúsculo que todos os anos de esforço pareceriam em vão. Contudo, ao invés de sentimento pesado, foi uma alegria constatar isso e saber que, para a vida toda, esperam-me descobertas que as palavras guardam e que só em um tempo próprio é que elas se farão matéria única.
Orham Pamuk, escritor turco que ganhou o Nobel em 2006, conseguiu compor uma obra imprescindível para aqueles que se dedicam à compreensão da força que a literatura tem para a vida. No livro, não há apenas uma escrita forte e bela. Muito menos é só o reflexo de um homem sensível, agudo e erudito. O livro confere os atributos anteriores adicionados à paixão de um homem pela escrita até o último grau; disposto a pegar todas as oportunidades para escrever com lucidez e com um poder de entrega tão grande que contagia o leitor.
Em seu livro, os escritos vão desde anotações sobre o cotidiano, entrevistas, contos, até ensaios e reflexões sobre política, análises literárias, escritos sobre cultura, guerras, disputas entre oriente e ocidente, terremoto, pobreza.Tudo sem deixar, em uma linha sequer, que desapareça o escritor e um leitor implícito, numa relação absolutamente sincera e assumida.
Em “Viver e preocupar-se”, o mote é a relação entre o autor e sua filha Rüya, descrita a partir de uma saída à praia, ou da contemplação do velocípede da menina no meio da madrugada abandonado em um solitário canto da casa. As palavras simples vão dando conta não apenas do profundo amor pela filha, mas de poder entender as pequenas coisas desta relação como uma forma nova de ver o mundo e de compreender-se nesse mundo. Orhan vai acrescentando a isso detalhes de vida externa, como nas duas crônicas excelentes sobre os terremotos perto de Istambul que fecham essa parte.
Nas duas crônicas, a dor por tanta desgraça é pontuada pelo olhar de Pamuk, que encontra as mínimas expressões da realidade que vão fortalecer a prosa que se estende pelos diálogos, críticas, dúvidas e emoções.
Orhan, em “Livros e leitura”, revela suas impressões e descobertas de leitor; comenta Victor Hugo, Dostoievski, Vargas Llosa, Arthur Miller, Thomas Bernhard, André Gide, Joyce,Virginia Woolf e uma série de escritores que passaram por seu caminho.
A condição de escritor localizado no mapa não faz da leitura de Pamuk um jogo contemplativo para nós, leitores ocidentais. Suas preocupações de homem interessado por sua sociedade, sua política e sua cultura, tão duras como deve ser para quem vive no meio do caminho, logram prender o leitor para além de conjecturas como “cultura hegemônica” versus “cultura marginal”. Ele confessa admirar o “orientalismo”, de Edward Said, mas suas observações desde aquele lugar acrescentam muitíssimo às análises.
Pamuk, que queria ser pintor quando criança, é um mestre do detalhe e em “Imagens e textos” ele revela toda essa capacidade, deixando-nos com análises magníficas, como quadros pintados com palavras, conforme sua própria definição de escrita. E repensa-se todo o tempo como escritor e como cidadão, basta ler o capítulo “Política, Europa e outros problemas de sermos quem somos” para ver.
Em “Meus livros são minha vida”, ele fala da chegada de Arthur Miller a Istambul; critica a política repressiva turca, revela-nos segredos de suas leituras, emociona enquanto chama para o diálogo entre culturas; e o belo é que, entre esses temas, descreve-nos sua mirada da cidade desde a janela de um táxi e, vez por outra, reacende-nos a imagem que ele mais gosta: a de ver o Bósforo no fim de tarde desde seu apartamento.
“Outras cidades, outras civilizações” encerra o volume e, posso dizer, com essa mistura rara entre o cotidiano e o mais intelectual dos temas que se vê em todo o livro, Orhan Pamuk logra comover-nos e tocar esse lugar da vida que tão esquivo e tão difícil de nomear é; isso que talvez seja apenas possível de juntar de forma mágica e viva na literatura. Como a desse escritor.
Outras cores –ensaios e um conto/Companhia das letras/trad. Berilo Vargas/477p./$R 57,00.
Milena Britto – Professora do Instituto de letras da Ufba
millenabritto@hotmail.com
“A literatura não permite a um escritor fazer de conta que salvou o mundo; no máximo, ela lhe dá a oportunidade de salvar um dia de cada vez.”
Quando terminei de ler “Outras cores – ensaios e um conto”, pus-me a pensar que tudo o que eu sei de escritores e escritura, leitores e leitura, é algo tão minúsculo que todos os anos de esforço pareceriam em vão. Contudo, ao invés de sentimento pesado, foi uma alegria constatar isso e saber que, para a vida toda, esperam-me descobertas que as palavras guardam e que só em um tempo próprio é que elas se farão matéria única.
Orham Pamuk, escritor turco que ganhou o Nobel em 2006, conseguiu compor uma obra imprescindível para aqueles que se dedicam à compreensão da força que a literatura tem para a vida. No livro, não há apenas uma escrita forte e bela. Muito menos é só o reflexo de um homem sensível, agudo e erudito. O livro confere os atributos anteriores adicionados à paixão de um homem pela escrita até o último grau; disposto a pegar todas as oportunidades para escrever com lucidez e com um poder de entrega tão grande que contagia o leitor.
Em seu livro, os escritos vão desde anotações sobre o cotidiano, entrevistas, contos, até ensaios e reflexões sobre política, análises literárias, escritos sobre cultura, guerras, disputas entre oriente e ocidente, terremoto, pobreza.Tudo sem deixar, em uma linha sequer, que desapareça o escritor e um leitor implícito, numa relação absolutamente sincera e assumida.
Em “Viver e preocupar-se”, o mote é a relação entre o autor e sua filha Rüya, descrita a partir de uma saída à praia, ou da contemplação do velocípede da menina no meio da madrugada abandonado em um solitário canto da casa. As palavras simples vão dando conta não apenas do profundo amor pela filha, mas de poder entender as pequenas coisas desta relação como uma forma nova de ver o mundo e de compreender-se nesse mundo. Orhan vai acrescentando a isso detalhes de vida externa, como nas duas crônicas excelentes sobre os terremotos perto de Istambul que fecham essa parte.
Nas duas crônicas, a dor por tanta desgraça é pontuada pelo olhar de Pamuk, que encontra as mínimas expressões da realidade que vão fortalecer a prosa que se estende pelos diálogos, críticas, dúvidas e emoções.
Orhan, em “Livros e leitura”, revela suas impressões e descobertas de leitor; comenta Victor Hugo, Dostoievski, Vargas Llosa, Arthur Miller, Thomas Bernhard, André Gide, Joyce,Virginia Woolf e uma série de escritores que passaram por seu caminho.
A condição de escritor localizado no mapa não faz da leitura de Pamuk um jogo contemplativo para nós, leitores ocidentais. Suas preocupações de homem interessado por sua sociedade, sua política e sua cultura, tão duras como deve ser para quem vive no meio do caminho, logram prender o leitor para além de conjecturas como “cultura hegemônica” versus “cultura marginal”. Ele confessa admirar o “orientalismo”, de Edward Said, mas suas observações desde aquele lugar acrescentam muitíssimo às análises.
Pamuk, que queria ser pintor quando criança, é um mestre do detalhe e em “Imagens e textos” ele revela toda essa capacidade, deixando-nos com análises magníficas, como quadros pintados com palavras, conforme sua própria definição de escrita. E repensa-se todo o tempo como escritor e como cidadão, basta ler o capítulo “Política, Europa e outros problemas de sermos quem somos” para ver.
Em “Meus livros são minha vida”, ele fala da chegada de Arthur Miller a Istambul; critica a política repressiva turca, revela-nos segredos de suas leituras, emociona enquanto chama para o diálogo entre culturas; e o belo é que, entre esses temas, descreve-nos sua mirada da cidade desde a janela de um táxi e, vez por outra, reacende-nos a imagem que ele mais gosta: a de ver o Bósforo no fim de tarde desde seu apartamento.
“Outras cidades, outras civilizações” encerra o volume e, posso dizer, com essa mistura rara entre o cotidiano e o mais intelectual dos temas que se vê em todo o livro, Orhan Pamuk logra comover-nos e tocar esse lugar da vida que tão esquivo e tão difícil de nomear é; isso que talvez seja apenas possível de juntar de forma mágica e viva na literatura. Como a desse escritor.
Outras cores –ensaios e um conto/Companhia das letras/trad. Berilo Vargas/477p./$R 57,00.
Ser ou não ser literatura: eis aqui a não questão
Publicado no A tarde
Fazer os jovens lerem pode não ser tarefa fácil; dizem que fazê-los ler, então, escritores antigos é missão quase impossível. Isso parece não ser verdade quando se vê o sucesso da escritora Paula Mastroberti na série “Reversões”, que tem a “Angústia de Fausto”, “Heroísmo de Quixote (premiado em segundo lugar com o Jabuti de 2006 na categoria Juvenil), “Retorno de Ulisses” e agora “Loucura de Hamlet”, que encerra a série.
O truque é velho: adaptar para os dias de hoje a história de “muitos ontens atrás”. Mas as ferramentas e a engenharia visual são novíssimas: encarar as páginas, a capa, o pé de página, as ilustrações como parte do “produto”; dar a ele ainda mais “concretude” com cenas de filmes, jogos e o que mais der cara, cor e textura ao texto literário. Mais diretamente dizendo, em alguns casos já não é o texto o que importa, mas todas essas midiáticas atrações. O que, no final, sobra de Shakespeare ali? Os jovens estariam lendo Shakespeare através de Paula Mastroberti? Deixemos disso agora. O que está em jogo é que um dos textos shakespeareanos mais estudados por filósofos, psicoanalistas, lingüistas, historiadores, retóricos, - “Hamlet” - vira um produto acessível aos que não costumam ler.
“Loucura de Hamlet” é um livro que mantém o argumento do texto de Shakespeare, mas as adaptações são para a situação atual imediata. O livro é trabalhado visualmente para encher de vontade os olhos habituados ao movimento, ao fragmento, ao império do visual. As colagens e desenhos compõem as personagens e os diálogos como se fossem uma obra híbrida, quadrinhos e livro.
Os textos são “montados” com recortes e simulação de diário e de arquivo de computador; tem notas de rodapé como parte do texto, explicando para o leitor as elipses mais “herméticas”, e “O retorno de Jedi” entra como filme, como jogo e como “personagem” da aventura. “Jedi” é o fantasma do Hamlet-Tomás, aquele que chega como seu pai pedindo vingança de sua morte.
Da “história” fica tanto que quase temos um certo incômodo e ímpeto de defender para o fantasma de William Shakespeare os direitos autorais do bem sucedido empreendimento. Alguns nomes são mantidos, Ofélia, Horácio, Polônio, Gertrudes, etc.
Dois irmãos gêmeos crescem numa favela; um se dedica aos estudos como tábua de salvação do ambiente violento, o outro se deixa seduzir pelo mundo do crime e vira um traficante poderoso. O irmão bandido, Antônio, casa com Gertrudes e tem um filho, Tomás.
A autora mantém personagens e outras são acrescentadas para dar maior veracidade à história - em primeira pessoa - narrada por uma personagem que nada tem a ver com a tragédia, sendo quase que assumidamente a figura do mediador.
Cláudio já não mora na favela quando seu irmão é assassinado. Casa-se com a cunhada e leva mãe e filho para um condomínio de classe média. Político “popular”, Cláudio conta com seu parceiro, Polônio, pai de Ofélia e Laertes, que é assassinado por engano no lugar de Cláudio.
Tomás, apaixonado por Ofélia, desiste dela ao vê-la envolver-se com drogas; finge-se de louco e planeja a morte do tio para vingar-se do pai, que julga ter sido assassinado por Cláudio, e mantém uma relação ambígua com a mãe, que parece cúmplice de Cláudio. Como na versão de Shakespeare, nunca fica claro o envolvimento do casal com o crime, embora se possa entrar no delírio do filho.
Ofélia se envolve com drogas e prostituição, suicida-se na piscina depois de matar o irmão a facadas quando se recupera de uma overdose. Tomás acaba se debatendo com a culpa, no limiar de sua loucura – fingida ou não. A disputa entre o amor e o ódio é chama inextinguível.
A tragédia toda é convincente nos dias atuais – já o cinema fez isso algumas vezes com vários dos textos de Shakespeare, de Romeu e Julieta a Otelo passando por Hamlet - e há os cruzamentos e confusão de estado mental de Tomás (evidenciado por interferência do “mediador”) mantido de forma inteligente.
Entretanto, sem nem perder tempo tentando dizer se o livro é literatura ou produto de consumo, uma coisa é certa: os jovens não estarão lendo Shakespeare – se bem que quem sabe o quanto de Mastroberti estariam lendo eles.
O fato é que Shakespeare é muito mais do que um argumento. Shakespeare é a linguagem, são as metáforas, são os ricos solilóquios das personagens, é estrutura dramática aristotélica; Shakespeare é Shakespeare por algo muito além de colagens e artifícios visuais, é sedução na junção magnífíca e sedutora de linguagem, ritmo, conteúdo, estilo; são mistérios escondidos dentro do texto. Os jovens vão ler – e vão gostar de como essa história é contada - mas, deixemos claro, nada disso vai suprimir a magistral aventura outra, a de ler e degustar um texto de Shakespeare com o sabor daquele.
É, portanto, carta fora do baralho entrar na discussão de ser ou não literatura; “ser ou não ser” está fora de questão. O que está ali é uma outra coisa. Esta, sem medo algum de dizer, fruto de nosso tempo e das nossas tecnologias. Cabe a cada um decidir como se satisfaz. Eu, certamente, prefiro dar a Shakespeare o que é de Shakespeare.
Paula Mastroberti/Rocco/136p./R$ 41, 50.
Fazer os jovens lerem pode não ser tarefa fácil; dizem que fazê-los ler, então, escritores antigos é missão quase impossível. Isso parece não ser verdade quando se vê o sucesso da escritora Paula Mastroberti na série “Reversões”, que tem a “Angústia de Fausto”, “Heroísmo de Quixote (premiado em segundo lugar com o Jabuti de 2006 na categoria Juvenil), “Retorno de Ulisses” e agora “Loucura de Hamlet”, que encerra a série.
O truque é velho: adaptar para os dias de hoje a história de “muitos ontens atrás”. Mas as ferramentas e a engenharia visual são novíssimas: encarar as páginas, a capa, o pé de página, as ilustrações como parte do “produto”; dar a ele ainda mais “concretude” com cenas de filmes, jogos e o que mais der cara, cor e textura ao texto literário. Mais diretamente dizendo, em alguns casos já não é o texto o que importa, mas todas essas midiáticas atrações. O que, no final, sobra de Shakespeare ali? Os jovens estariam lendo Shakespeare através de Paula Mastroberti? Deixemos disso agora. O que está em jogo é que um dos textos shakespeareanos mais estudados por filósofos, psicoanalistas, lingüistas, historiadores, retóricos, - “Hamlet” - vira um produto acessível aos que não costumam ler.
“Loucura de Hamlet” é um livro que mantém o argumento do texto de Shakespeare, mas as adaptações são para a situação atual imediata. O livro é trabalhado visualmente para encher de vontade os olhos habituados ao movimento, ao fragmento, ao império do visual. As colagens e desenhos compõem as personagens e os diálogos como se fossem uma obra híbrida, quadrinhos e livro.
Os textos são “montados” com recortes e simulação de diário e de arquivo de computador; tem notas de rodapé como parte do texto, explicando para o leitor as elipses mais “herméticas”, e “O retorno de Jedi” entra como filme, como jogo e como “personagem” da aventura. “Jedi” é o fantasma do Hamlet-Tomás, aquele que chega como seu pai pedindo vingança de sua morte.
Da “história” fica tanto que quase temos um certo incômodo e ímpeto de defender para o fantasma de William Shakespeare os direitos autorais do bem sucedido empreendimento. Alguns nomes são mantidos, Ofélia, Horácio, Polônio, Gertrudes, etc.
Dois irmãos gêmeos crescem numa favela; um se dedica aos estudos como tábua de salvação do ambiente violento, o outro se deixa seduzir pelo mundo do crime e vira um traficante poderoso. O irmão bandido, Antônio, casa com Gertrudes e tem um filho, Tomás.
A autora mantém personagens e outras são acrescentadas para dar maior veracidade à história - em primeira pessoa - narrada por uma personagem que nada tem a ver com a tragédia, sendo quase que assumidamente a figura do mediador.
Cláudio já não mora na favela quando seu irmão é assassinado. Casa-se com a cunhada e leva mãe e filho para um condomínio de classe média. Político “popular”, Cláudio conta com seu parceiro, Polônio, pai de Ofélia e Laertes, que é assassinado por engano no lugar de Cláudio.
Tomás, apaixonado por Ofélia, desiste dela ao vê-la envolver-se com drogas; finge-se de louco e planeja a morte do tio para vingar-se do pai, que julga ter sido assassinado por Cláudio, e mantém uma relação ambígua com a mãe, que parece cúmplice de Cláudio. Como na versão de Shakespeare, nunca fica claro o envolvimento do casal com o crime, embora se possa entrar no delírio do filho.
Ofélia se envolve com drogas e prostituição, suicida-se na piscina depois de matar o irmão a facadas quando se recupera de uma overdose. Tomás acaba se debatendo com a culpa, no limiar de sua loucura – fingida ou não. A disputa entre o amor e o ódio é chama inextinguível.
A tragédia toda é convincente nos dias atuais – já o cinema fez isso algumas vezes com vários dos textos de Shakespeare, de Romeu e Julieta a Otelo passando por Hamlet - e há os cruzamentos e confusão de estado mental de Tomás (evidenciado por interferência do “mediador”) mantido de forma inteligente.
Entretanto, sem nem perder tempo tentando dizer se o livro é literatura ou produto de consumo, uma coisa é certa: os jovens não estarão lendo Shakespeare – se bem que quem sabe o quanto de Mastroberti estariam lendo eles.
O fato é que Shakespeare é muito mais do que um argumento. Shakespeare é a linguagem, são as metáforas, são os ricos solilóquios das personagens, é estrutura dramática aristotélica; Shakespeare é Shakespeare por algo muito além de colagens e artifícios visuais, é sedução na junção magnífíca e sedutora de linguagem, ritmo, conteúdo, estilo; são mistérios escondidos dentro do texto. Os jovens vão ler – e vão gostar de como essa história é contada - mas, deixemos claro, nada disso vai suprimir a magistral aventura outra, a de ler e degustar um texto de Shakespeare com o sabor daquele.
É, portanto, carta fora do baralho entrar na discussão de ser ou não literatura; “ser ou não ser” está fora de questão. O que está ali é uma outra coisa. Esta, sem medo algum de dizer, fruto de nosso tempo e das nossas tecnologias. Cabe a cada um decidir como se satisfaz. Eu, certamente, prefiro dar a Shakespeare o que é de Shakespeare.
Paula Mastroberti/Rocco/136p./R$ 41, 50.
De amores e livros
Publicado no A tarde, caderno 2
O mais novo romance de Marcelo Backes, “Três traidores e uns outros”, vem acrescentar à literatura contemporânea matizes de um tempo cruzado.Como parece, a literatura, coletar as tendências, as idéias, a filosofia, os modos de viver de uma época, é possível traçar, na produção literária atual, caminhos que se repetem e se configuram como marcas dessa escrita: a literatura nacional vai se distendendo e se assomando a outras geografias, outras paisagens, outras vozes. É a geografia de muitos lugares dando conta da intimidade de sujeitos. Do sujeito brasileiro.
Assim como outros escritores dessa geração, o tradutor, crítico e romancista joga com os percursos globalizados da geografia, nesse momento capitalista de emoções perdidas. Dinamarca, Alemanha, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul são alguns dos lugares que vão surgir como parte da paisagem, que não apenas e não só no espaço físico se pode observar, mas também na língua, no passado reconstruído, nas histórias soltas e dispersas das viagens recolhidas, nos autores citados.
Passado e presente se vertem de força convergente no romance, que aborda o amor, o sentimento de perda e de espanto diante da dor das paixões – causadora de tragédias grandes -, enquanto se coloca a serviço de explorar com apuro a arte de narrar. Basicamente, é um romance que explora o amor como drama do sujeito contemporâneo - revelando-o, como dito na orelha, medieval nesse aspecto, ainda que inserido no tempo da velocidade e da tecnologia - e as formas de se narrar depois de uma história grande de tradição literária ocidental.
O narrador, um tradutor – como o autor, nessa “autoficção” de brinquedo e de verdade - vai experimentar narrar de dentro e de fora de situações, deixando que suas próprias vivências sentimentais orientem e se mesclem a outras, quando passa a ser o tradutor das sessões de psicoanálise de um empresário alemão ou quando se “envolve” na narração do drama de Toz, personagem que não escapa à armadilha de uma mãe freudianamente eficiente: tímido, sem conseguir namorar e ameaçado pela mãe de perdê-la para a morte caso viesse a se casar, Toz sucumbe ao caminho narrativo psicanalítico: enforca-se...
Às voltas com a sua própria história, o “tradutor-narrador” vai se reencontrar com Lática Mikalovic, antes sua namorada, agora autora famosa, e as reflexões sobre tradução, poesia, passado, sentimento vão sustentar uma certa solidão espantosa, tanto no caso do amor quanto na arte da escrita, aí bem pensada desde a arte de traduzir até a arte de criar.
O narrador-tradutor-mediador de histórias e personagem exigente vai levar o leitor em um passeio por tempos e lugares diferentes, trazendo línguas e paisagens de outras cenas; narrador perverso, cínico, acaba colocando o leitor exigente em roda de enjeitados; provoca e alimenta a curiosidade, mas exige muito para facilitar o percurso. É também a narrativa da volta à casa depois de longa viagem, o retorno às origens, ao passado, onde as lembranças viram matéria.
Há capítulos curtos e há “poemas”, há talvez traduções simuladas e há certeza de querer mostrar que a política mais certa, nas artes e na vida, não é a do nacional nem a do estilo: é a do amor. Sujeito contemporâneo, literatura contemporânea, presente e passado condizendo com o fato: a dor de um tal amor louco, do que se perde e do que não se teve, é o que sustenta qualquer literatura, em todas as artes, sem peso de língua ou de estilo.
Não fosse um certo “excesso” de discussão literária e sobre tradução – no romance a grande metáfora da vida e da arte -, seria mesmo um desses romances para ler e tentar formular melhor a idéia do que se tem na nossa literatura. Pensar a literatura digo. E é bem escrito, registre-se aqui, capaz de prender o leitor em reflexões da vida à arte a partir da palavra que dá corpo ao sentimento.
Três traidores e uns outros/Editora Record/176p/R$34,90.
O mais novo romance de Marcelo Backes, “Três traidores e uns outros”, vem acrescentar à literatura contemporânea matizes de um tempo cruzado.Como parece, a literatura, coletar as tendências, as idéias, a filosofia, os modos de viver de uma época, é possível traçar, na produção literária atual, caminhos que se repetem e se configuram como marcas dessa escrita: a literatura nacional vai se distendendo e se assomando a outras geografias, outras paisagens, outras vozes. É a geografia de muitos lugares dando conta da intimidade de sujeitos. Do sujeito brasileiro.
Assim como outros escritores dessa geração, o tradutor, crítico e romancista joga com os percursos globalizados da geografia, nesse momento capitalista de emoções perdidas. Dinamarca, Alemanha, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul são alguns dos lugares que vão surgir como parte da paisagem, que não apenas e não só no espaço físico se pode observar, mas também na língua, no passado reconstruído, nas histórias soltas e dispersas das viagens recolhidas, nos autores citados.
Passado e presente se vertem de força convergente no romance, que aborda o amor, o sentimento de perda e de espanto diante da dor das paixões – causadora de tragédias grandes -, enquanto se coloca a serviço de explorar com apuro a arte de narrar. Basicamente, é um romance que explora o amor como drama do sujeito contemporâneo - revelando-o, como dito na orelha, medieval nesse aspecto, ainda que inserido no tempo da velocidade e da tecnologia - e as formas de se narrar depois de uma história grande de tradição literária ocidental.
O narrador, um tradutor – como o autor, nessa “autoficção” de brinquedo e de verdade - vai experimentar narrar de dentro e de fora de situações, deixando que suas próprias vivências sentimentais orientem e se mesclem a outras, quando passa a ser o tradutor das sessões de psicoanálise de um empresário alemão ou quando se “envolve” na narração do drama de Toz, personagem que não escapa à armadilha de uma mãe freudianamente eficiente: tímido, sem conseguir namorar e ameaçado pela mãe de perdê-la para a morte caso viesse a se casar, Toz sucumbe ao caminho narrativo psicanalítico: enforca-se...
Às voltas com a sua própria história, o “tradutor-narrador” vai se reencontrar com Lática Mikalovic, antes sua namorada, agora autora famosa, e as reflexões sobre tradução, poesia, passado, sentimento vão sustentar uma certa solidão espantosa, tanto no caso do amor quanto na arte da escrita, aí bem pensada desde a arte de traduzir até a arte de criar.
O narrador-tradutor-mediador de histórias e personagem exigente vai levar o leitor em um passeio por tempos e lugares diferentes, trazendo línguas e paisagens de outras cenas; narrador perverso, cínico, acaba colocando o leitor exigente em roda de enjeitados; provoca e alimenta a curiosidade, mas exige muito para facilitar o percurso. É também a narrativa da volta à casa depois de longa viagem, o retorno às origens, ao passado, onde as lembranças viram matéria.
Há capítulos curtos e há “poemas”, há talvez traduções simuladas e há certeza de querer mostrar que a política mais certa, nas artes e na vida, não é a do nacional nem a do estilo: é a do amor. Sujeito contemporâneo, literatura contemporânea, presente e passado condizendo com o fato: a dor de um tal amor louco, do que se perde e do que não se teve, é o que sustenta qualquer literatura, em todas as artes, sem peso de língua ou de estilo.
Não fosse um certo “excesso” de discussão literária e sobre tradução – no romance a grande metáfora da vida e da arte -, seria mesmo um desses romances para ler e tentar formular melhor a idéia do que se tem na nossa literatura. Pensar a literatura digo. E é bem escrito, registre-se aqui, capaz de prender o leitor em reflexões da vida à arte a partir da palavra que dá corpo ao sentimento.
Três traidores e uns outros/Editora Record/176p/R$34,90.
Por um erro: A América de Vespúcio
Publicado no A tarde, caderno 2
Quando o historiador e cartógrafo britânico Felipe Fernández-Armesto, a propósito de investigar os lapsos da história de Américo Vespúcio, se propôs a responder à pergunta “quem foi aquele mago de palavras e até onde ele de fato foi?” acertava o caminho que o conduziria a uma bem sucedida biografia daquele que ficou famoso apenas por ser um arguto e brilhante “mentiroso sobre si mesmo”– que bem sabia o valor que possuíam as palavras para a posteridade.
Armesto escreveu um livro cativante; não apenas consegue documentar as informações ou destacar a improbabilidade delas, como se coloca na posição de leitor daquele tempo, considerando o contexto, mostrando com humor, elegância, e fina ironia, de que modo a história conseguiu ser “vítima” de um grande embuste.
Américo Vespúcio não nasceu de família nobre, mas com certo prestígio em Florença. O pai o pôs a se educar com um tio de formação renascentista. Daí a sua paixão pelas coisas do mundo, da ciência, curiosidade, encanto com as aventuras. Leitor de Cícero, Estrabão e Ptolomeu, Vespúcio levou consigo muito desses autores, seja em seu imaginário ou em seu desejo de equiparar-se em fama e feito.
O futuro navegador foi comerciante, agente bancário, administrador e, segundo fortes indícios, cafetão e trambiqueiro, antes de construir, com sua lábia e esperteza, a sua carreira de desbravador de mares e cartógrafo. A sua vida íntima é rodeada de mistérios, com possíveis relacionamentos obscuros e filhos ilegítimos, e a companheira “oficial” parece ter sido também pensada como oportunidade de ascensão.
Amigo de Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio “roubou” partes de seus relatos de viagens, na tentativa de convencer que havia navegado mais do que de fato navegou, mas também usou da amizade para aprender e trocar; aparentemente, tinha mesmo amizade, devoção e apreço pelo outro desbravador, o que não o impediu de lhe passar a perna.
A ambigüidade do caráter do homem que deu o nome a América não faz menor sua figura, mas incita mais curiosidade e espanto ante o complexo que foi aquele momento: a descoberta do novo continente, como já sabido, estava envolta em ambição econômica, delírio religioso, sede por conhecimento, desejo de fama.
As descrições das viagens de Américo, relatadas em cartas e publicações posteriores a suas viagens, são duvidosas; as que certamente foram escritas por ele apontam imprecisões, aumentos, empréstimos de outros navegadores e até da literatura medieval.
Pelo que revelam as pesquisas de Felipe, por mérito, o continente deveria ter o nome de Cristóvão Colombo, mas um erro de leitura de Martin Waldseemüller, um dos dois cartógrafos alemães que foram responsáveis pela certidão de batismo do novo continente, foi atribuída a Américo a homenagem.
A leitura que ele fez de um dos relatos no qual Américo exaltava a si mesmo, falava das distâncias, dos mapas (que ele mesmo ajudou a confeccionar) e descrevia povos ameríndios, paisagens, costumes, o levou a acreditar na grandeza de Américo sem a investigação e comparação com os documentos que mostravam claramente que Colombo foi quem de fato mais fez; Américo Vespúcio, apesar de dizer que navegou muitas vezes, provavelmente só tenha navegado duas.
Vespúcio tem seus méritos, já que cartografou, de fato, milhares de quilômetros ainda desconhecidos ao sul do Equador, observou os habitantes, lançou-se corajosamente pela aventura de encontrar o caminho para a Ásia. Mas a biografia documentada por Felipe mostra que o florentino era um talentoso “marqueteiro” de si mesmo, pintando-se muito maior do que era e dando-se muito mais feitos do que fez.
Não há novidades no que se refere a visão dos indígenas ou às disputas entre Portugal e Espanha; nem mesmo ao Tratado de Tordesilhas, comprovadamente influenciador das aventuras portuguesas e espanholas. O que há de interessante é a constatação de que a história é uma narrativa fictícia, moldada e construída para dar sentido ao rumo que se quer; o que não a faz pequena: toda uma ficção pode terminar por influenciar e determinar o futuro de um continente. É só ver com cuidado essa América daquele tal Américo.
Américo – o homem que deu seu nome ao continente/Cia das letras/trad. Luciano Vieira Machado/308p.
Quando o historiador e cartógrafo britânico Felipe Fernández-Armesto, a propósito de investigar os lapsos da história de Américo Vespúcio, se propôs a responder à pergunta “quem foi aquele mago de palavras e até onde ele de fato foi?” acertava o caminho que o conduziria a uma bem sucedida biografia daquele que ficou famoso apenas por ser um arguto e brilhante “mentiroso sobre si mesmo”– que bem sabia o valor que possuíam as palavras para a posteridade.
Armesto escreveu um livro cativante; não apenas consegue documentar as informações ou destacar a improbabilidade delas, como se coloca na posição de leitor daquele tempo, considerando o contexto, mostrando com humor, elegância, e fina ironia, de que modo a história conseguiu ser “vítima” de um grande embuste.
Américo Vespúcio não nasceu de família nobre, mas com certo prestígio em Florença. O pai o pôs a se educar com um tio de formação renascentista. Daí a sua paixão pelas coisas do mundo, da ciência, curiosidade, encanto com as aventuras. Leitor de Cícero, Estrabão e Ptolomeu, Vespúcio levou consigo muito desses autores, seja em seu imaginário ou em seu desejo de equiparar-se em fama e feito.
O futuro navegador foi comerciante, agente bancário, administrador e, segundo fortes indícios, cafetão e trambiqueiro, antes de construir, com sua lábia e esperteza, a sua carreira de desbravador de mares e cartógrafo. A sua vida íntima é rodeada de mistérios, com possíveis relacionamentos obscuros e filhos ilegítimos, e a companheira “oficial” parece ter sido também pensada como oportunidade de ascensão.
Amigo de Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio “roubou” partes de seus relatos de viagens, na tentativa de convencer que havia navegado mais do que de fato navegou, mas também usou da amizade para aprender e trocar; aparentemente, tinha mesmo amizade, devoção e apreço pelo outro desbravador, o que não o impediu de lhe passar a perna.
A ambigüidade do caráter do homem que deu o nome a América não faz menor sua figura, mas incita mais curiosidade e espanto ante o complexo que foi aquele momento: a descoberta do novo continente, como já sabido, estava envolta em ambição econômica, delírio religioso, sede por conhecimento, desejo de fama.
As descrições das viagens de Américo, relatadas em cartas e publicações posteriores a suas viagens, são duvidosas; as que certamente foram escritas por ele apontam imprecisões, aumentos, empréstimos de outros navegadores e até da literatura medieval.
Pelo que revelam as pesquisas de Felipe, por mérito, o continente deveria ter o nome de Cristóvão Colombo, mas um erro de leitura de Martin Waldseemüller, um dos dois cartógrafos alemães que foram responsáveis pela certidão de batismo do novo continente, foi atribuída a Américo a homenagem.
A leitura que ele fez de um dos relatos no qual Américo exaltava a si mesmo, falava das distâncias, dos mapas (que ele mesmo ajudou a confeccionar) e descrevia povos ameríndios, paisagens, costumes, o levou a acreditar na grandeza de Américo sem a investigação e comparação com os documentos que mostravam claramente que Colombo foi quem de fato mais fez; Américo Vespúcio, apesar de dizer que navegou muitas vezes, provavelmente só tenha navegado duas.
Vespúcio tem seus méritos, já que cartografou, de fato, milhares de quilômetros ainda desconhecidos ao sul do Equador, observou os habitantes, lançou-se corajosamente pela aventura de encontrar o caminho para a Ásia. Mas a biografia documentada por Felipe mostra que o florentino era um talentoso “marqueteiro” de si mesmo, pintando-se muito maior do que era e dando-se muito mais feitos do que fez.
Não há novidades no que se refere a visão dos indígenas ou às disputas entre Portugal e Espanha; nem mesmo ao Tratado de Tordesilhas, comprovadamente influenciador das aventuras portuguesas e espanholas. O que há de interessante é a constatação de que a história é uma narrativa fictícia, moldada e construída para dar sentido ao rumo que se quer; o que não a faz pequena: toda uma ficção pode terminar por influenciar e determinar o futuro de um continente. É só ver com cuidado essa América daquele tal Américo.
Américo – o homem que deu seu nome ao continente/Cia das letras/trad. Luciano Vieira Machado/308p.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Os anões na fila do supermercado: espetáculos literários do cotidiano



Milena Britto – professora do Instituto de Letras da Ufba
Publicado no A tarde 07/01/2011
O livro “Os anões”, de Verônica Stigger, escritora gaúcha, crítica e professora de arte, é uma das obras mais marcantes da literatura brasileira recente. O que há naquele minúsculo livro está além de simples histórias.
Concordando com o escritor mexicano Mario Bellatin – um dos mais originais escritores da atualidade- que considera o livro contemporâneo uma experiência ademais de leitura, eu encontro, nas páginas dessa obra, os caminhos da experimentação sem limites da relação corpo-literatura-arte-tempo.
Não foi sem razão que o escritor citado sentiu-se entrando numa cápsula comprimida de tempo-espaço onde as histórias, como telescópios, levam-nos a nós mesmos. E acrescento: perversamente nos levam a encontrarmo-nos destituídos de pudores e adestramentos intelectuais.
“Os anões” é um objeto para se ter à altura dos olhos e das mãos; brinca com o “desejo inteiro” do homem pelo livro e seus mistérios. De capa preta, formato de bolso, com todas as páginas encartonadas em papel brilhoso, como se fossem capas, e cantos arredondados, realmente lembrando um livro infantil, traz três partes que orientam os caminhos-instalações de leitura: “Pré-Histórias”, “Histórias” e “Histórias da Arte”.
Mas as três partes não organizam os contos pela ordem de entrada, elas possuem contos aleatoriamente “jogados” no livro, ironicamente nos apunhalando com nossas etiquetas organizacionais e especulando outras possibilidades de compreensão da palavra, sem deixar de fazer a relação desse homem contemporâneo com os seus três “momentos” chaves.
Acontece que essas divisões pregam peças, vertem segredos gigantes em detalhes retorcidos e aparentemente sem valor, mas que, de fato, acabam fazendo um buraco enorme na intimidade do leitor. O conto que intitula o livro e que figura na classificação “História” é uma absurda aventura pelo encoberto sentimento de espanto-piedade-amor-ódio-recusa-fascínio por esses seres minúsculos que passeiam pela vida como se estivessem apenas provocando espanto nos “normais”.
Um casal de anões, que fura uma fila de supermercado, vai despertando todo tipo de sentimento nos clientes até o absurdo linchamento dos dois, com direito a crânio esmagado, sangue farto nas paredes azuis, vísceras espalhadas e coisas do tipo. Numa pegada “pulp fiction”, mas com essa composição literária refinada e com ritmo sinuoso, o conto provoca o leitor quase convulsivamente, como se estivéssemos diante de um espetáculo e não de um conto.
Essa relação com o espetáculo - da arte e da vida - está muito presente em outros contos, quando não no tema, numa associação com outras linguagens, como o cinema. Os contos “Curta metragem” e “Curta metragem II” são de alta verossimilhança cinematográfica, com a mesma particular “perversão estética” dos demais contos. Aí, a descrição dos ângulos da câmera e da preparação de cena de um casal que se joga de um apartamento, num suicídio nonsense como se parecem todos, vai ao limite de nos colocar tão próximos das personagens que acaba prendendo-nos lá, ao ponto de não sabermos mais se não mexemos o pescoço porque morremos, nos aleijamos na queda suicida ou esperamos a próxima ordem do diretor. O conto tem uma continuidade, mas é independente também, e resulta ainda mais absurdo e deflagrador de sentimentos.
Há especulação da “realidade-documento” como experiência ficcional, além de destrinchar os limites de autor-personagem, biografia-ficção, no conto “Imagem verdadeira”, o qual é o fac-símile da certidão da autora, onde se vê o erro do escrivão que a coloca como sendo do sexo masculino. É uma sutil e bem-feita desconstrução da categoria de gênero, oficializado e documentado para além das “verdades”.
O suicídio, o amor, a banalidade das emoções cotidianas, as aventuras, o tempo, a poesia, a arte estão nesse livro “anão”, a exemplo de títulos como “Des cannibales”, “Teste”, “Passo fundo”, “Tatuagem”, Teleférico”, “L’après-midi de V.S.”, “(João Cabral)”, “Caverna”, “Ceia” e outros, além dos que foram citados, numa reeducação estética da apreciação literária, colocando o próprio livro como de fato uma experiência, sendo essa tanto de vida como artística, numa indistinção de níveis entre realidade e ficção, pois o absurdo é aquilo mesmo que trazemos para além de anões ou cenas improváveis.
É esse manancial de sutilezas que colocam o leitor diante de grandes acontecimentos, ainda que sejam eles diminutos e aparentemente detalhes insignificantes, que transborda da obra atingindo os pontos sensíveis de quem se propõe a viver o que lê. Seguindo uma certa tendência que eu já havia observado em Carola Saavedra no seu “Paisagem com Dromedário”, Stigger não teme abordar a literatura como instalação, como espetáculo real, performance...
Um livro elaborado para ver, tocar, ‘assistir”, ler e deixar-se diante do menor de si mesmo, reconhecer-se mesquinho e sem valor; a grandiosidade ali está no espetáculo, sejamos nós os atores ou os espectadores. Os anões não passeiam numa pensão sob o som de saxofone, eles pulam das páginas da grande Lygia Fagundes Telles e de outros contos para a “realidade” outra, a de Verônica (ou a “nossa”), sendo esmagados por esse sádico estranhamento e nossa vil necessidade de emoção.
Os anões/Verônica Stigger/Cosacnaify/60p./$37,00
domingo, 2 de janeiro de 2011
O último suspiro de Luis Buñuel: poesia, imagem, memória


Publicado no caderno 2+ do Jornal A tarde em 01/01/2011
Alguém que tenha passado pela vida sem o cinema de Buñuel, seja “Um cão andaluz”, “Viridiana”, “A bela da tarde”, “Nazarín” ou “Os esquecidos”, entre tantos outros, talvez não possa conjugar do sentimento espantoso e agradável, como que ante relíquias, quando surgem escondidos os detalhes e referências às obras, suas feituras, seus segredos, deixados como presentes no livro “Luis Buñuel: meu último suspiro”, biografia/livro de memórias ditado por Luis ao amigo e também cineasta Jean-Claude Carrière.
O livro, belo, com muitas imagens em preto e branco, é organizado e editado com cuidado e apuro gráfico. Cada pequena parte, intitulada de acordo com a época, o lugar geográfico em que se encontrava ou o filme que fazia, abre-se com uma página negra – uma referência à tela e à película do cinema, que se contrasta com as letras brancas - e é precedida,logo em seu verso, por fotografias em branco e preto diagramadas de diferentes formas e posições, numa bela referência ao cinema e a sua linguagem.
As primeiras páginas são seqüências de fotos de Buñuel; algumas, páginas inteiras tomadas pela imagem, outras um quadrado no canto superior ou inferior da página, ou no centro, na lateral, e assim segue, movimentando com beleza e sofisticação visual o livro.
Em toda a obra, cada imagem vem com descrição de data, quem está na foto, onde foi tirada, etc. Há fotografias de Luis Buñuel desde criança, bem como de seus filmes, de sua família, mas também há raridades, como fotos da sua turma, conhecida como “a geração de 27”: Federico Garcia Lorca, Salvador Dalí, Alberti, o poeta Altolaguirre, Cernuda, Pedro Garfias, e alguns outros. Há também imagens de diretores, intelectuais, artistas, atrizes e atores que passaram por sua vida pessoal ou artística.
A biografia foi escrita com leveza literária comum aos textos de Carrière. Há delicadeza em suas narrativas, em primeira pessoa porque se tratava da “reprodução” das conversas tidas com Buñuel, sem deixar de imprimir emoções fortes a muitas das passagens. Algumas vezes, as páginas viram partes de um “romance picaresco”, ou a encenação de um ato. Foi organizado quase cronologicamente, mas mantendo os movimentos de memória das lembranças que se intercedem fora da ordem.
O próprio Luis alerta, em suas reflexões sobre memória, a absurda importância que a mesma adquire quando se começa a perdê-la: “precisamos começar a perder a memória, ainda que gradativamente, para nos darmos conta de que é essa memória que constitui nossa vida. Uma vida sem memória não seria vida”.
O diretor de cinema, que nasceu em Calanda e cresceu em Zaragoza, relata os períodos importantes da sua formação, recuperando as histórias de sua infância e estudos em colégios religiosos - o que não o impediriam de ser ateu – e suas travessuras de rapaz.
Desse mundo rústico, envolto em uma gravidade católica, de costumes e de segredos religiosos, vem muito do imaginário de seus filmes. A surpresa, o fascínio e o medo do sexo, envolto em mistérios santos e apelos carnais, o inspiraram, por exemplo, em algumas cenas do célebre “O cão andaluz”. Segundo ele, a associação involuntária que fazia do sexo com a morte trouxeram-no, naturalmente, a cena em que o homem, após beijar a mulher no filme, tem seu rosto transformado em cadáver.
Aliás, posteriormente, ele conta que esse filme a princípio nada tinha a ver com o projeto formal dos surrealistas. Nasce da simples vontade de colocar em imagens sonhos seus e de Dalí, sem nenhuma organização racional, lógica. Deixaram, sem censura, o fluxo de consciência organizar a ordem dos sonhos e trabalharam livres de projetos estéticos ou políticos. Naturalmente, pela proposta e resultado, depois de um primeiro fracasso e de ter sido rejeitado por Breton, virou um clássico representante dos surrealistas e conquistou fama e reconhecimento.
Eventualmente, como se conta no livro, ele e Dalí se separaram por incompatibilidade artística, religiosa e política, depois de dedicada amizade, mas nunca deixaram de admirar um ao outro, apesar de se notar o horror de Buñuel às tendências fascistas de Salvador Dalí. Detalhes das personalidades e das intimidades de Salvador Dalí, Lorca, Unamuno e outros são oferecidos em contextos interessantes e ricos.
A Guerra Civil Espanhola e o destino dos intelectuais e artistas espanhóis constituem passagens densas e historicamente relevantes. Tanto há conseqüências violentas na vida quanto na obra. É assim que Luis Buñuel, que jamais nutriu qualquer interesse pelo México ou pela América latina antes da Guerra, adota o México como seu país, torna-se cidadão mexicano, passando a fazer um cinema onde se percebem influências daquela cultura e de seu momento intelectual. Também há passagens emocionantes, como as circunstâncias da morte de Lorca, que foi levado ao “campo” para morrer, justamente ele que tinha horror ao sofrimento físico e medo à morte.
Sensível, denso, rico para a história do cinema, a biografia de Luis Buñuel é um manancial para a literatura, a história do cinema e da intelectualidade espanhola. Suas descrições do tempo, mostrando os avanços, as mudanças, a chegada do cinema, as condições políticas tão efervescentes nos períodos de sua juventude, ajudam não apenas a compreender a sua obra, conhecendo-se as fontes e as referências formadoras de seu imaginário poético-imagístico, como também a entender os contextos de produção e as trocas intelectuais que se mostraram importantes para toda a produção cinematográfica, literária, artística e intelectual daquela geração marcada pelas “vanguardas”.
O livro traz muito mais, são páginas-tesouros; o contar que une a visão do diretor espanhol e as palavras férteis e belas do francês Jean-Claude Carrière, ele também uma peça importante na história do cinema.
O livro revela, de forma simples, a vida intensa daqueles jovens que nos legaram essa produção ímpar. Dos segredos de Lorca aos de Dalí, passando pela sisudez de Unamuno e a personalidade fascinante de Chaplin, os escritos dessa biografia compõem, de outro jeito, Luis Buñuel, essencial para a nossa mirada ao cinema. Com memória, fantasia e ilusão, temos uma história montada, não menos verdadeira porque dependente da fragmentada lembrança, pois, afinal, segundo o próprio Buñuel: “Não sendo historiador, não recorri a nenhuma nota, a nenhum livro, e o retrato que proponho é, em todo caso, o meu, com minhas afirmações, hesitações, repetições e brancos, com minhas verdades e minhas mentiras; para resumir: minha memória.”
Luis Buñuel: meu último suspiro/Jean- Claude Carrière/ Trad. André Telles/ Cosac Naify/ 376 p./$R 59,00.
Assinar:
Postagens (Atom)
