quarta-feira, 21 de julho de 2010

A canastra mágica de Cortázar




A obra de Julio Cortázar é, fascinantemente, capaz de dar contorno a uma extensa lista de possibilidades humanas relacionadas aos sentimentos, ao humor, às ações e ao cotidiano. Mas, passados mais de vinte anos de sua morte, os cortazarianos podem ser surpreendidos com muito mais. A publicação de um livro com a coleção de inéditos e dispersos (mais dispersos do que inéditos) vai deixar loucos de alegria os que, como eu, apreciam os escritos do autor de “O jogo da Amarelinha”. O livro é a confirmação de que Cortázar continua jogando, mesmo depois de sua morte, com seus leitores, com as casualidades e com a literatura.
Em 2006, como uma canastra mágica, foi aberta uma velha cômoda e, fantasticamente, de dentro dela saíram milhares de papéis em forma de crônicas, contos, artigos sobre arte, cinema, política e literatura, comentários sobre assuntos do cotidiano do autor, discursos, cartas e outros textos de gênero indefinido, tudo com o humor peculiar do autor. O resultado desse achado “maravilhoso” está no livro “Papéis inesperados” que acaba de sair no Brasil.
Muitos dos textos já publicados estavam perdidos e os inéditos estavam ali sem revisão, como se não houvessem mesmo sido preparados pelo autor para a publicação, o que nos coloca ante àquele velho problema ético: se o autor não quis publicar em vida, seria justo fazê-lo depois de sua morte? Aurora Bernádez, a viúva de Cortázar, resolveu que o conflito é nada diante da riqueza que esse material representa e de sua importância para os leitores e estudiosos do escritor argentino. Os leitores só têm se rejubilado com a surpresa, afinal, ler Cortázar “inédito” no século XXI é a maior das “trampas” narrativas da vida.
O livro é dividido em 12 partes: Prosas, Histórias, Histórias de Cronópios, Do Livro de Manuel, Momentos,Circunstâncias, Dos amigos, Outros territórios, Fundos de gavetas, Entrevistas diante do espelho e Poemas.
Os textos que estavam dispersos e que já haviam sido publicados têm, ao final, a data e o meio original de publicação, na maioria das vezes jornais e revistas; no caso dos verdadeiros inéditos, está incluído o ano aproximado em que foram escritos. Apesar de muitos textos haverem sido já publicados, não significa que os conheçamos. Alguns deles são praticamente inéditos no sentido de circulação.
“Papéis inesperados” é um imenso álbum de collage, formado por letras distanciadas entre si por décadas. Ali nos deparamos com um Cortázar de vinte anos no “Discurso do dia da Independência”, de 1938, o maduro em “Trânsito” de 1952, e outro muito mais literário, pouco antes de morrer, em “De trufas e topos”, de 1984. É interessante observar o caminhar do autor também por esses textos desconhecidos que dão-nos a sensação de estarmos construindo uma “epistemologia” do próprio Julio.
A divisão feita no livro pretende uma coerência de temas, apesar de ser isso difícil em se tratando de Cortázar, que pode começar um texto falando de Bergman e terminar falando de asma. Particularmente, tive muito prazer em ler seus contos inéditos como a longa narrativa “Os gatos”, que mergulha no universo adolescente para contar minuciosamente uma quase sórdida história de adultério, incesto, descobertas da puberdade e paixão, tudo soterrado em dois ambientes fechados: a casa da cidade e a casa da fazenda. Também o genial “Manuscrito achado perto de uma mão”, que revela toda a capacidade inventiva do autor, toda a sua sagacidade literária, numa impressionante armadilha temática e narrativa. É espantoso que essa preciosidade não haja sido publicada em nenhum de seus livros, só no jornal El País. Também apreciei as três histórias de Cronópios e as histórias de “um tal Lucas”, uma coleção desordenada muitíssimo interessante e recheada do humor de Cortázar.
Há ainda os textos onde se vê o autor politizado, preocupado com os regimes ditatoriais latinoamericanos. São muitos os textos em que Cortázar fala de Cuba, de Nicarágua, dos movimentos políticos e do papel do escritor nesses assuntos.
O demais é diversificado nos temas, estilo e época que os contextualizam e haveria que se falar de cada um. Resta dizer que em todos esses “Papéis” fica evidente a indiscutível assinatura de Julio Cortázar: os diálogos absurdos, o humor, os jogos, as brincadeiras, a beleza do cotidiano, as idéias simples revestidas de fantasia.
Com esses achados, conhecemos mais do escritor e do homem, seus gostos artísticos, suas recordações de viagens, sua relação com os amigos, suas observações de mundo, seu compromisso político tantas vezes reclamado pela falta. “Papéis inesperados” traz muito mais de um Cortázar cotidiano do que “fantástico”, mas é verdadeiramente uma oportunidade para acercar-se ao escritor que viveu e escreveu como um cronópio. É, ainda que não seja um livro puramente de ficção, uma espécie labiríntica de “Jogo da amarelinha”. Joguemos.
Papéis inesperados/Julio Cortázar/ organizado por Aurora Bernádez e Carles Garriga/Civilização brasileira/ 485p.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

De Macondo ao mundo: desvendando Gabriel Garcia Marquez



“O outono do Patriarca”, “Cem anos de solidão”, “O amor nos tempos de cólera”. Essas e outras obras foram lidas por todo o mundo e o autor, Gabriel Garcia Marques, expoente do realismo fantástico, é um dos mais conhecidos da Literatura latino-americana, assim como a sua “Macondo”. Agora, curiosamente, não é uma obra do escritor colombiano, ganhador do Nobel, que vem causando rebuliço e sim uma biografia não autorizada, mas, “tolerada” por ele.
O hispanista inglês Gerald Martin, Professor Emérito da Universidade de Pittsburg, é o autor da extensa biografia, resultado de uma pesquisa de quase 20 anos. As fontes entrevistadas, mais de trezentas, vai de ex-amantes até o próprio Gabriel, que chegou a dizer que não se daria ao trabalho de esclarecer nada.
Além de entrevistar o escritor e sua família, Gerald consultou muitas obras, documentos, cartas, artigos, conversou com estudiosos da obra do colombiano e mergulhou na biografia que o próprio Gabriel escreveu há alguns anos para contestar a veracidade das informações ali colocadas.
A biografia levanta outra vez a discussão do limite entre realidade e invenção, que, na literatura, o termo ficção parece ter mais razão de ser. As informações e fatos colhidos, de qualquer maneira, dependem da interpretação de quem escreve para fazer sentido. Está aí a resposta: essa biografia não seria mais ou menos verdadeira do que a de Garcia Marquez, embora, obviamente, o que a invalidaria seriam as distorções que pudessem haver.
Não parece ser o caso, embora haja ali um apelo de impor uma leitura frente aos buracos da vida do Gabo, aliás, do início ao fim do livro, é assim que Gabriel é tratado por Gerald: Gabo.
Apesar dos muitos dados, a leitura flui. As páginas mais complicadas são as que correspondem às origens familiares, uma saga emaranhada cujas raízes estão no povoado de Aracataca, e cujas origens Martin rastreou, basicamente, através de relatos orais dos descendentes. Ao mesmo tempo, o autor vai traçando a história de uma Colômbia diversa e complexa, e depois de “ o bogotazo”, violenta.
A infância de Gabriel, onde se mantém uma certa obscuridade, foi difícil. A mãe, que “abandonou” o filho - criado pelos avós maternos até os 7 anos - logra recuperar um espaço de aproximação na adolescência do primogênito, mas o pai é sempre um homem distante.
As mudanças constantes de ambientes, acompanhando o movimento da família e de Garcia Marquez, torna dinâmica a narrativa, que deixa entrever a fixação de certos mitos que foram parar nas obras de Gabriel, sobretudo, em “O outono do patriarca”, onde fatos de sua vida mais aparecem.
O jovem Gabriel é descrito como um rapaz mulherengo, boêmio, embora apaixonado pela leitura, pela escrita. O casamento com Mercedes - cujo primeiro encontro, quando esta tinha nove anos e Gabriel 14, fica escondido na obra- causa uma transformação radical no escritor que passou inúmeras dificuldades econômicas - de não ter o que comer e ter, por exemplo, de penhorar a máquina de escrever que ganhou da mãe ou dividir o pão das prostitutas – até chegar à Universidade e iniciar as primeiras poesias, começar a carreira de jornalista em Cartagena. Tudo o que pode, Martin documenta nestes relatos minuciosos.
Há também a relação de Gabriel com Tachia, a atriz que conheceu em 1953, em Paris, cujo caso termina em aborto. Antes de Paris, aparece a figura de Ramon Vinyes, o escritor que é personagem em “Cem anos de solidão”. Entre bebidas, farras e bordéis, Gabriel descobre Joyce, Faulkner, Kafka e ainda o folclore colombiano. Gabo interessa-se pelo cinema italiano, o marxismo, a política, e vai, aos poucos, se transformando em um homem atento ao mundo. Inclusive, esse é um dos méritos da biografia: analisar as etapas sucessivas na vida do autor.
No México, o encontro com Carlos Fuentes o deixa inseguro, pois achava o amigo mais inteligente do que ele. E no DF Gabriel leva um “soco” de Vargas Llosa, segundo o que foi “investigado” pelo autor de “Uma vida”, por ciúmes da mulher de Mário.
As primeiras partes do livro são sobre o período antes da fama; da escrita dos seus livros primeiros; depois do sucesso, as análise sobre o posicionamento político e o ativismo tornam mais objetiva a escrita e com menos novidade. Mas está ali a amizade com Fidel Castro, Omar Torrijos, Felipe González, sua ida a Cuba para fundar a Escola de Cinema, suas preocupações com a guerrilha colombiana. A biografia – que vai da infância até os últimos anos - aborda desde a busca pelo poder, pelo qual Gabriel se sentiu sempre atraído, até o reencontro com o pai, muitos anos depois do sucesso e, por fim, um último encontro de GGM com Martin, o autor da biografia “tolerada”.
Gabriel Garcia Marquez: uma vida/Gerald Martin/trad. Cordelia Magalhães/ Ediouro/814 P.

Publicado no caderno 2 do Jornal A tarde em 11/07/2010

sábado, 12 de junho de 2010

Drummond: livro, pedra e poesia



Publicado no Jornal A tarde 12/06/2010

O poeta faz a sua mala/põe camisas punhos loções/um exemplar da “imitação”/e parte para outros rumos.

Como “Fuga”, poema de Carlos Drummond de Andrade, “Alguma poesia - o livro em seu tempo” é aquela pedra da qual somos herdeiros: se no meio do caminho tinha (uma pedra), no nosso caminho tem (Drummond). Não adianta correr do Modernismo. Há ainda potencialidade em Drummond, na “pedra”, na “fuga”, e em “Alguma poesia”.
O poeta Eucanaã Ferraz é organizador desse livro especial. Em um belo tomo, reuniu fotos, cartas, manuscritos, datiloscritos e um fac-símile da primeira edição do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade: “Alguma poesia”. E, no tomo fac-similado, observamos as alterações que o poeta fez à tinta e que foram incorporadas às edições posteriores. O livro é cheio de surpresas como essa e, como o próprio organizador chama a atenção, é uma jóia para aqueles que são estudiosos da obra do grande poeta modernista e um presente para os que gostam de poesia, de livros, de história, de fotos, de memória, de papel.
O volume foi organizado em três partes: a primeira é uma apresentação, escrita pelo próprio Eucanaã, que traz a história do livro “Alguma poesia” de maneira interessante: localiza Drummond na cena modernista mineira partindo, principalmente, do diálogo deste com Mário de Andrade. As informações são dadas a partir das cartas de Mário a Drummond e a Bandeira, e as respostas de Drummond, assim como informações de livros, artigos, acontecimentos. Tudo devidamente documentado e explicado “textualmente” em notas de rodapé. O que ali interessa é a “biografia” daquele livro, então, o leitor pode ver como nasceu alguns dos poemas, quais foram incompreendidos, massacrados, adorados, reescritos, aceitos. O leitor acompanha mesmo o nascimento de uma obra desde a sua idealização até a sua edição. E ainda recupera a discussão dos modernistas, a força de Rio e São Paulo em relação aos demais grupos modernistas, a opinião de Mário sobre os poemas, alguns dizendo gostar e outros dizendo achar ridículos, ingênuos, mas reconhecendo o valor e pedindo ao jovem poeta que “por favor” publique a obra ainda que tenha de pagar do próprio bolso pela publicação.
A segunda parte é o fac-símile. Que gostosura: podemos ler os poemas em sua grafia original, gozar do amarelo das folhas, testemunhar as interferências e correções feitas por Drummond, saber como foi a diagramação da primeira edição, “forjar” uma fuga ao contrário: é no tempo do poeta que entramos, vindos do pós- moderno, procurando o lugar do “stop/a vida parou/ou foi o automóvel?”.
Na última parte se tem a fortuna crítica da obra, e as cartas de agradecimento enviadas por críticos, amigos, escritores, conhecidos e anônimos que receberam o livro. As resenhas e artigos vão dar notícias das críticas negativas e elogiosas ao livro.
Assim como “Alguma poesia” reúne alguns dos poemas mais significativos de Carlos Drummond de Andrade, “Alguma poesia- o livro em seu tempo” traz algumas das mais importantes relações: a do poeta com a sua obra, e com o seu tempo. Na feitura do livro, acompanhando cada um dos aspectos - do intelecto-artístico ao filológico -, tem-se a magnífica “ciência” do livro, encantando e desencantando a palavra do poeta. Uma bela homenagem ao poeta, ao livro e à poesia, fruto da união do grupo Moreira Salles, Casa de Rui Barbosa e da família de Drummond, sob o olhar de outro poeta. Depois de “possuir” esse livro, não nos contemos: - Vem, Carlos, ser gauche conosco.

“Elas” sem pseudônimos, mas com blogs, ‘cartas’ e twitter: escritoras da Bahia contemporânea


Imagem da artista visual Mari Fiorelli - www.ociumeilustrado.blogspot.com


Publicado em A tarde 12/06/2010

Eu não acho, definitivamente, que a Literatura deva ser classificada, mas, com o mínimo de olhar crítico, é impossível não se aperceber da diferença que houve no tratamento e no acesso de mulheres, e outras minorias, às publicações literárias.
A arte literária é complexa como produto, envolve criação, publicação, circulação e recepção. Enquanto as mulheres, até o século XIX, lançavam mão de tudo quanto fosse estratégia para chegar aos leitores, uso de pseudônimos masculinos, casamentos convenientes com escritores ou com Jesus (as que souberam bem articular desde a Igreja, como Sor Juana e Amélia Rodrigues ) e outros trágicos e cômicos artifícios, as de hoje escrevem em blogs, twitters, sites; postam, mandam “cartas” para o público e experimentam, inclusive, processos ‘novos’ de criação, frutos dos avanços da tecnologia: as intertextualidades, as linguagens híbridas, a sobreposição de texturas literárias.
As cartas, como as da coleção “Cartas baianas”, da editora P55, são mandadas com carinho e com sucesso: a edição, despretensiosa, é cuidada dentro de um projeto gráfico simples e, ao mesmo tempo, atraente, com o visual jovem que nos dá vontade de mexer de forma fetichista quase. E não custa muito, ainda que o preço corresponda ao tamanho e à bem bolada – não sei se consciente- forma de pegar o público: alguns dos textos chegam ao final e o leitor tem vontade de mais, certamente dispostos a consumir o segundo tomo se houve/r/sse.
As remetentes das “Cartas” são diversas em seus estilos e linguagens: Kátia Borges, Allex Leilla, Karina Rabinovitz, Adelice Souza, Renata Belmonte, para citar algumas.
A poesia das “Ks”, Kátia e Karina, são distintas: Rabinovitz trabalha mais com composições visuais,embora haja também poesias cuja musicalidade é explorada, não só pelos jogos com as palavras, mas com o próprio ritmo e recursos sensoriais. Muitos de seus versos são imagens, arranjos gráficos, poemas-coisas, os quais invadem também a cidade como instalações poéticas, numa agradável e possível mistura de artes visuais com texto poético. Basta pensar nas caixinhas com poesia dos pontos de ônibus, as pinturas de versos nos muros da cidade, o lambe-lambe poesia, os balões que escondem versos e outras poéticas instalações. Chama-me a atenção a sua coragem em explorar a poesia dessa maneira, e a visível ausência de hierarquia entre as variadas formas de expressão artística.
Kátia Borges mergulha na palavra e a explora como parte de uma tessitura firmemente marcada pelo sentimento que vem da experiência, mesmo que seja da experiência da memória. Em sua poesia, a memória de uma geração – que não corresponde temporariamente ao seu tempo de produção, mas que sem dúvidas foram suas referências - vai surgindo não apenas pelas pistas literárias e culturais que faz emergir, de John Fante a Janis Joplin, mas também pelo acercamento a uma poesia que revela o lugar do poeta e, com isso, seu envolvimento com o seu tempo, com a própria literatura e o desvendamento do sujeito que faz da poesia a sua morada.
As “As” da coleção, Allex Leilla e Adelice Souza, trazem temas fortes em suas produções e ambas trabalham bastante com o desejo; são diferentes, ainda que com semelhanças que as trazem ao lugar de onde escrevem: o presente. Allex Leilla ‘compõe ‘ ficção com poesia. A escrita madura, bem fincada na liberdade que se dá em termos de experimentos de linguagem e exploração minuciosa do corpo como parte dos textos, numa muito interessante relação de carne-palavra, faz mergulhos pelo submerso do sujeito, da palavra, mas não foge dos encontros com suas influências literárias, seus gostos musicais e poéticos. O seu texto traz referências, citações e recuperações de versos entram na sua obra num bem balanceado diálogo e vai além: acaba fazendo parte de seu texto de maneira natural, sem, contudo, perderem o sentido primeiro.
Adelice brinca seriamente com o “teatro das palavras” explora a dramaturgia latente nas histórias de vida das personagens; como as demais, “intertextualiza” em sua escrita de forma peculiar e experimenta entrar na intimidade das personagens sem pudores, revelando-as e desmacarando as suas dores e o seu riso num texto forte.
Renata Belmonte, com a sua Sta. B., explora a relação autor-personagem, joga com essa relação e vai percorrer o caminho que as personagens percorrem. Não carrega pesos e a escrita vai solta, pontuando pelo caminho as observações da vida, a intimidade com o presente dentro e fora da obra, e a ‘farsa’ que limita realidade e ficção.
Dos blogs há outras, além das que foram publicadas pela coleção “Cartas baianas’, como Eliana Mara Chiossi, que reuniu as suas ‘postagens-escritos’ no livro “Fábulas delicadas”, da editora Escrituras. Eliana, entre todas as escritoras dessa geração, é a que mais assume uma feminilidade como parte de sua obra, explorando, nos textos, esses lugares do feminino na contemporaneidade, externamente falando, e também na intimidade de certas experiências como a maternidade, a fantasia, o desejo, o papel de filha, de mãe; recupera metonímias e metáforas levadas por palavras que muitas escritoras rejeitam pelo estigmatizado que ficou o vocabulário dito “feminino”: jardins, flores, cores, deus, divagações. A sua escrita, nesse primeiro livro que saiu de seu blog, promete percurso e a escritora se mostra com coragem.
Ana Paula Fanon, poeta, produtora cultural, fotógrafa e jornalista, que mantém o blog literatura subversiva, não privilegia a sua poesia frente ao texto jornalístico: em seu blog há tudo em igual destaque. É uma blogueira-poeta que usa a paixão e a liberdade para variar nos temas e formas de sua poesia.
Elas, as baianas, sem “nicknames”, pudores, ou restrições, vão traçando um percurso abrangente de temas e experimentações, usando ao seu favor os novos meios de divulgação, mas não se limitando a isso; utilizam os próprios meios para experimentar na linguagem, revelar outras facetas, trocar experiência, expor poesia como instalação, publicar o que gostam e lêem. E as que mandam ‘cartas’, mandam-nas seus nomes, dando ao momento a certeza de que elas assinam. Os nomes e, sobretudo, as obras.

sábado, 29 de maio de 2010

Ruídos literários



Publicado no A tarde 29/05/2010

Enquanto lia “Paisagem com dromedário”, de Carola Saavedra, não pude evitar de pensar nas construções simbólicas que levam uma literatura a ser de determinado local: brasileira, francesa, cubana... a paisagem, a língua, os temas, as marcas culturais, a origem do autor: sempre se busca alguma essencialidade que nos conecte diretamente ao lugar. Mas a literatura brasileira contemporânea vem apontando bem numa variada universalidade que interessa por muitas razões, afinal, temos uma forte tradição da “cor local” que, do Romantismo ao Modernismo, nos rendeu desde o nosso imaginário brasileiro até a antropofágica relação com o que de fora nos vinha .
Aos 36 anos, a jovem autora Saavedra vai marcar muito bem esse aspecto universal em seu novo romance. Para começar, a autora é uma chilena que veio para o Brasil aos três anos. E, a partir dessa informação, marcada na orelha do livro, seguimos pelo “espaço” da narrativa do romance: uma ilha. Mas nunca sabemos em que ilha a personagem-narradora se encontra. Apenas que é uma ilha vulcânica, com um mar selvagem e alguns poucos turistas. Uma certa vida local com variadas “figuras”: uma marchand e seu marido, um médico, uma cozinheira, sua cunhada. As demais personagens, um artista e uma jovem estudante de arte, são imagens recuperadas na memória da narradora Érika, que vai “montar” e “desmontar” um triângulo amoroso rodeado de reflexões em torno da arte, do artista, do propósito da criação, e da existência.
A ilha pode estar em qualquer lugar do mundo e em lugar algum. O que faz o espaço ser apenas o “modo” de que seja possível a história narrada por Érika, que, na verdade, narra em um gravador as cartas para Alex, famoso artista conceitual com quem teve uma relação profunda. Com técnicas descritivas e rítmicas próximas do Rádio e do Cinema, a autora deixa que o leitor experimente muito daquela história cheia de ruídos e interrupções, ainda que a condução dada pela “narradora” seja controlada o tempo todo, evitando que o leitor escape da história e seja apenas parte de um “happening”.
Todo o tempo, a narradora, enquanto tenta entender a reação de desprezo que manteve com a sua amiga íntima Karen, quando soube que esta tinha câncer, vai insinuar que a obra é uma instalação. Ao relatar para Alex os seus dias naquela ilha, a sua relação amorosa com o veterinário, as conversas com Pilar, a relação estranha com o casal de marchands, Érika também narra a construção de uma instalação literária. É tudo uma farsa e ao mesmo tempo é concreto o que se tem ali: os ruídos dos transeuntes, os barulhos de uma natureza selvagem e forte, a música e a interferência de uma rádio, os passos de alguém, choro, vozes, enfim, ruídos que vão compor os experimentos estéticos das personagens artistas.
Enquanto a história assume as interrupções como parte de sua estrutura, o leitor vai decifrar também as estórias cruzadas, o lugar que não sabemos, os costumes novos que se apresentam ali e que reconhecemos que não são nossos, mas que são igualmente locais, prosaicos, desses que nos encantam descobrir em viagens: Pilar, a cozinheira da casa onde Érika está hospedada, visita com sua cunhada o cemitério, leva a comida preferida do morto, aguardente, fotos, velas, flores para celebrá-lo: um costume forte em países como o México e a Guatemala.
Assim, evitando a superficialidade de uma paisagem de “viagem”, Saavedra constrói uma narrativa interessante, história com tragédias amorosas, buscas pela originalidade da arte, a tentativa de entender-se e retomar a própria identidade, objetivo da narradora, que se diz “dominada” pelo carisma e pelo talento de seu parceiro no amor e na criação artística. Rompendo os limites da literatura com criatividade, Carola mantém a tensão dos fatos, a angústia e a solidão de uma jovem que se procura, se persegue e se enfrenta. E em qualquer lugar.
Essa literatura brasileira sem “cor local” se faz muito interessante para seguir as provocações da própria narradora em torno da arte, definida como “aquilo diferente que está em quem vê e não no objeto ou no contexto”. Fora de qualquer paisagem brasileira, em cima de um dromedário, seguimos tão certos de nosso lugar que nos reconhecemos nas dinâmicas e nas paisagens inóspitas que se apresentam ali.

Paisagem com dromedário/Carola Saavedra/ Cia das letras/167 p./38 reais.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Murmúrios, latidos, caminhos e deserto na obra de Juan Rulfo



“Assim nos deram esta terra. E nesta chapa quente querem que semeemos as sementes de algo, para ver se algo brota daqui. Nem urubus.” (A terra que nos deram, Juan Rulfo)

O caminho de Juan Rulfo é longo; é intercalado de espaços vastos e plenos ainda que aparentemente recortados. A sua escrita, ainda que pequena em quantidade, é superlativa em qualidade e, sobretudo, em seu efeito visceral. Por “Pedro Páramo” e “A Planície em Chamas” somos todos marcados: a desolação como que nos “atrapa” naquelas paisagens internas e externas onde vida e morte se confundem e deixam algo de incômodo.
O México, por trás de suas cores e suas pirâmides astecas e maias, ardia em desigualdades, revoluções, gritos e violência contra os “campesinos” – hoje não é tão diferente -, então, era preciso mergulhar na falta de sentido dos homens e desnudá-los em natureza, desejos, medos e sonhos. Era preciso prender o homem na paisagem desértica de seu próprio temor, de sua própria ilusão e, o mais fantástico: prendê-lo em sua inviolável “realidad”.
Em espaços íntimos, Rulfo se moveu tão silenciosamente a ponto de que, ao ouvirmos as vozes vindas de “Pedro Páramo”, seguimos também um caminho em círculos, inconcluso - mas extenso- em direção às profundas terras, aquelas despovoadas, mas cheia de existência silenciosa que grita. E os gritos de dentro e de fora nos chegam de maneiras diversas, ouvindo o ladrar dos cães enquanto se atravessa o deserto sem fim para achar socorro ou sentindo o que há por trás da simples constatação em um conto sobre mais uma dessas regiões castigadas por toda sorte de infortúnios: “É que somos muito pobres”.
Esse andarilho não se contentou na impressão de suas pisadas nas paisagens mexicanas, quando de uma ponta a outra do país se movia para colher dados para o seu trabalho na agência de imigração do governo: levou o seu trajeto, ou seja, o México interior, para a escrita, mas de forma maravilhosa em seu sentido literário e lingüístico, conseguindo, assim, evitar e suplantar a leitura social imediata e passível de vícios. Unindo o misterioso e o real, Rulfo consegue que, em sua literatura, se revelem as duas mais destacadas capacidades da arte: imitar a vida e suscitar a fantasia. E, no caso desse escritor mexicano, a fantasia e a realidade estão no mesmo plano e obedecem ao mesmo impulso: compreender de maneira íntima o espaço que os homens habitam, seja esse físico ou psicológico. Seja o chão para caminhar ou o caminho sem estradas.
Isso quer dizer um encontro com tudo: a terra, as tradições, as experiências vivenciadas, o ritmo das conversas, o universo subjetivo de onde se escapam os pensamentos; a capacidade de que uma gota de chuva seja descrita numa terra de calor infernal sem que jamais tenha caído, o que não impede que Rulfo nos toque com o efeito dessa gota tal qual nos toca a frase repetida pelo filho mais velho de Fabiano ao receber da mãe a definição de inferno em “Vidas secas”: “Inferno, espeto quente, espeto quente...”
Os textos de Rulfo evitam o determinismo, a explicação simplificada das razões pelas quais os homens se intrometem na natureza a tal ponto de confundirem-se com ela. A miséria, a pobreza, a solidão e o vazio estão vertidos de força que ultrapassa o plano real, e no simbólico se revelam mais. Assim, pode-se perceber a força política de seus textos e jamais esgotar ali a possibilidade de compreensão e revisão da realidade. As terras sem lei, a presença do sagrado, a explicação fantástica, quase surreal, das coisas e a vontade de existir para dominar a terra e vencer as adversidades, do espírito ou do corpo, ou a injustiça dos fortes contra os fracos, fazem com que todas as experiências dos contos de Juan Rulfo sejam possibilidades únicas de se entender esse sujeito que foi escolhido para ficar de fora de qualquer coisa acolhedora; ao contrário, a ele sendo dado ocupar os espaços adversos e percorrer sem fim por um caminho por justiça, por liberdade ou por ajuda.
Transformar a paisagem de seu país em algo interior, impalpável e, ao mesmo tempo, tão vivo e perceptível, é um dos aspectos mais interessantes da obra de Rulfo. O universal de sua obra se encontra justamente ali; todo homem faz aquela viagem, todo mundo com seu deserto, sua planície devastada. Assim que quando vi o curta “Cães”, de Moacir Gramacho e Kibe Adler, inspirado no conto “No oye ladrar los perros”, senti-me tanto aqui, no sertão de Graciliano, quanto lá, terra mexicana que Rulfo me ensinou a chegar escutando vozes, gritos, latidos e murmúrios.

publicado no A tarde 15/05/2010

sábado, 8 de maio de 2010

Jogos, seqüestros e memória no romance de William Kennedy




O romance “O grande jogo de Billy Phelan” é um desses achados literários que nos faz, de algum modo, sortudos e marcados tal e qual um grande jogador de pôquer. O livro faz parte da trilogia conhecida como o “ciclo de Albany”, do escritor americano William Kennedy. Albany, cenário da trilogia, é uma cidade do Estado de New York de onde o autor é originário.
Usando muito bem os elementos de um romance Noir, Kennedy explora o ambiente obscuro, sinistro da pós Depressão norte-americana, mas vai além dos aspectos relativos ao gênero. A narrativa foi escrita em 1978 e é ambientada no passado, aliás, passados, já que várias narrativas surgem de épocas distintas para conferir ao protagonista um lugar de destaque nessa saga familiar.
Billy Phelan é o jogador espetacular, “sortudo” e honesto, dividido entre o mundo underground dos cassinos, botecos, prostíbulos, crimes, e o cenário familiar. Um jovem carismático, querido, que se torna uma espécie de mito quando vence uma partida de boliche com 299 pontos, tendo deixado apenas 1 ponto se perder.
Dessa noite emblemática Billy não mais escapa, e acaba sendo envolvido por uma das famílias mais poderosas da cidade num seqüestro que o deixa dividido entre sua honestidade tão admirada por todos- bandidos e poderosos- e a traição a um amigo provavelmente envolvido no crime. Preferindo ser leal aos seus princípios, vai ser alijado da convivência com amigos, dos bares, de todos os locais que freqüentava, como punição por ter enfrentado o poder dos McCall, família que controla política e financeiramente a cidade.
O romance traz intrigas e paixões envolvendo famílias: poderosas, operárias, católicas ou judias. Aliás, a família para William Kennedy é concebida como o modo de vida que vincula estreitamente os valores morais com o indivíduo. É um núcleo social forte, que se enaltece como uma necessidade mais do que um dever.
Assim, os Phelan – família de Billy - os Daugherty – família do jornalista Martin (que se responsabiliza por “interpretar” Billy em sua própria peregrinação pela cidade) - são membros de uma comunidade à qual também pertence o autor: a proximidade o envolve – e a nós também – e o leva a comungar com um ambiente saturado de lembranças que sustentam cada passo, cada ato. Fachadas, ruas, móveis, gestos, tudo ilumina a história: em Albany não há espaço para o esquecimento. Todos somos levados a desenterrar o passado do lugar.
Billy, o grande jogador, carrega em seu íntimo a falta do pai que se jogou no mundo e que traz dois grandes pecados: matou com uma pedra um operário que furou uma greve e, por acidente, deixou cair seu filho bebê, que morreu instantaneamente. Desse último “crime”, Billy nunca soube e amarga o peso de ter sido abandonado, aparentemente sem razão, pelo pai.
Mas o pai de Billy volta, depois de 22 anos, e encara o filho desde seu lugar de fracassado, de morto-vivo, de miserável, e aviva outra vez mais o passado da cidade, que não é só de Billy, mas de todos os moradores. Francis, o pai de Billy, também pertence à cidade e seus segredos. Compartilhando da tradição européia da construção de sagas, as quais são pouco exploradas na América Latina, Kennedy, depois de William Faulkner, ergue-se como um mestre nas sagas familiares e consegue deslocar o pessimismo pegando uma tradição profundamente humana, sem desconhecer a cotidianidade do mito, e levando-a ao trânsito da universalidade. É tudo história de família.
As dívidas de jogo e de bebida são metáforas, o que está em jogo são as dívidas da alma. As relações entre pai e filho são o esteio das dúvidas, dos mistérios, das traições. Há sacrifícios e cartas na manga, e não há como não se emocionar diante da verdade: as nossas fraquezas são humanas e onde há dor, certamente há amor e necessidade de perdão...
Para o leitor, então, descobrir que Martin se apaixonou pela amante do pai, que o pai de Billy causou a morte de seu filho, que outro pai manda matar quem se coloca na frente do seu rapaz, é apenas descobrir uma porção de si mesmo no expiar de qualquer passado. O que tem de mais encantador aí é que tudo é um grande jogo de William Kennedy com o leitor. Um jogo denso - onde herói e anti-herói equivalem ao mesmo - mas um jogo limpo.

O grande jogo de Billy Phelan/ Cosac Naify/ William Kennedy/ trad. Sergio Flaksman/344 p./ 55 reais.