sábado, 30 de julho de 2011

Nosso grão mais fino


Sob finas palavras: incesto e solidão em paragens nordestinas
Milena Britto

Não há como se evitar, muitas
vezes, a necessidade de reconhecer
ecos de autores conhecidos
nas páginas de novos romances.
Para muitos – dos novos
escritores – uma falta grave
do crítico que sai impondo influências,
diálogos e toda a sorte
de encontros. O mais exato,
porém, é que há mesmo um
extasiar-se do crítico diante do
fato de sentir-se íntimo, cúmplice,
poderoso por tal reconhecimento,
conquanto este tenha
ainda aagudezdosurpreendente,
do inesperado, do único.
Ao ler Nosso Grão Mais Fino,
primeiro romance do pernambucano
José Luiz Passos, não
pude sequer disfarçar que, de
alguma forma, estava, juntamentecomonarrador,
voltando
à casa da infância. E não apenas
pelas sagas e tragédias de famílias
que para nós deixaram
José Lins do Rêgo, Graciliano
Ramos, GuimarãesRosa–faróis
da prosa regionalista brasileira
– ou pela densa e retorcida ficção
de Raduan Nassar e Osman
Lins. Não foi só, mas também
esse eco literário ali encontrado
que me fez mais surpreendida
com a força da narrativa.
Além da riqueza com a qual
explora a intimidade das famílias
feudais nordestinas–donas
de fazendas e de vis segredos –,
há a vastidão de sentimentos
que povoa corpos e mentes dos
que se acorrentam (ou se libertam)
nas vielas do incesto.
A construção da história de
Ana e Vicente, unidos e desunidos
por um amor mais extenso
do que a infância, dá-se
extraordinariamente em uma
confluência de vozes narrativas,
comalternância de Vicente, Ana
e Zelino – irmão de Vicente, que
talvez nem tenha existido além
da imaginação do irmão, mas
que nos faz testemunhar a disputa
pelo amor da mesma moça,
que termina arrebatada pelo
próprio tio, numa truncada trama
de incesto, desejo, solidão e
angústia.
Linguagem e estilo se colocam
em diálogo fértil, com metáforas
preciosas, vocabulário
rico, deixando que o erudito e o
criativo se encontrem bem. Um
escritor culto e engenhoso, que
tanto se abandona na prosa
poética quanto bem controla as
camadas de histórias; que deixa
Fedra,umacadelaquemorreao
receber um tiro, ser uma homenagem
ao mundo mitológico
tanto quanto à Baleia de Vidas
Secas. Que divide bem o
amor, o ódio e o medo dos “filhos
dos pais”.
Com Anquises e Diana, as caçadas
pela memória do pai ou
pela perdiz mais bela deixam o
leitor solto no ar, sem a segurança
de moral ou de regras. O
destino junta mesmo Ana e Vicente,
contudo os leva para outros
mundos, para além das terras
nordestinas. Mas eles voltam.
Seja nessa memória encravada
por lá, seja nesse delírio
que nos metemos com eles.
Muito bom ter o encontro do
contemporâneo e da tradição
que nos guarda.
Éprosafina, essa.Esobopeso
deumtempoquenemopesado
relógio de um sacerdote pode
calar. Estranha saga misturada
com ficção científica, ou quiçá
com um realismo fantástico renovado,
na qual um misterioso
suicídio durante uma viagem
num zepelim conduz o leitor a
um Nordeste tão universal, de
engenhos de açúcar, de caçadas,
de amor e de segredos.Um
vício particular nosso – da boa
prosa – na escrita de um nordestino
que fez do seu êxodo a
volta eterna para casa.
NOSSO GRÃO MAIS FINO / JOSÉ LUIZ
PASSOS
Alfaguara / 157 p. / R$ 38 /
objetiva.com.br/alfagu

segunda-feira, 6 de junho de 2011

De verbários, milagrários e desejos: a língua dos pássaros



Publicado no A tarde em 04/06/2011

O angolano José Eduardo Agualusa encarou o maior segredo de todos nós; os sonhos, os desejos, os perigos, os mistérios, as surpresas, as delícias, o terror, as guerras, as histórias, a memória, a beleza: a língua.
O seu novo romance “Milagrário Pessoal” assume a missão de decifrar os mistérios da língua portuguesa a partir de uma jovem lingüista, que investiga uma lista de novos neologismos publicados em artigos de jornal, e um professor, velho anarquista angolano “ligado ao absurdo”, com uma vida emaranhada em livros, guerras, poetas, segredos e lendas.
O romance passeia por mitos, pela história, por documentos antigos. Uma língua de pássaros aparece como chave para o mergulho na aventura que se espalha por Angola, Brasil e Portugal. O narrador é um erudito e bem humorado professor, personagem que parece representar politicamente uma espécie de guardião de segredos fundadores. Esse narrador, do passado, dos segredos de livros e bibliotecas, tem uma ligação especial com o presente através de Iara - nome nada casual da jovem que pesquisa palavras ainda não dicionarizadas.
Além de levar o nome da mulher-sereia, híbrida como um neologismo, Iara revela-se como a outra ponta de uma história quase impossível de tão enredada. Computadores, programas, I-pods, toda a sorte de tecnologia e aparatos modernos entram na história para erigir uma homenagem a esse bem maior que é a palavra. E parte desse propósito é construído pelos caminhos da própria origem do romance, que é a origem da palavra, que é quase a origem do homem: a magia e o encanto de uma palavra que transforma e dá sentido ao existir. O que tem de maravilhoso, contudo, é que essa alegoria é pensada através da língua portuguesa.
Documentos antigos contêm lendas e histórias, marcas de tempo e de transformação; essas contém e estão contidas em outros livros, que abarcam outras páginas e outras lendas, e assim, como uma caixa sem fim, essa língua que contém outras vai compondo uma rede de sentido e de segredos que une três continentes. Da oralidade à escrita, entre as guerras e os mitos, falando dos seres humanos e dos míticos, as páginas de “Milagrário” vão construindo a língua de Camões, de Caetano, de Luandino Vieira, de Cruz e Souza, de Ana Paula Tavares, de Manoel de Barros, de Guimarães Rosa e de muitos poetas que emprestam seus versos para uma língua seguir roçando em outras e nos revelando como parte de um segredo grande.
Poetas e escritores de Angola, do Brasil e de Portugal compõem o texto de Agualusa, numa bela e incrivelmente bem-feita coleção de palavras. O escritor se revela um mestre ao inventar neologismos para pensar sua língua, fazendo também parte da mágica aventura de nomear coisas e sentimentos. As citações de eventos históricos que seguram o segredo estão desde a Índia até o Brasil. Lendas se misturam à história; de amor e de magia, mas também histórias de poder e de guerra. De “segredanças”.
A linguagem é cheia de surpresas não só por neologismos; o narrador usa vocábulos que talvez não existam ou que existiram algum dia, mas também revela sob outra luz ou reinventa palavras. Essas oferecem-se ao sacrifício para dar vida aos nossos sonhos e a uma memória esquecida de quando tudo começou. Lendas africanas se juntam a lendas pernambucanas; línguas tantas são essas que somos muitos mitos.
O contar simples e rico de José Eduardo encanta, deixa a ternura e as suspeitas irem longe; seduz como uma flor de raro perfume, talvez a flor do Lácio. Os mistérios são das línguas e dos povos, as histórias da colonização e das independências descortinam o poder desde o alto de uma palavra. A vida não parou, o mistério está ali para deixar-nos diante da esfinge, a nossa língua; esse enigma misterioso é nosso segredo, é nosso amor. Segredo que escapuliu da língua dos pássaros.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Brasil com Lima Barreto: Brunzundangas, Tangolomango e resistência

Publicado no A tarde, 28/05/2011

Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos, Isaías Caminha... as personagens de Lima Barreto vão surgindo como parentes que chegam a visitar. É daí, quiçá, o sentimento de encontro feliz que se tem ao ler o livro “Lima Barreto”, de Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, poeta, escritor, um dos fundadores dos “Cadernos Negros” e do “Quilombhoje Literatura”.
Esse encontro feliz é porque Cuti, ao invés de simplesmente comentar as obras de Lima Barreto, deixa a um outro Lima a porta aberta para entrar em casa. Se o Brasil racista de outrora ignorou essa literatura rica e única, o Brasil (ainda) racista de agora a tem tratado ainda com meias-verdades. A sua obra, claramente fundamental no entendimento de um período e de um pensamento geral sobre o que seria uma nação e os conflitos ali existentes, é precursora de valores do nosso Modernismo. É isso, mas muito mais.
O livro de Cuti, modesto, pequenino, sem artifícios intelectuais, traz, justamente, as obras desse escritor a partir de seu lugar de autor negro, que sofria e que também pensava o racismo. Os fatos da vida de Lima Barreto acompanham, entremeados com observações sensíveis e críticas de Cuti, o surgimento de sua obra literária.
A constatação de Cuti é a de que Lima Barreto esteve sempre pensando e sempre atento às artimanhas e movimentos do racismo – e recuperemos da história que o racismo ali era ainda aquele configurado em projeto: de silêncio absoluto, de combate histórico, físico, social, ideológico.
O escritor que nos deixou o inesquecível e fascinante anti-herói Policarpo Quaresma, quixotesco personagem que nos maravilhou com seus projetos para a nação, concebeu uma estética própria, relutou em ser cooptado por modismos ou desaparecer ante frentes de combates desassossegados; ele foi ardiloso, sutil, irônico, mas direto: escrevia e comentava, desarmava o circo racista; evidenciava as fragilidades dos discursos, as posturas centradas na hipocrisia do pensamento ; deixava em falas de suas personagens as precisas palavras para dar àquele Brasil uma resposta, ou uma corajosa recusa a aceitar calado suas graves e hipócritas construções.
Pária? Fraco? Débil? Louco? Não. Lima Barreto era sensível, sim, mas era também forte, consciente, consistente e sabedor de seu talento com a palavra. Ele desejava ser escritor de sucesso; sabia que o pensamento e as letras eram o seu caminho e, mesmo com todas as dificuldades- não poucas sendo ele neto de escravos, pobre e preto- não cansou de buscar esse lugar. As obras foram surgindo de suas experiências, suas observações enquanto negro naquela sociedade; pensou sobre a arte, sobre a vida, sobre a sociedade de seu tempo com igual rigor. Suas crônicas, contos e romances são discutidos por Cuti com uma junção de caminhos, vamos acompanhando o contexto e entendendo a obra a partir desse lugar de sujeito, de cidadão, de filho da pátria.
Desde que “convivi” com Lima Barreto, há mais de uma década, em uma sala do Instituto de Letras, com a professora Florentina Souza, que ele tem ficado por ali. E foi daquelas aulas que saíram as desconfianças; entender esse Brasil, essa literatura não é fácil. Anos depois, reencontro Lima Barreto nesse livro de Cuti. A Literatura Brasileira tem Lima Barreto, a literatura brasileira tem negros.
O livro de Cuti traz uma leitura diferente de Lima Barreto. E a sua feitura, além de seu conteúdo, traz um certo Brasil às páginas: o Brasil de hoje, que se repensa, que quer se pluralizar. E ele próprio revela e assume a sua estratégia de escrita: “escrevi esse livro para o leitor negro”.
Que esse leitor negro seja entendido como parte da outra história: Lima Barreto conseguiu, enfim, ser o escritor que desejava, hoje, negros são leitores e temos outra história. E, assim como aquele moço do Sarau Bem Black, eu também queria abraçar o Lima Barreto. E o Cuti.
Lima Barreto/ Selo Negro/col. Retratos do Brasil Negro/127p/20,00

A diversidade sexual no Brasil contemporâneo

Publicado no A tarde 21/05/2011


O livro “Retratos do Brasil Homossexual: fronteiras, subjetividades e desejos” apresenta um retrato do Brasil com relação à homossexualidade. Os 98 artigos que compõem o livro noticiam da lei às artes e trazem o gay, a lésbica, o trans e o travesti como sujeitos de uma outra história do Brasil.
A comparação que o organizador Horácio Costa faz com outro livro famoso, “Retratos do Brasil”, de Paulo Prado, é pertinente. Aquele livro trouxe a cena da história brasileira moderna à discussão e ainda hoje, oito década depois, o clássico serve para interpretar e entender o Brasil; esse outro “Retratos” desloca o assunto para um lugar de observação contemporâneo. E é daqui que se prepara o ângulo para que esse “retrato” desnude aquilo velado ou invisibilizado por tantos mecanismos.
Depois de passar esses últimos tempos discutindo a união civil entre os homossexuais, talvez o brasileiro ache-se avançadinho. Mas é melhor se debruçar sobre “as imagens” dessa cena para entender o quanto se tem ainda por fazer. Ao mesmo tempo, percebe-se que o Brasil caminhou bastante em direção a esse lugar que se quer desde a sua construção de nação: um país diverso.
Os textos detêm-se sobre os temas que já conhecemos – homofobia, desejo reprimido, discriminação, comportamentos gays - e outros ainda pouco discutidos – as cirurgias para mudança de sexo, a situação dos trans e dos intersexos, as leis que regulam práticas sobre o corpo.
Os trans, ainda pouco inseridos nas discussões, são tratados em alguns dos artigos, como o de Berenice Bento, autora do livro “A reinvenção do corpo”. No artigo presente no livro, ela aborda a identidade legal de gênero, destacando a problemática entre os travestis e os transexuais. Os conflitos entre situação “cromossomática” do corpo, genitália, identidade de gênero, performance e ajuste ao nome legal são imensos e as conseqüências são das mais subjetivas às trágicas física e socialmente.
Artigos sobre cultura e representações revelam que a homofobia costuma ser “plantada” até mesmo quando se pensa que há uma abertura e uma boa intenção por parte dos que apresentam gays em seus produtos. Leandro Colling discute isso em “A representação da homossexualidade na telenovela Duas caras”, onde analisa as personagens gays desmontando os estereótipos e demonstrando criticamente as artimanhas da heteronormatização. Do que adiante ter um gay na novela se esse gay não tem desejo, não beija, não casa? Acaso existe amor sem corpo?
No artigo “Corpo e fotografia em Erwin Olaf” Wilton Garcia analisa aspectos subjetivos da homocultura a partir da série fotográfica “Fashiom victms”, destacando a relação do corpo exposto e explorado como mercadoria e os desejos projetados por construções simbólicas prévias.
A literatura e o teatro são abordados em vários artigos que analisam as personagens e as construções estéticas que compõem as representações. Há desde textos sobre uma intencionalidade queer na obra até aqueles considerados principalmente por sua autoria, como dos de Trevisan ou Caio Fernando Abreu. Mas a maioria dessa literatura, como mostram vários textos ali, traz o homossexual como um suspeito: as personagens ambíguas, sem clareza de sexo, com algo oculto.
“Retratos do Brasil Homossexual” faz-nos pensar nos desafios identitários contemporâneos. No livro, o direito e a medicina fazem coro com a literatura, o teatro, o cinema para deixar exposto o tanto que esse Brasil moderninho precisa ainda caminhar. É necessário, verdadeiramente, abrir as cabeças, e as pesquisas ali, sérias e pertinentes, devem ajudar na compreensão intelectual e política desse tema caro. Que essa diversidade saia daquelas páginas e se espalhe por nossas vidas. Com fotos e flashes para dar novos “retratos”.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

http://www.ufba.br/noticias/milena-britto-apresenta-palesta-no-mam-bahia

Milena Britto apresenta palesta no MAM Bahia

Arte Contemporânea na Bienal é o tema
A professora Milena Britto, do Instituto de Letras da UFBA, estará no Museu de Arte Moderna (MAM BA) na quarta-feira, dia 11 de maio, às 15:00 ministrando conferência sobre Poética e Arte Contemporânea na Programação da XXIX Bienal de São Paulo - Obras selecionadas.
Mais informações no site do MAM: http://www.mam.ba.gov.br

sábado, 23 de abril de 2011

Quando esse olho vê: corpo, guerra, dor e erotismo no espetáculo “Fricção”





publicado em 22/04/2011
A tarde, caderno 2+
Milena Britto – Professora adjunta da Universidade Federal da Bahia

O espetáculo “Fricção”, concebido e performatizado pela coreógrafa e dançarina Isaura Tupiniquim, traz à discussão os corpos tensionados por forças trágicas e uma condição da platéia: o voyeurismo.
Com o corpo sendo a passagem de tudo, a técnica de Isaura está ali, aprimorada pela sua trajetória no balé e dança moderna, mas as experiências que deixam o corpo em “estados de” são o que tornam os seus movimentos efetivos, viscerais.
O aspecto conceitual - desenvolvido junto ao filósofo Washington Drummond- revela a profundidade da performer: as referências para esse corpo tensionado em camadas históricas estariam da filosofia à midia; com entradas marcadas pelo erotismo de Bataille, pelos registros de guerras, por uma certa plástica hitleriana, pelo dadaísmo da banda alemã Einstürzende Neubauten, o neosurrealismo de um filme como Eraserhead, de David Lynch e, no centro de tudo, a estética “tecnológica” das máquinas desse tempo de guerras.
Há beleza em seus movimentos de homem-máquina, em seu balé sutil, em seu arquear falsamente desengonçado, o seu gênero que se indefine e se subjetiva ao mesmo tempo. Há dor, solidão, angústia, surpresa, medo.
A iluminação é assinada pelo design de luz Márcio Nonato, artista que tem uma trajetória junto ao grupo pluriartístico Dimenti. Márcio acentua os sentimentos do corpo em foco captando detalhes e deixando-os suspensos, próximos à platéia; por outro lado, desde fora, o corpo em cena e os movimentos agigantam-se.
O voyuerismo selvagem vai sendo atacado e, ao mesmo tempo, recuperado como parte de um processo criativo. O dispositivo de espionar é parte de uma maquiavélica relação entre os sujeitos.
A perversão disso é o que definiria a condição “humana” ou “desumana” do corpo especulado. Especialmente aquele em meio a guerras; as de hoje, brutalmente bélicas ou invisíveis, e, mais atrás, o que aconteceu nos campos de concentração, as marchas espetaculares de exércitos, a dança dos canhões, o balé dos soldados, o sexo desprezado e pervertido, as violações e profanações do corpo, o sangue – ou o leite - derramado em nome da paz: todas as guerras que estão em nossa memória coletiva, toda a versação institucionalizada da História da Moral.
O cenário é mínimo. O figurino tem força nas “próteses” desenhadas por Gaio Matos. O fetiche, o uniforme, a máquina são signos elaborados com pouco, num grande acerto do artista.
A ambientação sonora, operada pela Dj Lívia Losd, joga-nos nas geografias desérticas dos campos de guerras, das prisões, no silêncio espantoso de corpos que desaparecem e ressurgem. Agudamente administra os sentimentos da performer através de uma combinação de efeito musical que exaspera a platéia e conduz os movimentos ajustando-os aos sentidos.
Com a base na música conceitual da banda Einstürzende Neubauten, os efeitos criados são sempre únicos, aventando-se em cada espetáculo outra possibilidade de dizer o mesmo. Os vidros, os metais, as correntes que se arrastam, o eco de batidas secas ou desordenadas, a ópera, o silêncio... sob a música, corpo e mente são prisioneiros da experiência, não sem resistência. Estamos friccionando e friccionados e a Dj capta bem esse processo no palco e fora dele.
As transições de cenas são também de sentimento e de experiência. O corpo pode ser máquina, mas ele vai se descobrir humano e outra vez se converter em máquina. Camadas de processos históricos.
Isaura Tupiniquim traz para a arte contemporânea da terra diferença com profundidade. Arrisca bastante, aliás, o risco tem sido a sua marca nas performances assinadas por ela, que pesquisa o corpo em seus entraves contemporâneos, nessas tensões onipresentes em nosso tempo. Ela recusa-se à paz e à beleza contemplativa, exaspera-se, convulsiona-se em cena. Ela transita nos depósitos de restos de corpos modificados pela história dos conflitos, metáfora para aquilo que restou de nosso sonho de progresso.
Alguns poucos momentos saíram do eixo, em transições muito longas, uma marca do espetáculo. Algumas vezes, um movimento transicional tarda muito e se repete, retirando um pouco aquilo que seria parte da mesma história: a surpresa. Um corpo pode ser transformado também de maneira fulminante, como um braço que se vai com uma bomba ou um orgasmo que faz o rosto retorcer-se em segundos.Por outro lado, alguns momentos desses são a jóia da cena.
Irônica, a artista concede um momento de beleza plástica mergulhada em audácia: compõe com fragmentos de sentido, iluminação e forma, uma imagem viva, um quadro Batailliano - aliás, a “História do Olho” está presente numa referência plástica na cena final do leite. O espetáculo tem nos dois “finais” um ápice contraditório: enquanto uma imagem viva de seu corpo se ergue pelo sentido da grande ironia, um derrière virado à platéia nos largos segundos que a iluminação eterniza, o ato rege a liberdade daquele ser recém autônomo; e, para encerrar o triunfo de ter deixado o expectador preso até ali, de presente para a platéia uma prova de seu próprio veneno, imagens trágicas, fechando o ciclo daquele acordo: o voyeur que invade a privacidade, que consome as guerras, as cenas midiáticas das tragédias é o mesmo que espiona feliz e excitado o sexo do outro pela fechadura. Perversão na dor e no erotismo. Bom espetáculo!

Controle remoto e Cyberfuturo

Milena Britto – Professora do Instituto de Letras da Ufba

Há alguns anos, Lolita Pille chocava os leitores com seu romance “Hell – Paris 75016”, no qual expunha uma juventude parisiense fútil, existindo apenas para o sexo, as drogas e o consumo de marcas luxuosas. O livro virou filme e a autora, então muito jovem, ficou bastante conhecida internacionalmente. Recentemente, Lolita Pille deu uma virada de estilo e chegou com uma espécie de thriller que envereda pelo estilo cyberpunk, o romance “Cidade da penumbra”.
O que podia ser interessante no livro termina por fragilizá-lo: as muitas referências e retomadas de clássicos da literatura noir, cyberpunk e futurista terminam por dificultar o acompanhamento da história, a qual situa-se num tempo muito além do nosso já tecnológico “agora”.
Num futuro próximo, a “hiperdemocracia” Clear-World é o único poder. O céu escureceu, os gases poluentes não deixam passar a luz solar e os cidadãos são obrigados a viver da luz artificial projetada com recursos tecnológicos para imitar as mudanças do dia. Assim, dia e noite são convenções que - como diz uma personagem do romance - continuam atuando no cérebro humano: ainda que a noite não exista, é naquele artificial momento que os sórdidos desejos e ações saem à tona.
Há situações críticas num mundo onde a realidade artificial é levada ao extremo: juventude e beleza não são direitos, são deveres e caso alguém recuse a regra é “deportado” para áreas fora da cidade. Ali juntam-se os párias, os feios, os ineptos.
O suicídio é proibido e “monitorado” por aparatos tecnológicos, como um “Rastreador”, gerenciado pelo órgão “Preventiva Suicídio”, uma espécie de polícia secreta. É nesse serviço que trabalha Syd Paradine, um policial alcoólatra e taciturno, que percebe todo o jogo e que vive amargurado por sentir-se impotente naquela realidade aparentemente perfeita.
É essa personagem que vai começar uma investigação para evidenciar o que está por trás do suicídio do obeso Parker. Aliás, as primeiras páginas, narradas pelo obeso suicida, são as melhores do livro. Escritas com apuro literário e uma cáustica e crua sinceridade, fazem o leitor navegar numa espécie de limbo à espera da salvação.
É impossível não se debruçar sobre as muitas referências que Lolita usa para construir “Cidade da Penumbra”: o céu negro é uma reminiscência aos irmãos Wachowski e a Alex Proyas (há ali Matrix, Dark City); a felicidade obrigatória está no RPG Paranóia; os párias que ficam fora da cidade vão lembrar “Fuga de Nova York” de John Carpenter. Há ainda referências a clássicos da ficção científica como Adous Huxley, William Gibson (fundador do Ciberpunk) e outros.
É impossível não ter o de javu. A autora recupera bem as imagens; a descrição é bem detalhada do mundo onde o “banco dos mortos” é pior do que a realidade, as drogas são legais e anestésicos para a guerra e as crianças menores de 12 anos podem ser compradas e usadas como bibelôs decorativos ou brinquedos sexuais humanos. Nestas páginas é que a escrita de Pille é mais elaborada, atraindo o leitor, apesar do uso de um vocabulário trash desnecessariamente jogado aqui e ali que não funciona bem.
À medida que a história avança, contudo, fica visível que Lolita Pille não sabe para onde ir. O suicídio de Colin Parker se perde na história, não mais sendo retomadas as primeiras páginas do livro.
As personagens, em sua maioria, são sem consistência e florescem a cada página. Há superabundância e a escrita falha pelo acúmulo de metáforas grotescas que deixam o texto, no mínimo, confuso.
Apesar da tentativa e de momentos muito interessantes no romance, Pille não consegue fazer “Cidade da Penumbra” sustentar-se em sua própria estrutura. Ela, entretanto, consegue, e bem, plantar no leitor uma certa suspeita desse futuro que se aproxima.
Tradução Julio Bandeira/Intrínseca/304 páginas/R$29,90.