sábado, 23 de abril de 2011

O amor no “lado B” da cidade

Publicado no A tarde, caderno 2+

Milena Britto – Professora do Instituto de Letras da Ufba




A literatura beat tem influenciado muitos escritores, particularmente, àqueles que enveredam por uma contestação da ordem burguesa a partir da agressividade da linguagem, dos temas abjetos, apodrecidos, escusos. Dentre os chamados “beats”, Charles Bukowski – que segundo alguns críticos não deveria estar entre os beats – é o mais ácido, o intransigente com relação à linguagem, ao estilo, aos temas. Impossível não pensar nele quando lemos algo duro, colhido dessa realidade sórdida comum a todas as épocas, países, cidades: a realidade dos becos, vielas, bares, prostíbulos.
Ao cair nas minhas mãos o livro de contos “Elas etc” assinado simplesmente por Tico, confesso que tive minhas dúvidas se iria gostar, apesar de ter uma apresentação assinada pelo Ferréz, que também foi o primeiro a publicar Tico na coletânea “Literatura marginal” em 2004. Mas isso tudo – minha desconfiança e suspeita – durou até eu sentar-me a ler o livro. Tinha algo de Bukowski ali, mas tinha, sem dúvida, uma pegada própria também.
Logo depois de passear pelas primeiras páginas, “desconfiei” que sairia dele abalada de alguma maneira. Para iniciar aqui uma conversa breve sobre literatura – pensando no tal Tico – tento não me deixar cair na armadilha de quem é o autor, tratando de ler a obra como algo independente.
Mas isso não é de todo possível. Não apenas por nossa tradição de autoridade da escrita, mas também porque a palavra pode ser assumidamente política (sim, podemos ir para Benjamin, Barthes, Foucault, Bakhtin, sair da análise do discurso, da estética literária e até da psicanálise) mas uma coisa é certa: no fundo queremos saber quem foi que escreveu aquilo e se possível até ver uma foto do sujeito. Então, sobre Tico, tendo ele sido descrito como anarquista, não foi possível livrar-me da informação e me via entre uma página e outra pensando nisso. Entre anarquia e favelas, esse Tico dá umas pauladas das boas, deixando arder as palavras sob nossos olhos, mas também deixando um rastro de delicadeza que comove.
Não, o leitor não tem a sensação de estar diante da Tv com os programas sensacionalistas sobre favelas e bandidos. É como se, ao contrário, todas as armadilhas que nos afastam dessa realidade comovente fossem arrancadas: fica apenas o leitor e aquele mundo escondido, temido por todos.
Os contos de “Elas etc” tem o protagonismo dado às mulheres, mas tem muito mais: um universo de escritores, referências literárias colocadas como pistas do imaginário poético do autor, cenários densos e, sobretudo, tem uma ligação intensa com a realidade das periferias urbanas. As histórias são construídas colocando-se as personagens num frágil fio que pende entre a vida e a morte, já que são partes desse “lado B” da cidade. Os contos são dos que marcam o leitor tanto pela narrativa precisa quanto pela tenacidade do envolvimento de quem lê com os sentimentos das personagens.
Há histórias de amor e morte em barracos nas quebradas. Em um conto, a droga, o cigarro, o sexo, o vazio de esperanças misturado à persistência de sentidos, deixam a sensação ambígua da impossibilidade de se evitar as tragédias e ao mesmo tempo a luta absurda pela emergência da vida. Depois do coito, no conto “Paixão explosiva”, o casal conversa, o homem fala de Byron, a mulher, até então quase anônima para ele, mostra a ternura e a curiosidade com a vida. O cenário é desmantelado, feio como se imagina um beco qualquer, um barraco qualquer, mas as imagens chegam a ser poéticas. Nada adianta, contudo: a tragédia impera mesmo sem balas e perseguição da polícia: a explosão do barraco pelo cigarro aceso da mulher dá um desfecho onde a surpresa é a “surpresa” e a dor do homem: há mais vida e mais sentimento do que se imagina por trás desses mundos outros.
“Álbum de retratos” é diferente, vertiginoso, ritmo frenético com uma espécie de transposição catártica. Um barraco, onde uma quadrilha se recupera de um assalto, é invadido por policiais que acabam exterminando o grupo. Duas personagens sobrevivem e sente-se a dor do bandido desesperado porque vê o álbum de sua família inexistente ser queimado: a fantasia de uma foto de uma família feliz importava mais do que as jóias roubadas e foi por isso apenas que houve assassinato das vítimas, o roubo era da ilusão da família e não do dinheiro.
A família volta outra vez no conto “A bela que abala libido e o almocreve”, no qual o sujeito recém saído da prisão assiste a morte de sua mãe prostituta pela Tv, atingida por uma bala perdida saída da arma de sua amante, uma policial. Ironia maior: ele havia tentado, sem saber de quem se tratava, dar à velha prostituta um buquê de flores. São muitos os contos, alguns muito mais interessantes do que outros, sobretudo com relação à narrativa e à linguagem, que oscilam.
A linguagem dos contos é peculiar: coloquial, explícita, direta, imperfeita, mas, também, com vestígios de erudição, vocabulário rebuscado que aparece aqui e ali de propósito. Eu achava, a princípio, que isso quebrava a força apelativa da representação daquela realidade, mas acaba sendo tanto um ponto de ironia como uma peleja com absurdos cruzamentos, com essa malha de tensão na que se vive hoje, os limites ou o limiar de pertencer ou não a um mundo.
Mas nada ali enfraquece o valor da obra, a qualidade da escrita. É “literatura A” mostrando o “lado B”. Tem vida daquele lado também. E o escancarado de lá é mais terno do que se supõe o lado de cá. Literatura dissidente marcando um tempo, uma geografia, uma política.
Editora Edições inteligentes/111p/$20,00

Mecanismos internos da escrita

Publicado no A tarde




O escritor J.M Coetzee, que nasceu na África do Sul e tornou-se cidadão austríaco, já ganhou um Nobel da literatura e muitos outros prêmios importantes; porém, a despeito disso, sua fama entre os intelectuais vem da forma como encara o seu papel de escritor e o lugar da literatura no mundo, no curso da história política e em sua condição de arte.
O seu livro de ensaios “Mecanismos internos” revela uma posição definida por si e para si como a de um escritor “consequente da leitura”. Para ele, a escrita só é possível porque ele lê; essa é a única forma para ele escrever e, mais ainda, a única que possibilita que a escrita seja algo próprio, algo em si mesma, já que ela resulta do exercício de leitura e de seu profundo entendimento.
A sua ficção é produto das reflexões feitas a partir de escritores ocidentais e essa escrita o põe em diálogo com o canônico e o não canônico de seu tempo, respeitando o lugar da “memória literária”, da tradição, do repertório.
Esse “ler” significa estabelecer forças e valores para determinados autores, considerando os mecanismos internos de suas produções, mas sem deixar de fora o lugar do sujeito histórico que é o próprio autor. Sendo ele próprio um escritor que localiza boa parte de sua obra a partir de um país pós-colonial e subdesenvolvido, esse aspecto adquire ainda mais relevância em seu lugar de crítico.
São muitas as vezes em que ele resgata o autor para ajustar a leitura que faz da obra. Quando analisa narradores na ficção ocidental, como no ensaio sobre Sebald, por exemplo, o faz destacando na obra a intersecção e a dimensão do sujeito histórico.
Nos vinte e um ensaios do livro, Coetezee exercita o seu olhar a partir das questões que permearam os textos escolhidos para resenhar e defende uma abordagem política vinculada às questões estéticas.
É assim que J.M Coetzee vai discutir escritores cujas obras circularam ou produziram-se a partir de contextos político-históricos, por exemplo o Holocausto, como se vê no ensaio intitulado “Paul Celan e seus tradutores” – nesse ensaio, as questões anti-semitistas são problematizadas nas relações entre tradutores e autores, bem como vai dimensionar o lugar de uma nova proposta estética, o que vemos quando ele discute Italo Svevo. Esse ensaio, em particular, serve para ver de que maneira o excentrismo do autor italiano e a sua “forma” moderna repercurtem na própria estrutura da produção ficcional de Coetzee, sendo mesmo uma espécie de mecanismo para o seu projeto geral de escritor.
Um papel ético e estético importante que, segundo ele, a literatura desempenha no nosso tempo é colocar a condição humana no centro da discussão. Não é à toa que ele dedica grande espaço a Italo Svevo, Sándor Márai e Walter Benjamin.
Ao abordar cada obra que se propõe a ler, Coetzee cerca-se de leituras que vão localizando, discutindo e questionando desde as diferentes razões pleiteadas por cada autor para justificar determinadas posições, até às escapadas que a psicanálise pode explicar - ou aponta o próprio exercício psicoanalítico dentro da obra. É assim no ensaio sobre Robert Walser cuja biografia inserida no ensaio, juntamente com o aspecto sexual destacado da personagem, leva-o ao percurso interno de construção do texto desse autor que, mesmo sem ser daqueles politicamente envolvidos num propósito, provoca uma ruptura e uma reconfiguração de direção a partir do lugar do desejo – ou, melhor dizendo, do desejo da personagem.
Depois de ler a obra ficcional de J.M Coetzee, o leitor talvez não espere dele um papel de resenhista ideal, dado o aspecto oblíquo de sua obra, mas é justamente o contrário: o lugar de crítico e ensaísta traz um texto absorvente e agudo. Esse “outro” texto, produto da razão e da erudição do autor, bem como de sua atenção ímpar à condição humana nos tempos de conflitos, guerras e desequilíbrios, revela um escritor que vincula a sua obra a sua condição de leitor do mundo, à condição de homem e de sujeito numa história em curso.
Mecanismos internos/trad. Sergio Flaksman/359p/ R$39,00

Enquanto dura um Jazz

Milena Britto – Professora do Instituto de Letras da Ufba
millenabritto@hotmail.com

Foi invocando os ecos da "geração perdida"que me inclinei a ler o premiado “Alabama Song”, do francês Gilles Leroy.
Das sombrias às mais ternas experiências de se escutar um bom jazz ou se ler um bom livro, só ao final se pode saber o saldo do ato. Neste caso, entrar na intimidade de Scott Fitzgerald, para o bem e para o mal, não possibilita ao leitor o gosto prazenteiro do bis.
Há quem pense que tentar ultrapassar os limites que separam a biografia da ficção é um exercício arriscado. A questão se complica ainda mais quando, como é o caso, a história fez do personagem mito e símbolo de toda uma época. É isso o que acontece com “Alabama Song”, romance no qual Leroy recria a figura de Zelda Sayre e sua atormentada existência junto àquele que foi seu marido, o romancista americano Francis Scott Fitzgerald.
Pertencentes à chamada “geração perdida” – termo cunhado por Gertrude Stein para referir-se aos jovens escritores norte-americanos nascidos no período de entreguerras – Zelda Sayre e Scott chegaram a converter-se em um dos casais mais famosos de Nova York.
“Alabama Song” é um relato cru, escrito em primeira pessoa, no qual Zelda – na idade de quarenta anos e reclusa em um hospital psiquiátrico – rememora seu passado e sua mal sucedida vida conjugal junto ao escritor desde a sua juventude.
No livro, Gilles Leroy desenha Zelda como uma mulher de caráter frágil, mas independente que, além de ser dotada de um grande talento para a escrita e a pintura, viveu, tanto no âmbito pessoal quanto no artístico, submetida ao cruel autoritarismo de seu marido, ciumento de sua criatividade e de seu temperamento apaixonado e vivo, distanciado das convenções da época.
Através da voz desgarrada de Zelda, Leroy desnuda sem pudores a figura de Scott Fitzgerald; despoja-o de seus elegantes trajes para descrever-nos um homem arrogante e degradado pelo álcool, cuja vida pessoal, segundo o romance, nem sempre soube estar a altura de seus êxitos profissionais e da imagem de refinado sedutor que projetava a seu redor.
Junto ao casal, pelas páginas do romance, desfilam outros autores com os quais Zelda e Scott mantiveram amizade, como Gertrude Stein, Hemingway (camuflado na história sob o nome de Lewis), John Dos Passos e Maxwell.
“Alabama Song” é um tratado em defesa de Zelda, no qual Leroy – em suas próprias palavras – pretende reivindicar sua figura e libertá-la dos prejuízos que, erroneamente, grande parte dos biógrafos de Scott Fitzgerald tem contribuído para difundir sobre ela. Segundo o autor, o famoso escritor não duvidou em nenhum momento de apoderar-se de alguns textos e artigos de sua mulher com a desculpa de que sob seu nome receberiam melhor acolhida, além daqueles que teria maquiavelicamente extraído dos diários e da correspondência privada de Zelda para elaborar seus romances.
Baseado em numerosos documentos disponíveis que reuniu sobre o casal, Gilles Leroy devolve a Zelda – sob a forma de um imenso monólogo a que o livro recorre do começo ao fim – o dom da palavra.
Durante a sua reclusão no hospital, Zelda se aferra a suas recordações numa tentativa desesperada de manter a lucidez e recuperar, de alguma forma, o sentimento de controle sobre a sua vida. Através da escrita, seu relato, entrelaçado aos fios dos episódios que vão aflorando livremente de sua memória – seguindo uma ordem cronológica – irá adquirindo o caráter de um doloroso ato de expiação. Ainda que pese a terrível carga emocional que acompanha muitas de suas recordações, sua voz, longe de fraquejar, amadurece e se fortalece com a dor, consciente de que só enfrentando com coragem as passagens mais obscuras de sua memória, é possível ganhar a batalha sobre a loucura e o desespero.
Com um estilo pulsante e irônico, que alterna passagens de grande sensibilidade poética com outras dominadas por um abrupto realismo – beirando até o escatológico – Leroy consegue manter o interesse e a tensão do leitor ao longo de toda a narrativa, cavando com profundidade os conflitos internos da mulher que foi musa e inspiradora do autor americano.
Sem dúvida, por muito que o romance resulte excelente, tanto em sua construção quanto no perfil que faz das personagens, através de sua leitura é inevitável se perguntar – como acontece sempre que nos deparamos com uma obra que conjuga elementos biográficos com fictícios – o que há de verdade e o que há de lenda atrás das pistas em que Leroy se baseou para construir seu romance?
De fato, depois da publicação, não foram poucos os protestos daqueles que consideram que Gilles Leroy traz em seu livro uma imagem excessivamente crítica de Fitzgerald; outras que dizem que ele foi muito longe em suas revelações, como o momento em que Lewis, alter ego de Hemingway , é flagrado em uma situação comprometedora, sobretudo pela evidência homossexual, junto a Scott.
Seja como seja, o romance, consegue deixar no leitor essa marca forte de Zelda e, sem dúvida, ao terminar a última página, como se toda a vida durasse um Jazz, há que se esquecer do “replay” e sair com Zelda – e Scott – atrás de alguma coisa perdida. Um geração perdida.

Alabama song/Record/207p.

Poesia dot com dot Bahia

Milena Britto – professora do Instituto de Letras da Ufba
millenabritto@hotmail.com


Nilson Galvão e Mônica Menezes possuem em comum algumas coisas: são poetas, blogueiros e publicaram pela coleção Cartas baianas. Os estilos, entretanto, são distintos, possuindo em comum a certeza de usarem a poesia para dar conta de um mundo grande que os acolhe e do mundo outro que habitam de verdade.
De ambos, coincidentemente, eu conhecia uma que outra poesia por fuçar blogs vez em quando, sempre pensando em arranjar tempo para escever sobre escritores que começaram com o blog.
Ambos utilizam os respectivos blogs mais como suporte e lugar de interação com o público do que como “linguagem”, ainda que os dois, cada um em seu estilo, algumas vezes insiram “imagens” para ilustrar os seus posts na blogosfera. Na transposição para livro, o trabalho não remete, em sua estrutura - versos, linguagem ou ritmo - ao suporte virtual.
“Caixa Preta”, de Galvão, que recebeu menção honrosa do projeto arte e cultura do banco Capital, é um conjunto de poemas que se move, coerentemente, pelas inquietas relações homem-mundo-vida-existência-morte-amor. Pode-se ver algo, de algum modo, nietzschiano por ali, além de algumas diretas referências, como à poesia de Walt Whitman ou à música de Billie Holiday.
Os versos possuem um sujeito lírico que assume a voz de todos nós, refletindo esse lugar do homem que pensa, sente e se inquieta: “Sou o veículo dessa história/qualquer em meu coração/sem prumo.O destino se esqueceu/de mim”.
Os poemas possuem distintas formas, a maioria sendo espécies de narrativas, pontuados, versos sem rimas, com quebras de ritmo interessantes, como se o corpo fosse tão convidado a “sentir” os poemas quanto, em maior intensidade, o pensamento: “O mundo gira, o menino chora:/dói o menino, onde mesmo será/que ele sente essa falta, e se sente/essa falta quem sabe girar pra saber/que ela dói,que ela/ dói mas é breve,/tão breve quanto o mundo que chora.”
O lirismo dos poemas nos chega colado às palavras escolhidas. Poesia para pensar e sentir, profundamente, as coisas, e dar às coisas seu sentido perdido. É boa poesia - para pensar ou para sentir.
Em “estranhamentos”, que também recebeu menção honrosa do banco Capital, Mônica Menezes nos coloca diante de um eu-lírico romântico, sensível, que utiliza a memória como “lugar” de encontro, expondo o seu sentir e compartilhando suas surpresas, suas dores, tristezas, amores, e oferecendo sempre um certo espanto, ou “estranhamento”: “amado, jamais serei a tua Dora Diamant/simplesmente porque sou outra mulher/e tu és outro homem/não sei cantar na língua sagrada/e nunca sonhamos com Tel Aviv/ no entanto desejo,/como a moça judia,/acolher-te o derradeiro gesto/ e talvez o meu grito/também dissipe o eco/da última oração”.
Com tons de Clarice, Adélia Prado e até Leminski, Mônica vai brincando, ora concisa, ora farta, com a relação entre sentimento e poesia, deixando-nos um rastro forte de memória - quase nossa de tanto que é íntima: “Meu avô/é uma cadeira de balanço/vazia”.
E oferece ainda uma marca feminina aguda, explorando todos os espaços de ser um sujeito poético feminino; e farto vocabulário ligado à natureza, sem medo ou pudores: “amanheceu/e o meu amor transbordou/chovi chovi chovi/uma forte chuva de amor”.
Os poetas-blogueiros se revelam, em seus livros, sérios em suas buscas, experimentando menos e trabalhando mais no sentido, preocupados em deixar a sua poesia dividir sentimentos, dúvidas, certezas, angústias e espanto. Eu espero vê-los em muito mais páginas, esquinas e “posts” na Bahia (dot com).
Estranhamentos /Mônica Menezes/ P55
/48p e Caixa Preta/ Nilson Galvão/P55/48 p.

Da janela se vê o Bósforo: a pintura com palavras de Pamuk

Publicado no A tarde
Milena Britto – Professora do Instituto de letras da Ufba
millenabritto@hotmail.com


“A literatura não permite a um escritor fazer de conta que salvou o mundo; no máximo, ela lhe dá a oportunidade de salvar um dia de cada vez.”
Quando terminei de ler “Outras cores – ensaios e um conto”, pus-me a pensar que tudo o que eu sei de escritores e escritura, leitores e leitura, é algo tão minúsculo que todos os anos de esforço pareceriam em vão. Contudo, ao invés de sentimento pesado, foi uma alegria constatar isso e saber que, para a vida toda, esperam-me descobertas que as palavras guardam e que só em um tempo próprio é que elas se farão matéria única.
Orham Pamuk, escritor turco que ganhou o Nobel em 2006, conseguiu compor uma obra imprescindível para aqueles que se dedicam à compreensão da força que a literatura tem para a vida. No livro, não há apenas uma escrita forte e bela. Muito menos é só o reflexo de um homem sensível, agudo e erudito. O livro confere os atributos anteriores adicionados à paixão de um homem pela escrita até o último grau; disposto a pegar todas as oportunidades para escrever com lucidez e com um poder de entrega tão grande que contagia o leitor.
Em seu livro, os escritos vão desde anotações sobre o cotidiano, entrevistas, contos, até ensaios e reflexões sobre política, análises literárias, escritos sobre cultura, guerras, disputas entre oriente e ocidente, terremoto, pobreza.Tudo sem deixar, em uma linha sequer, que desapareça o escritor e um leitor implícito, numa relação absolutamente sincera e assumida.
Em “Viver e preocupar-se”, o mote é a relação entre o autor e sua filha Rüya, descrita a partir de uma saída à praia, ou da contemplação do velocípede da menina no meio da madrugada abandonado em um solitário canto da casa. As palavras simples vão dando conta não apenas do profundo amor pela filha, mas de poder entender as pequenas coisas desta relação como uma forma nova de ver o mundo e de compreender-se nesse mundo. Orhan vai acrescentando a isso detalhes de vida externa, como nas duas crônicas excelentes sobre os terremotos perto de Istambul que fecham essa parte.
Nas duas crônicas, a dor por tanta desgraça é pontuada pelo olhar de Pamuk, que encontra as mínimas expressões da realidade que vão fortalecer a prosa que se estende pelos diálogos, críticas, dúvidas e emoções.
Orhan, em “Livros e leitura”, revela suas impressões e descobertas de leitor; comenta Victor Hugo, Dostoievski, Vargas Llosa, Arthur Miller, Thomas Bernhard, André Gide, Joyce,Virginia Woolf e uma série de escritores que passaram por seu caminho.
A condição de escritor localizado no mapa não faz da leitura de Pamuk um jogo contemplativo para nós, leitores ocidentais. Suas preocupações de homem interessado por sua sociedade, sua política e sua cultura, tão duras como deve ser para quem vive no meio do caminho, logram prender o leitor para além de conjecturas como “cultura hegemônica” versus “cultura marginal”. Ele confessa admirar o “orientalismo”, de Edward Said, mas suas observações desde aquele lugar acrescentam muitíssimo às análises.
Pamuk, que queria ser pintor quando criança, é um mestre do detalhe e em “Imagens e textos” ele revela toda essa capacidade, deixando-nos com análises magníficas, como quadros pintados com palavras, conforme sua própria definição de escrita. E repensa-se todo o tempo como escritor e como cidadão, basta ler o capítulo “Política, Europa e outros problemas de sermos quem somos” para ver.
Em “Meus livros são minha vida”, ele fala da chegada de Arthur Miller a Istambul; critica a política repressiva turca, revela-nos segredos de suas leituras, emociona enquanto chama para o diálogo entre culturas; e o belo é que, entre esses temas, descreve-nos sua mirada da cidade desde a janela de um táxi e, vez por outra, reacende-nos a imagem que ele mais gosta: a de ver o Bósforo no fim de tarde desde seu apartamento.
“Outras cidades, outras civilizações” encerra o volume e, posso dizer, com essa mistura rara entre o cotidiano e o mais intelectual dos temas que se vê em todo o livro, Orhan Pamuk logra comover-nos e tocar esse lugar da vida que tão esquivo e tão difícil de nomear é; isso que talvez seja apenas possível de juntar de forma mágica e viva na literatura. Como a desse escritor.

Outras cores –ensaios e um conto/Companhia das letras/trad. Berilo Vargas/477p./$R 57,00.

Ser ou não ser literatura: eis aqui a não questão

Publicado no A tarde

Fazer os jovens lerem pode não ser tarefa fácil; dizem que fazê-los ler, então, escritores antigos é missão quase impossível. Isso parece não ser verdade quando se vê o sucesso da escritora Paula Mastroberti na série “Reversões”, que tem a “Angústia de Fausto”, “Heroísmo de Quixote (premiado em segundo lugar com o Jabuti de 2006 na categoria Juvenil), “Retorno de Ulisses” e agora “Loucura de Hamlet”, que encerra a série.
O truque é velho: adaptar para os dias de hoje a história de “muitos ontens atrás”. Mas as ferramentas e a engenharia visual são novíssimas: encarar as páginas, a capa, o pé de página, as ilustrações como parte do “produto”; dar a ele ainda mais “concretude” com cenas de filmes, jogos e o que mais der cara, cor e textura ao texto literário. Mais diretamente dizendo, em alguns casos já não é o texto o que importa, mas todas essas midiáticas atrações. O que, no final, sobra de Shakespeare ali? Os jovens estariam lendo Shakespeare através de Paula Mastroberti? Deixemos disso agora. O que está em jogo é que um dos textos shakespeareanos mais estudados por filósofos, psicoanalistas, lingüistas, historiadores, retóricos, - “Hamlet” - vira um produto acessível aos que não costumam ler.
“Loucura de Hamlet” é um livro que mantém o argumento do texto de Shakespeare, mas as adaptações são para a situação atual imediata. O livro é trabalhado visualmente para encher de vontade os olhos habituados ao movimento, ao fragmento, ao império do visual. As colagens e desenhos compõem as personagens e os diálogos como se fossem uma obra híbrida, quadrinhos e livro.
Os textos são “montados” com recortes e simulação de diário e de arquivo de computador; tem notas de rodapé como parte do texto, explicando para o leitor as elipses mais “herméticas”, e “O retorno de Jedi” entra como filme, como jogo e como “personagem” da aventura. “Jedi” é o fantasma do Hamlet-Tomás, aquele que chega como seu pai pedindo vingança de sua morte.
Da “história” fica tanto que quase temos um certo incômodo e ímpeto de defender para o fantasma de William Shakespeare os direitos autorais do bem sucedido empreendimento. Alguns nomes são mantidos, Ofélia, Horácio, Polônio, Gertrudes, etc.
Dois irmãos gêmeos crescem numa favela; um se dedica aos estudos como tábua de salvação do ambiente violento, o outro se deixa seduzir pelo mundo do crime e vira um traficante poderoso. O irmão bandido, Antônio, casa com Gertrudes e tem um filho, Tomás.
A autora mantém personagens e outras são acrescentadas para dar maior veracidade à história - em primeira pessoa - narrada por uma personagem que nada tem a ver com a tragédia, sendo quase que assumidamente a figura do mediador.
Cláudio já não mora na favela quando seu irmão é assassinado. Casa-se com a cunhada e leva mãe e filho para um condomínio de classe média. Político “popular”, Cláudio conta com seu parceiro, Polônio, pai de Ofélia e Laertes, que é assassinado por engano no lugar de Cláudio.
Tomás, apaixonado por Ofélia, desiste dela ao vê-la envolver-se com drogas; finge-se de louco e planeja a morte do tio para vingar-se do pai, que julga ter sido assassinado por Cláudio, e mantém uma relação ambígua com a mãe, que parece cúmplice de Cláudio. Como na versão de Shakespeare, nunca fica claro o envolvimento do casal com o crime, embora se possa entrar no delírio do filho.
Ofélia se envolve com drogas e prostituição, suicida-se na piscina depois de matar o irmão a facadas quando se recupera de uma overdose. Tomás acaba se debatendo com a culpa, no limiar de sua loucura – fingida ou não. A disputa entre o amor e o ódio é chama inextinguível.
A tragédia toda é convincente nos dias atuais – já o cinema fez isso algumas vezes com vários dos textos de Shakespeare, de Romeu e Julieta a Otelo passando por Hamlet - e há os cruzamentos e confusão de estado mental de Tomás (evidenciado por interferência do “mediador”) mantido de forma inteligente.
Entretanto, sem nem perder tempo tentando dizer se o livro é literatura ou produto de consumo, uma coisa é certa: os jovens não estarão lendo Shakespeare – se bem que quem sabe o quanto de Mastroberti estariam lendo eles.
O fato é que Shakespeare é muito mais do que um argumento. Shakespeare é a linguagem, são as metáforas, são os ricos solilóquios das personagens, é estrutura dramática aristotélica; Shakespeare é Shakespeare por algo muito além de colagens e artifícios visuais, é sedução na junção magnífíca e sedutora de linguagem, ritmo, conteúdo, estilo; são mistérios escondidos dentro do texto. Os jovens vão ler – e vão gostar de como essa história é contada - mas, deixemos claro, nada disso vai suprimir a magistral aventura outra, a de ler e degustar um texto de Shakespeare com o sabor daquele.
É, portanto, carta fora do baralho entrar na discussão de ser ou não literatura; “ser ou não ser” está fora de questão. O que está ali é uma outra coisa. Esta, sem medo algum de dizer, fruto de nosso tempo e das nossas tecnologias. Cabe a cada um decidir como se satisfaz. Eu, certamente, prefiro dar a Shakespeare o que é de Shakespeare.

Paula Mastroberti/Rocco/136p./R$ 41, 50.

De amores e livros

Publicado no A tarde, caderno 2

O mais novo romance de Marcelo Backes, “Três traidores e uns outros”, vem acrescentar à literatura contemporânea matizes de um tempo cruzado.Como parece, a literatura, coletar as tendências, as idéias, a filosofia, os modos de viver de uma época, é possível traçar, na produção literária atual, caminhos que se repetem e se configuram como marcas dessa escrita: a literatura nacional vai se distendendo e se assomando a outras geografias, outras paisagens, outras vozes. É a geografia de muitos lugares dando conta da intimidade de sujeitos. Do sujeito brasileiro.
Assim como outros escritores dessa geração, o tradutor, crítico e romancista joga com os percursos globalizados da geografia, nesse momento capitalista de emoções perdidas. Dinamarca, Alemanha, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul são alguns dos lugares que vão surgir como parte da paisagem, que não apenas e não só no espaço físico se pode observar, mas também na língua, no passado reconstruído, nas histórias soltas e dispersas das viagens recolhidas, nos autores citados.
Passado e presente se vertem de força convergente no romance, que aborda o amor, o sentimento de perda e de espanto diante da dor das paixões – causadora de tragédias grandes -, enquanto se coloca a serviço de explorar com apuro a arte de narrar. Basicamente, é um romance que explora o amor como drama do sujeito contemporâneo - revelando-o, como dito na orelha, medieval nesse aspecto, ainda que inserido no tempo da velocidade e da tecnologia - e as formas de se narrar depois de uma história grande de tradição literária ocidental.
O narrador, um tradutor – como o autor, nessa “autoficção” de brinquedo e de verdade - vai experimentar narrar de dentro e de fora de situações, deixando que suas próprias vivências sentimentais orientem e se mesclem a outras, quando passa a ser o tradutor das sessões de psicoanálise de um empresário alemão ou quando se “envolve” na narração do drama de Toz, personagem que não escapa à armadilha de uma mãe freudianamente eficiente: tímido, sem conseguir namorar e ameaçado pela mãe de perdê-la para a morte caso viesse a se casar, Toz sucumbe ao caminho narrativo psicanalítico: enforca-se...
Às voltas com a sua própria história, o “tradutor-narrador” vai se reencontrar com Lática Mikalovic, antes sua namorada, agora autora famosa, e as reflexões sobre tradução, poesia, passado, sentimento vão sustentar uma certa solidão espantosa, tanto no caso do amor quanto na arte da escrita, aí bem pensada desde a arte de traduzir até a arte de criar.
O narrador-tradutor-mediador de histórias e personagem exigente vai levar o leitor em um passeio por tempos e lugares diferentes, trazendo línguas e paisagens de outras cenas; narrador perverso, cínico, acaba colocando o leitor exigente em roda de enjeitados; provoca e alimenta a curiosidade, mas exige muito para facilitar o percurso. É também a narrativa da volta à casa depois de longa viagem, o retorno às origens, ao passado, onde as lembranças viram matéria.
Há capítulos curtos e há “poemas”, há talvez traduções simuladas e há certeza de querer mostrar que a política mais certa, nas artes e na vida, não é a do nacional nem a do estilo: é a do amor. Sujeito contemporâneo, literatura contemporânea, presente e passado condizendo com o fato: a dor de um tal amor louco, do que se perde e do que não se teve, é o que sustenta qualquer literatura, em todas as artes, sem peso de língua ou de estilo.
Não fosse um certo “excesso” de discussão literária e sobre tradução – no romance a grande metáfora da vida e da arte -, seria mesmo um desses romances para ler e tentar formular melhor a idéia do que se tem na nossa literatura. Pensar a literatura digo. E é bem escrito, registre-se aqui, capaz de prender o leitor em reflexões da vida à arte a partir da palavra que dá corpo ao sentimento.

Três traidores e uns outros/Editora Record/176p/R$34,90.