segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Cortázar nos perde em Paris dos anos 60 e encontra-nos numa estação de trem


Publicado em 30/10/2010 no caderno 2+ do Jornal A tarde

“E já que vamos contar, é melhor pôr um pouco de ordem. A gente desce cinco andares e já está no domingo, com um sol inesperado para novembro em Paris.”
O desejo de pôr ordem no caótico emaranhado de fatos, expresso pelo narrador de “As babas do diabo”, que inspirou o filme “Blow-up” do Antonioni, não é um capricho qualquer. O fotógrafo, personagem do conto, duvida da realidade que seus olhos pensam ver mediada por uma câmera e a poesia dramática da vida se ergue sem imagens: essas são tão irreais que se confundem com as palavras.
São tantas possíveis maneiras de “desnarrar” o que se pretende contar que as páginas viram cenas de cinema; estas se transmutam em algum jazz extraordinário, para bons ouvidos, que depois explode em literatura, que inventa cidades, que devolve o tempo ao homem, que vira leitor, que redescobre o livro para nele se reinventar e começar outra vez. Essa realidade porosa vai escancarar a complexidade da vida e do ato de viver a vida num descompasso alucinante.
Os contos de “As armas secretas”, de Julio Cortázar, lançados pela primeira vez em 1959, são peças nobres da literatura. Cinco histórias que levam grandes projetos literários voltarem a ser pensados, do idealismo romântico à fragmentação pós-moderna. O elemento fantástico, tão peculiar na obra cortazariana, não surpreende em seu estado de absurdo, mas por ser colado à realidade invisível e emanar da simplicidade contida no cotidiano.
Como se desmontasse várias camadas de literatura, e de fantasia, o autor, no conto “Cartas de mamãe”, esmiúça o universo psicológico da personagem principal, um filho que recebe cartas da sua mãe, e leva o leitor a um percurso com o próprio narrador. As cartas chegam a um cotidiano em Paris, vindas de Buenos Aires, do cotidiano de uma mãe solitária. Narram cotidianidades e mantém segura a vida de todos os envolvidos, incluindo a nós, leitores.
Um dia, uma palavra na carta, numa frase corriqueira qualquer, um nome próprio fora do lugar, um equívoco, desarruma tudo: a vida, os dias, o conto, a literatura. Um morto vai chegar no trem das 11:45, um irmão culpado pena entre uma e outra carta da mãe que “ está louca!” e escreve coisas absurdas, uma esposa mente para o marido e sonha com o falecido cunhado, uma traição inventada pela nossa desconfiança e um escritor revelando segredos da escrita e de seu ofício. Uma carta, uma palavra fora do lugar esperado e com isso a literatura construindo o impossível.
A delicadeza dos sentimentos das personagens algumas vezes se transforma em ironia das mais finas, e o leitor vai adentrando-se nas nuances variadas dos fatos. Em “Os bons serviços” o narrador introduz uma ambígua naturalidade aos mais absurdos fatos que acontecem a uma senhora diarista que serve à burguesia francesa. Cuidando de cinco cães enquanto os patrões se divertem numa festa, a personagem descobre, antes de nós, que tudo é sonho e pesadelo, que as realidades se confundem porque somos presos a elas. Entre a trágica situação dessa miserável e quase abandonada diarista, todo o espetáculo da morte se revela: contratada para chorar um defunto, ela se depara com o único ser que tivera com ela um gesto de carinho. E suas lágrimas falsas se tornam verdadeiras, embora ela jamais saiba o que é aquilo tudo, quem são aquelas pessoas que a levaram de uma sala com cães a um velório...
O livro vai se desdobrando em percursos inesgotáveis. Sobrevivemos aos contos pensando serem extensão de nossas vidas, de nossos sonhos. Os aspirais eróticos de cenas que nada possuem de explícitas fazem-nos crer numa força secreta, num mundo secreto, que nos deixa cegos diante do caminho sem fim. A ruína, o desejo, a fantasia e a realidade estão ali, no livro de Cortázar, mas poderiam, como disse Arrigucci Jr., estar num Juan Rulfo, num Borges, num Onetti. Poderia pelo fantástico da obra, pela genialidade da escrita. Mas não pela bem truncada prosa, não por esse jogo - que sempre funciona por mais que o saibamos - do escritor consciente brincando com o fantástico e um falso descontrole. Os cinco contos nos chegam desafiantes, como a vida desafiou o artista Cortázar a sobreviver e escrever naquele seu – nosso – tempo. Ouçamos um jazz e salvemos do suicídio qualquer personagem, enquanto outros caminham em nossa direção na estação de trem. Em Paris.

Do Le Monde para a literatura: “esquisitas” palavras da pornografia erótica dos corpos ao desejo político de ser




Publicado no caderno 2+ do jornal A tarde
Fabiane Borges e Hilan Bensusan possuem muitas singularidades: os dois são parte de um “coletivo” de dois, o “Esquizotrans”, assinaram a coluna “Políticas Esquizotrans” no caderno Brasil do Le Monde diplomatic; ele é professor de filosofia na Unb, ela pesquisa “micromídias” de “maneiras megalomaníacas”; ele e ela são “esquisitos”. Isso pode ser bom, como o senti ao ler o trabalho literário dos dois em seu primeiro livro “Breviário de pornografia esquizotrans: para pessoas do avesso”, com prefácio Pedro Costa, da banda queer “Solange Tô aberta”.
A literatura e o corpo, o corpo e o gênero, o gênero e a sociedade têm sustentado uma relação complexa: a pedagogia do controle sobre o corpo sempre contou com a palavra e esta quase sempre serviu à manutenção do conhecido par “homem x mulher” – historicamente prevalecendo a superioridade de todo o aparelho masculino. A literatura, como a filosofia, sempre esteve atrelada ao espírito do momento, tendo, portanto, deixado-nos bem servidos de modelos ou questionamento dos modelos.
Acontece que o corpo – e a literatura – anda escapando às totalidades que, substituídas a cada par de décadas ou séculos, ajustavam-no à cena. Diga-se de passagem que, em cada momento, houve aqueles que causaram fissuras absurdas no corpo, na cena literária, na linguagem, na filosofia, na moral. É por aí que passeiam um Fernando Vallejo, um Walt Whitman, um Lezama Lima, Um Guimarães Rosa, um Nietzsche, um Foucault, uma Judith Butler, uma Beatriz Preciado.
O livro de Fabiane e Hilan vem escrachar a cena arrumada de um papai-mamãe bem literário, arrebentar calcinhas com pau intumescido coexistindo com vagina lubrificada, peitos e bundas alternando-se na cena do prazer, hormônios questionando tudo e se impondo à medicina, à vida compreendida parcamente a partir de duas – como não enfatizar – duas míseras categorias de gênero e só uma de desejo: o heterossexual. Mas, o que o “Breviário” vai trazer de mais intenso é um reconhecimento singular do transsexual, ampliando-se, inclusive, o “trans” para as condições de sexo, gênero, desejo ou identidade que se encontram diante de fronteiras, que escapam a qualquer prévia categoria ou mesmo espaço. E isso de forma literária, ricamente elaborada em imagens, metáforas, linguagem.
Há uma perversidade sem tamanho no tempo esse em que vivemos: entre tanto sexo explícito na TV e hit de axé e funk leiloando os corpos juvenis femininos, um recrudescimento moral impede o olhar escancarado e saudável sobre os corpos – veja-se a discussão sobre aborto da cena política atual – e a arte permanece engessada quanto aos limites de representação artística, humana, sexual e política dos corpos que abarcam tantas singularidades, explícitas cada vez mais, felizmente.
Os textos de “Breviário”, alguns podendo ser considerados contos e outros transitando em fronteiras textuais, trazem uma proposta estética claramente vinculada aos estudos teóricos “queer”, o que, a princípio, poderia enfraquecer o projeto literário. Particularmente, sou resistente a projetos artísticos de engajamento, salvo os casos que logram se libertar do discurso. Arte é arte, podendo ser política também. Mas não quero, quando leio literatura, um discurso político ou um relatório de ação social, quero emocionar-me, rir, transformar-me, sonhar, chorar, comover-me e compreender aquilo que desconhecia.
Foi assim quando li “infidelidade e descentralização”, “diferenças sexuais agudas”, “em cima do morro dos prazeres ou me monto herculina barbitúrico”, “amor no lixão”, “brenda comendo david”, “puta ontológica”, “projeto de duas feministas velhas” e outros textos do livro, o que me diz que o encontro prévio com as teorias queer não minimizou a criatividade, o roteiro artístico, o desejo e a sensibilidade dos autores.
No livro, é tudo sexo, explícito ou não – a depender do que cada um concebe como explícito e como ato sexual, afinal, Eva comeu uma maçã e mudou o destino da humanidade, a “virgem” Maria engravidou, os anjos não têm sexo e por aí se vê uma série infinita de “anedotas sexuais” presentes na nossa história e desprovidas de órgãos -, sim, é tudo desejo e sexo no livro do coletivo esquizotrans, mas, mais do que tudo, são gritos originais de socorro para as prisões dos corpos e para a arte.
A linguagem é um arco sem curva na maioria dos textos, um vocabulário “sexual” corajoso, mas, sobretudo, um desnudamento das categorias de palavras; o ritmo e o encadeamento da prosa oral vai colar-se perfeitamente ao momento contemporâneo de tanta velocidade, medicina, tecnologia, crise da ecologia: as palavras vão saltando e revelando movimentos, catarse, ironia; vão reacendendo a curiosidade filosófica, filológica, literária; vão reativando o homem na sociedade das máquinas, essas sejam as do mundo capitalista sejam as das políticas fracassadas.
A sensibilidade presente nos textos se revela tanto na crueza erótica e pornográfica dos encontros entre seres sem categoria, quanto nas sutilezas dos sentimentos de moças do interior sem dentes, escravas do ambiente patriarcal, sem direito a desejo ou mesmo a mirarem seu sexo com liberdade, como se vê no conto “o anel brilhante de elfriede jelinek”. Os trans e os intersexos ganham corpo (que no cinema o filme XXY já revelou) e desejo, possuem órgãos, os dois ou um só escolhido ou imposto, e vão escrever outra história para os que, também na arte, ficaram apagados, escondidos, desprezados, concertados, reescritos, disfarçados.
As esquisitices da dupla Borges e Bensusan – esquisito aqui mais para o sentido da língua espanhola – são bem-vindas, pertinentes. Literariamente há muitas propostas interessantes (outras não, o que também é bom de se ver: a literatura demanda muito esforço para se erguer e os autores, conscientes disso, simplesmente jogam-se livres e corajosos no desejo, o que por si só já atende a um princípio da arte: é preciso gozo). Ver os trans, as lésbicas, os gays, os heteros com desejos outros, com idades tantas, com subjetividades variadas, aflorarem pornograficamente é, por si só, uma experiência interessante. Ver a literatura chegar para a diversidade do desejo é ainda melhor. A pornografia é muito mais do que sexo explícito.

“Breviário de pornografia esquizotrans: para pessoas do avesso”/Editora Ex libris/154p./R$35.

Sob o verbo, a literatura


publicado no caderno 2+ do jornal A tarde

A literatura é uma das artes que mais vínculos possuem com a crítica. A própria relação de metalinguagem entre ambas já se configura um íntimo e arriscado percurso que se constrói na articulação de interesses, conhecimento, desejo, desassossego, projeção, descoberta e reinvenção, elaborada na mesma mágica ferramenta: a palavra.
Como não se trata de falar de uma outra linguagem – como o é com as artes plásticas, a fotografia, o cinema, a música – a confecção desse texto novo, que se predispõe a iluminar o outro, pode ser uma ação desastrosa ou bem-sucedida, uma vez que é esse o texto que se propõe, sendo aqui imediata, a retirar da penumbra ou manter luzindo o outro.
Arthur Nestrovski, com a sua mais recente publicação “Palavra e sombra: ensaios de crítica”, chama-nos a atenção para o status quo da crítica literária, seu papel, seu percurso, enquanto que ele mesmo vai construir um corredor de luz sobre algumas obras sob o viés literário-artístico-cultural-político.
Na apresentação do livro, Nestrovski faz um panorama rápido da crítica literária brasileira, destacando os momentos de mudança – como a da década de 40, no rodapé dos jornais, “entre a crônica e o noticiário”, ou a de 60 com a crítica scholar, oriunda dos especialistas universitários – e apontando, inclusive, para uma reflexão acerca da crítica contemporânea e sua ainda existente relação com os jornais. Nomes como os de Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Milliet, Antônio Cândido, Mário de Andrade e outros vão surgir pontuando-se uma história cultural e intelectual à parte e revelando-se um outro cânone: o da crítica literária.
Os ensaios críticos presentes em “Palavra e sombra” demonstram não tanto um mergulho nos sendeiros de construção literária dos autores em destaque – João Cabral de Melo Neto, Modesto Carone, Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Luís Francisco Carvalho Filho, Roberto Schwarz, Philip Roth, Saul Bellow, John Updike, Don DeLillo, Kazuo Ishiguro, Richard Powers, Pankaj Mishra e Vladimir Nabokov – mas, especialmente, um entendimento tanto da cena literária que suporta as obras como da relação das mesmas com o movimento cultural, intelectual e político do contexto em questão.
Arthur constrói o seu texto com cuidado literário, escolhendo imagens que vão dialogar com o discurso que produz sobre a obra lida, parte do artifício de trazer das sombras as palavras. Algumas vezes abre o seu texto com narrativas, por exemplo, de como, quando e por quê estava lendo determinado autor, ou narra-nos uma imagem do livro lido antes de adentrar-se pelos caminhos críticos. Mais comum, entretanto, é abrir seus textos com uma citação ou pequena frase-mote que contém o mistério e a tensão de uma idéia que vai percorrer na obra.
A leitura de Arthur Nestrovski ultrapassa bastante os limites do texto e revela um conhecimento profundo da cena literária e cultural contemporânea. O livro se divide em três partes, uma da cena literária brasileira, outra da de língua inglesa e uma terceira de três produtos artísticos distintos: um filme (“Um filme sem imagens”), um livro de fotografia (“Êxodos”) e o teatro Vertigem (“Apocalipse I e II”).
Apesar de cada texto trazer uma série de referências – autores que dialogam com os escritores, ecos literários das tradições em jogo, interseções políticas, filosóficas, artísticas e culturais – os ensaios de Nestrovski se mantêm equilibrados e lúcidos, sem o peso erudito gratuito que deixaria carregada a leitura. O crítico é generoso em fornecer muitas das suas pistas de leitura e repertório e, o mais interessante, apesar de oferecer um texto literariamente bem cuidado, não deixa desaparecer de vista e nem tenta suplantar a obra lida.
Poucos são os críticos que pontuam seus textos com conhecimento refinado e demarcação honesta do lugar de leitura – entre eles vale aqui ressaltar que o trabalho do crítico Antonio Marcos Pereira é, na cena atual, um dos mais férteis e sólidos nesse sentido – e Arthur Nestrovski não apenas o faz como não se deixa cair na armadilha de seu próprio trabalho; ele mesmo escritor, enquanto crítico se impõe a tarefa de desvendar os mistérios dos textos e a sua relação com determinados assuntos/temas/acontecimentos/situações/histórias desde um lugar intermediário, buscando dar à obra uma certa luz, bem medida para não ofuscar.
“Palavra e sombra” é para mim uma bem-sucedida coleção de ensaios, funcionando ela mesma como farol que auxilia o encontro de caminhos, o diálogo honesto do crítico com a obra, complexa que é a tarefa da crítica e seu papel para a literatura. Afinal, retomando as palavras do próprio Arthur: “Se literatura fosse transparente, não seria preciso crítica. Se o mundo fosse transparente, aliás, nem seria preciso literatura. Palavras e coisas coincidiriam de modo absoluto, na luz de uma verdade sem sombra.”

Palavra e sombra: ensaios de crítica/Ateliê Editorial/R$ 35/165p.

Aventura, mistério e denúncia na literatura para os jovens


Publicado no caderno 2 + do jornal A tarde


O meu imaginário e o de muitos leitores certamente está povoado por clássicos como “A ilha do tesouro”, “As aventuras de Tom Sawyer”, “O escaravelho de ouro”, “O jardim secreto” e uma série de outros que vai da literatura mundial à brasileira com Monteiro Lobato e tantos outros, incluindo os da coleção vagalume. Certo é que jovens gostam, sim, de ler e de colocar a mente à prova de complicadas redes de mistérios e aventuras. É só desligar a televisão.
Assim que o mais novo livro de Eliane Ganem - já reconhecida e premiada na cena literária para o público juvenil -, “O caso do elefante dourado”, agrada pela agilidade narrativa e uma bem montada rede de enigmas a la Agatha Christie.
Aliás, a heroína do novo livro, a engraçada senhora Tide, personagem de um outro romance da autora, é uma espécie de miss Marple. A atrapalhada, mas muito sagaz, personagem conquista o leitor imediatamente por sua atitude corajosa e faceira. A história ambienta-se na cidade do Rio de Janeiro e intrunca uma série de roubos, seqüestros e assassinatos num misterioso caso que vai do furto de quadros famosos, guardados num dos maiores museus italianos, ao tráfico de cocaína no Rio de Janeiro.
A inclusão do cenário carioca do tráfico de drogas, apontando para a violência tanto policial quanto dos traficantes, com assassinatos de jovens e garotos, sumiços de vizinhos e etc, é bem interessante e aproxima as mentes juvenis ao cenário brasileiro urbano, sem deixar de incitar a fantasia e a curiosidade, já que há referências à arte renascentista, à ciência da criptologia e outras pequenas chaves enigmáticas.
A personagem de Tide, na verdade Judith, é sem dúvida bem construída e há algumas cenas hilárias, como ela surpreendida por um traficante, quando está sendo devolvida pendurada em um helicóptero sendo trocada pela falsificação de um quadro de Rubens. A cena é bem descrita e a surrealidade aparente nos remete às cenas televisivas corriqueiras no universo do crime. Os seus disfarces também soam cômicos, já que produzem uma espalhafatosa velhota que, sem pieguices e com muita graça, expande-se em doçura e agilidade mental.
A personagem é uma jovem de espírito, com um bom movimento na trama, e o corpo já afetado pelas marcas da idade, o que confere mais humor à trama. A sua relação de igualdade com os meninos do tráfico e a polícia explora um outro modelo feminino de heroína, não tão incomum, mas fugindo um pouco das personagens politicamente corretas ou romantizadas.
Bom ressaltar que mesmo tratando de temas delicados e violentos, a narrativa do pequeno romance alcança um certo grau de crítica e se resolve bem, de acordo com o que se espera, sem cair em didatismos morais fáceis ou gratuitos.
É certo que falta mais desenvolvimento psicológico das personagens – quase que lineares -, e mais ambigüidade literária, mas a escrita ágil acaba por manter-se num bom nível.
Todo o mistério do elefante dourado e do roubo de quadros termina por cativar também os adultos que gostam de enigmas, embora deixe-os certos de que possuem uma boa coleção de aventuras que jamais se apagarão de sua memória. Em todo caso, é preciso manter viva a fantasia e a curiosidade juvenis, ainda que no cenário triste das favelas, do tráfico, da corrupção policial, da vulnerabilidade desses meninos e meninas que vivem, eles próprios, o desaparecimento de corpos de forma tão violenta e triste. E isso a autora faz bem. É uma boa obra para os que curtem aventura e mistério e possuem sentido aguçado de humor.
O caso do elefante dourado/Eliane Ganem/Record/Galera Record/106 p/R$32,00.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

I SEMINÁRIO RASURAS: CORPO, LEITURA E ESCRITA



semrasuras@gmail.com




O I Seminário Rasuras: corpo, leitura e escrita promove o debate acerca de processos de leitura e escrita que se desenvolvem incontroláveis pela cidade, escrevendo a malha urbana, bem como os corpos que nela transitam. Desta forma, somos provocados a pensar como a leitura indisciplinar de textos multimodais, aqueles em que há a co-ocorrência de imagens, grafismos, sons, gestualidades, têm se disseminado na vida dos jovens nas periferias urbanas e como a escrita a contrapelo de normas gramaticais e sociais tem grafado, grifado e grafitado, da parede às telas de computador, não apenas riscos, mas outras formas potentes de subjetividades.


PROGRAMAÇÃO:




13 de outubro


14:00 – Mostra de documentários recartoGRAFIAS:
Herança Guerreira de Almir Meireles, Diego Beda e Helder Rezende.
Malvinas: do outro lado da ocupação de Gabriel Teixeira.
16:00 – Palestra: Letramentos de resistência: culturas e identidades no movimento hip hop – Profa Ana Lúcia (ILUFBA)

17:00 às 18:30 – Performances: RAP, graffiti e outras manifestações de leitura/escrita urbanas
19:00 – Abertura oficial do evento
19:30 - Mesa-redonda: Interfaces de leitura e escrita: dos muros à tela, do corpo às pick-ups
Profª. Milena Britto (IL/UFBA) - media dora, DJ Branco, Adson BOOB (grafiteiro), Negramone (b-girl)
14 de outubro


14:00 – Mostra de documentários recartoGRAFIAS:
Hip hop com dendê de Fabíola Aquino
O Resgate pela Arte de Antonio Anjos, Dinaldo Santos, Hilka Costa, Luciano Souza, Igor Leonardo
16:00 – Apresentação dos projetos de pesquisa que integram o Grupo Rasuras: estudos de práticas de leitura e escrita
17:00 às 18:30 – Performances: RAP, graffiti e outras manifestações de leitura/escrita urbanas
19:00 – Mesa-redonda - Etnoletramentos: quando o corpo negro é o texto
Prof. Henrique Freitas (IL/UFBA) - mediador, Prof. Nelson Maca (UCSAL/BLACKITUDE), Prof. Eduardo Oliveira (FACED/UFBA)



O EVENTO OFERECE CERTIFICAÇÃO COM CARGA HORÁRIA TOTAL DE 16 HORAS PARA OS INSCRITOS COM PARTICIPAÇÃO MÍNIMA DE 75%.


ISCRIÇÕES PELO E-MAIL: semrasuras@gmail.com
ENVIAR NOME COMPLETO E ENDEREÇO DE E-MAIL






Promoção:
Grupo de pesquisa Rasuras: estudos de práticas de leitura e escrita (ILUFBA)
Organização:
Prof. Dr. Henrique Freitas, Profª. Drª. Milena Britto, Profª. Drª. Nancy Vieira
Apoio:
Pró-reitoria de extensão da UFBA, ILUFBA, IHAC,PETROBRÁS

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Alinhamentos da cidade


Publicado no Jornal A tarde, caderno 2+ em 02/10/2010


O resultado de “Noites urbanas”, primeira ficção adulta do jornalista Daniel Piza, não é surpreendente, mas aponta para algumas marcas que, quiçá, pairem sobre a produção contemporânea: cidade e sujeito compartilham um tempo de voracidade e de tensões que fragmentam ambos; linguagem que resiste a contrastes e se mantém na representação direta da cotidianidade; apropriação dos condensados e novos meios de expressão, seja na imitação da linguagem gerada por esses meios, seja na inclusão dos mesmos na dinâmica comunicativa das personagens: Twitter, Blogs, Orkut, MSN, etc.
Os minicontos e contos do livro oscilam. Alguns, como “A escada rolante”, cujas poucas linhas não conseguem sequer explorar o movimento e as imagens que o título sugere, “Auto estima” e “Memória do futuro”, povoados de clichês sobre o universo feminino, não mereciam estar no livro, carecem de “história” e ritmo.
Mas há ali contos que alcançam magistralidade narrativa. O mini-conto “A ficha” tem quatro linhas, mas se realiza de forma contundente, dispara as situações do dia-a-dia em um tema tão afetado: a traição, a separação. As poucas palavras do conto são suficientes para invadir a casa de casais citadinos de classe média e o leitor mergulha nas tensões insinuadas e absorve as intimidades das quatro personagens que aparecem em tão pouco espaço narrativo.
O conto “Jogo da verdade” é outro que atinge qualidade e atrai o leitor para a sua estrutura interna. Lembrando, talvez, um filme do movimento Dogma - ou outro desses que colocam casais juntos para explorar a dinâmica e o que sairá depois das hipócritas relações e aparências se desfazerem sob o peso da intimidade cotidiana- a narrativa movimenta as personagens em torno de situações corriqueiras e põe assim em cheque também as escolhas, apontando para uma visão pessimista: os sujeitos da cidade estão embrenhados em tanta vida que nem sabem viver. A traição e falsidade cegam fortemente e o desfecho do conto prende o leitor numa teia violenta.
“Ledinha” e “Circuito interno” têm boas propostas, ainda que ambos não logrem extrapolar uma história bem contada. Ainda assim, se observam as nuances de uma boa literatura urbana: as tensões são conhecidas, as personagens vivas: boa construção, aliás, das personalidades das personagens, nos dois contos, mulheres que lutam para ter-se livre das amarras da sociedade e reivindicarem seus espaços de protagonismo, dentro das armadilhas todas que a vida impõe ao gênero.
O livro de Piza escolhe o humor, um certo humor irônico, para tratar dos temas, mas algumas vezes esse artifício é o mesmo que compromete as histórias. Em todo caso, é uma coleção interessante de narrativas longas e curtas que trazem à tona a solidão, o “contágio” do desassossego urbano, as tensões, as nuances e a virtualidade de uma cidade como São Paulo, onde se pode ver que as personagens são tão vinculadas aos espaços que ali estão e seus cotidianos vorazmente devorados pelo caos que, sob a noite, adormece.

Noites Urbanas/Bertrand Brasil/176p

A graça das horas



Publicado no A tarde - caderno 2, em 11/09/2010


A língua portuguesa tem plantado hastes na poesia com Camões, Pessoa, Drummond, João Cabral, Cecília Meirelles, Bandeira, o polifônico Valencio Xavier e tantos outros que adormecem sob a nossa falta de cuidado. É talvez sob o peso desse quase silêncio em torno do poeta carioca Bruno Tolentino que a reedição de sua obra “As horas de Katherina” chega.
Além dos 166 poemas de “ As horas”, o livro traz ainda a peça inédita “A andorinha, ou: A cilada de Deus”, cuja dramaticidade e eloqüência surpreendem os bons conhecedores do gênero, e um belo prefácio de Alcir Pécora.
Os 166 poemas das Horas de Katharina, que versam sobre a conversão de uma carmelita, são um verdadeiro manancial de erudição do autor, que demonstra referências históricas e profundo conhecimento clássico, lingüístico, além de uma variada experiência poética com relação à forma, à rima, à metrica: versos decassílabos, hexassílabos, octassílabos, sonetos, sextilhas e assim seguindo por longo caminho de domínio da arte poética, sem, entretanto, deixar de exibir que a forma obedece ao pulso da poesia: nada deve – ou neste caso é - ser gratuito.
À primeira vista, a poesia de Tolentino pode assustar os que não percorrem as muitas referências abordadas formalmente e tematicamente. Nessa obra, o tema espiritual é explorado também intertextualmente, já que as referências ao “Livro de Horas”, destinado às orações privadas na tradição catolica, é não apenas na estrutura, mas na articulação e organização temática. Há ali a estrutura das missas, dos rituais de devoção, a cultura católica de rezas, orações e uma infinidade de ritos de passagem.
Os poemas são uma experiência intensa, espaço no qual se vivencia a exploração dos recônditos da alma numa atitude de devoção e perseguição do caminho espiritual da heroína. A solidão da experiência mística é tão visceral quanto é gracioso, e o espanto também faz parte da descoberta. Assim, poemas como “Miserere” “Vade retro”, “O espelho”, “As luas” dimensionarão na linguagem, no mote, na forma, uma vastidão de tempo e sentimento que se espera apenas de quem vivencia a experiência, tanto a mística quanto a humana diante de situações marcadas por ícones.
O interessante das 8 partes de “As horas” é que não se esgotam as possibilidades de leituras, tanto da “perigrinação” espiritual de Katherina quanto dos movimentos católicos míticos e místicos. Os poemas de “As horas” cuidam do ambiente interno do convento, e, metaforicamente, do espaço espiritual e da natureza humana; esse ambiente é vivenciado também nos processos formais de estudos, observações, encontros e tensões – ali há as rezas, orações, livros, passagens bíblicas e teológicas: referências que são assinaladas em notas para os que, como eu, não possuem todos os instrumentos de leitura, além de símbolos e expressões do universo popular - e a relação pessoal de Katherina com a experiência religiosa. Mas, o mais valoroso dessa nova reedição é que a peça inédita “A andorinha”, de certa forma, compõe e completa a épica passagem da heroína pois é sobre o universo exterior ao convento e as relações familiares da “persona”.
Os diálogos são um desenho maravilhoso da dramaticidade oral e, ao mesmo tempo, um vivo encontro de personalidades intensas e profícuas. Tem-se, no conjunto, o retrato completo de uma heroína (alter ego de Bruno, segundo Pécora).
Todo o livro é de uma experiência única e valiosa: ler Tolentino é um desafio e, ao mesmo tempo, é ler poesia de uma maneira que só a palavra mesma pode dimensionar: Poesia.
As horas de katherina/Bruno Tolentino/Record/399 p.